Em junho de 2003, depois de sofrer uma crise depressiva, fiquei internado por cerca de vinte dias no Batuíra, um conhecido sanatório de Goiânia. Durante esse período, convivi com toda a flora da loucura e fauna do vício, isto é, com depressivos, bipolares, borderlines, esquizofrênicos, alcoólicos, cocainômanos, entre outros transtornados mentais e dependentes químicos. Muitos desses pacientes são hoje apenas um borrão na minha memória. Não lhes guardo o nome nem a fisionomia. De outros, no entanto, nunca pude me esquecer. É o caso de um esquizofrênico que vou chamar aqui, para preservar sua identidade, de Éverton.

Éverton era um galalau de uns 25 anos, negro como uma acha queimada, robusto como um hipopótamo e louco como só ele mesmo… Entre suas muitas bizarrices, estava o hábito de correr ao redor da sibipiruna que se erguia no centro do pátio da ala masculina, como se estivesse disputando uma prova olímpica com um ser imaginário. Mas ninguém que o via podia acreditar que sua intenção fosse meramente desportiva; qualquer outra finalidade parecia mais provável, até mesmo a de abrir um buraco no solo, pois cada vez que um de seus pés completava o movimento, o chão de concreto estremecia, produzindo um forte estrondo.

Mais bizarra ainda era a sua mania de cumprimentar seus colegas de confinamento o tempo todo. Estávamos lendo um livro ou jogando dominó, e lá vinha ele com as mãos grossas esticadas em nossa direção. Muitos pacientes o enxotavam, mais por impaciência do que por antipatia; porém, sempre havia aqueles que, atenciosos, aceitavam interromper sua distração para retribuir o cumprimento. O problema é que Éverton nunca se dava por satisfeito e, um instante depois, voltava para repetir o ritual. Era uma coisa aborrecida.

Certo dia, perdi a paciência e disparei:

– Por que diabos você gosta tanto de cumprimentar as pessoas?

Ele abriu um sorriso faceiro, licencioso, e deu uma resposta inesquecível:

– Pra foder!

Fiquei perplexo. Quer dizer então que, cada vez que eu apertava sua mão, estava tendo uma relação sexual homoerótica sem saber? Será que aquilo explicava o cansaço que eu às vezes sentia (havia dias em que eu chegava a apertar sua mão dez, quinze vezes…)?

Ao tomar conhecimento do significado daquele gesto, vi-me num dilema: contar ou não contar aos meus companheiros o que eu havia descoberto? Se, por um lado, aquilo parecia uma bobagem, por outro não me parecia justo deixá-los embarcar numa aventura sem saber o que ela era.

A reação dos pacientes ao saber da novidade mostra que a minha preocupação fazia sentido. Depois que lhes revelei o significado daquele estranho simbolismo, ninguém voltou a cumprimentar o fogoso Éverton. Cada vez que ele aparecia com a mão esticada, era logo enxotado.

Anos mais tarde, quando contei a anedota numa tertúlia familiar, coube ao meu tio fazer o melhor comentário a respeito do ardil:

– Esse é que era feliz. Não engravidava ninguém, não tinha que pagar pensão, não pegava doença e, o que é melhor, nunca cansava, estava sempre pronto pra mais uma.