Não sou psiquiatra, psicólogo ou coisa que o valha. Toda a minha experiência com o divã ou com os remédios foi na condição de paciente. Sim, passei boa parte da minha vida adulta lutando contra a depressão. Por vezes, ela me imobilizava, prostrava, derrotava por completo. Em outras ocasiões, ela me parecia administrável. Mas algo me diz que ela nunca me abandonou, que ela sempre andou comigo, seguindo os meus passos a uma distância maior ou menor, esgueirando-se pelas sombras na maior parte do tempo mas, às vezes, mostrando sua fisionomia horrenda no espelho, pelas manhãs, enquanto eu escovava os dentes. Um ou dois passos atrás de mim, garras afiadas, dentes à mostra, pronta para me engolir, para me destroçar.

Vocês já, durante um pesadelo, tiveram a capacidade de perceber que aquilo tudo não passava de um pesadelo e, em estado de semiconsciência, conseguiram manipular o horror para que, ao cabo, ele tivesse um final favorável, redentor? Eu já. “Porra, isso é um pesadelo, não está acontecendo de verdade – bora reescrever o final do roteiro e vai ficar tudo bem”. Acho que foi assim que eu lidei com a depressão nas vezes em que eu consegui lidar com a depressão. Eu percebia a presença dela e ia lixando os tons de cinza devagar, até que o colorido aparecesse. Às vezes dava certo, às vezes não.

O mais horrível sobre crescer com esse espectro sempre à espreita é que a convivência prolongada com a depressão acaba moldando o seu caráter, a sua personalidade, o seu humor. Seus resmungos e seu catastrofismo podem acabar se tornando parte integrante de você. Aceitáveis, tornam-se, por vezes, características charmosas. Seu mau humor se torna engraçado. Sua falta de disposição para suportar certas coisas básicas da vida, idem. Você vai preenchendo seus buracos existenciais com sintomas, até que eles se tornam parte de você. Parece horrível, mas tenho a impressão de que pode acontecer e de que, talvez, tenha acontecido comigo.

Sei lá como ou por que razão, hoje, acompanho cerca de 1000 pessoas no Facebook e tenho 5000 amigos nesta rede. A maior parte, de esquerda. Desses, a maioria parece estar vivenciando algum tipo de luto. Uns ficam choramingando pelos cantos, decantando a falta de esperança, pranteando os tempos idos. Outros deliram, sem peias. Passam os dias e noites a conversar com um coxinha imaginário. Riem do coxinha imaginário, apontam o dedo pro coxinha imaginário, berram: “BATERAM PANELAS? AGORA AGUENTA!”. Os verdadeiros coxinhas, quando não foram eliminados da timeline dessas pessoas em algum momento entre 2013 e o ano passado, estão plácidos, contentes, a compartilhar fotos de gatos, cachorro, comida. Eles não ligam. Isso me assusta, pois é um sintoma, eu reconheço sintomas.

Esse texto, algo confessional, é para dizer que aquela sombra, minha velha conhecida, está rondando muitos de vocês. Vocês precisam se cuidar. Ou vocês dão o seu jeito de irem lixando, pouco a pouco, as diversas camadas de cinza, ou deveriam procurar tratamento adequado. Saiam dessa espiral de lágrimas, luto, negação, está começando a ficar preocupante. Luto não era verbo? Pois então.