Num apanhado por diversas regiões brasileiras, é curioso saber que motel é popularmente chamado de “casa de instantinho” em Santa Catarina. “Casar atrás da porta” é amigar-se, em Goiás, onde “fechar a porteira” é casar-se com viúva. “Peixão” tanto pode ser homem ou mulher atraente, no Rio de Janeiro, mas “vaselina”para os cariocas adquiriu o significado de conversa convincente. Sem muita conversa, capixabas dizem “Tô gafo (ansioso) pra acabar com isso e batê pro rancho.”

A língua portuguesa no Brasil é tão rica que, muitas vezes, é preciso tradução. Esta foi a intenção de publicar o (dicionário) Léxico de Guimarães Rosa, em que Nilce Sant´Anna Martins selecionou oito mil palavras utilizadas pelo escritor no seu conjunto de obras. Predominam os neologismos.

O registro de patrimônios orais e imateriais tem contribuído para a valorização da língua.  “Ixi, bocó, só me falta essa lestadaisteporá nossa fextênhafaz parte do linguajar nativo da Ilha de Santa Catarina. A tradução – só falta o vento leste estragar a festinha – é encontrada em dois livros: “Dicionário da Ilha: Falas e Falares da Ilha de Santa Catarina”, de Fernando Alexandre e “Dicionário de Regionalismos da Ilha de Santa Catarina”, de Ilson Wilmar Rodrigues.

O Brasil não conhece o Brasil. Sérgio Freire, no livro Amazonês, ajuda a entender melhor a linguagem de uma parte do imenso Norte do País. O site jangadabrasil.com.br, de Cristiano Ferreira Fraga,  possui um registro bem diversificado que inclui novos provérbios e até autores de algumas expressões: “Lugar grande, mora nele; lugar pequeno, passar por ele” foi uma conversa registrada entre o cidadão local Alfredo Chaves com o andarilho Chico Pinto.

No entanto, neste site, alguns termos ou palavras são citadas como originárias de mais de um estado brasileiro. “Já hojinho”, para quem tem pouco tempo”, é típico do Paraná e também de outros lugares. De qualquer forma, estas expressões possibilitam conhecer curiosidades e motivar pesquisas. É o caso de “estar de boi” ou “chegar de boi”, definição popular de menstruação em Pernambuco. Não seria mais apropriado citar a vaca ou outra fêmea animal? A resposta é que a sabedoria popular é soberana. Observe sem discutir.

Essas riquezas da linguagem oral não devem, não podem ser criticadas em nome de uma linguagem culta ou padrão.O mais indicado é  se tornarem patrimônios imateriais tombados, mediante estudos aprofundados, para esclarecer explicar, por exemplo, por que surgiu no Piauí o “ver alma de bigode” – ficar em situação difícil. Enquanto os capixabas empregam a palavra “cara” apenas para se referir a animais, defendendo que gente tem rosto, cariocas usam cara tanto para se referir a homens e mulheres. Por que essa diferença?

O filme de produção cearense Cine Holliúdy utiliza termos do Dicionário de Termos Nordestinos de Gilberto Albuquerque. É um Brasil poliglota, em que “balançar a tanajura” é sinônimo de dançar.  Ainda no Ceará há duas diferentes interpretações e imagens para definir ânus: ás de copas e anel de couro. Na Bahia, “bleforé e caga-fumo” são bailes de ínfima categoria. Ouvindo essas e outras estranhezas,alguns goianos vão “montar no gavião” – ficar envergonhado. Os “trelentes” – conversadores – podem até gostar. Para outros, isso é “lereia”, conversa mole para iludir alguém.

Overdose em Minas 

Com 853 municípios, Minas Gerais se subdivide em regiões com diferentes linguagens. O léxico de Guimarães Rosa se concentra na região Norte do Estado. É o mundo “lúcil” (lúcido) do escritor que, contraditoriamente, dizia “não me venha com “loxias’ (sabedorias complicadas). Com tanta sabedoria, até ganhou um dicionário próprio.

Os 146 municípios do Sul e Sudoeste mineiros são divididos em dez microrregiões. Foi em uma dessas micros que se popularizou o chá-de-caldeirão. Nenhuma relação com um longo chá de cadeira e espera. É a versão masculina do chá de panela. É em outra micro que surgiu o “De já hoje”, que significa pouco tempo atrás.

A diversidade mineira é tão extensa que dois livros de bolso (e de bolsa), com se20iscentas frases em cada um, foram publicados com o título Boca a Boca, somente para registar o coloquialismo de Guaxupé. Depois de terem sido publicadas no jornal e revista Atitude, por mim e pela jornalista Sheila Saad, fomos coautores das duas publicações. Há uma terceira inédita com mais seiscentas.

Os verdadeiros autores das frases e minicontos são anônimos. Pessoas que adotam um linguajar espontâneo e bem-humorado. “Escuta pra ver e me pensa o seguinte”, “É hoje que eu só volto amanhã”, ”Fui fazer uma viagem astral, cheguei atrasada quatro horas”,“Sou turco, estou negociando o meu karma”, “Quando a pessoa tira a máscara, perde o encanto”, “Ele não tem mais espírito. Você só vê a matéria andando”. “Ele é bão, mas também não é. Que  nem todo mundo”, “Bora espora nesse trem”. E por aí vai.