As pessoas fazem coisas estúpidas. Fazem outras coisas muito estúpidas. E, algumas delas, de tão estúpidas que são, esteriotipam o autor como sendo uma espécie de idiota perene. Uma destas coisas é a queima de fogos.

Questiono se o fazem por hedonismo, palavra que vem do grego hedonikos, que significa “prazeroso”. O hedonismo determina que o bem supremo, isto é, o fim último da ação, é o prazer. Compreendo que haja prazer em ver o céu explodindo em luzes de diferentes formas e cores por alguns míseros segundos; no entanto, as pessoas se perguntam sobre o preço que pagamos por isso? E não me refiro à precificação monetária, mas às consequências deste prazer efêmero.

Antes de discutirmos sobre estes “efeitos colaterais”, é  importante ressaltar que a maior parte dos fogos de artifício consumidos atualmente apenas gera barulho, ou seja, sua explosão causa uma fortíssima poluição sonora, e segundo especialistas atinge a média de 120 decibéis, que é o limiar da dor para o ouvido humano. Portanto, causa danos à audição do idiota perene que o solta, bem como de todos que estiverem no entorno, sem dizer que, dependendo da geografia e da urbanização do local, o som pode viajar por quilômetros.

O estrondo traz incômodo à vizinhança, e pode causar desconforto em pessoas que estejam doentes ou assustar bebês e crianças pequenas. Além disto, deixa os animais domésticos nervosos, amedrontados ou assustados, podendo gerar acidentes ou até mesmo a morte dos bichinhos.

Em termos ambientais, os fogos são uma tragédia, os impactos à fauna são catastróficos, alterando a rotina e o comportamento de animais, e muitas vezes provocando a migração de algumas espécies. Já pensou sobre o efeito negativo da queima de fogos em locais próximos a áreas naturais preservadas?

Além disso, os foguetes liberam no ar uma substância altamente tóxica denominada estrôncio, e dióxido de carbono em altas concentrações. Desta forma, a poluição do ar cresce substancialmente em áreas onde acontece a queima de fogos. O COI (Comitê Olímpico Internacional) estuda abolir os fogos de artifício das aberturas e encerramentos dos Jogos Olímpicos e competições internacionais, no intuito de não contribuir para o recrudescimento da poluição.

Não bastassem os impactos acima mencionados, o material utilizado para fazer os fogos é dificilmente reaproveitável, pois as substâncias tóxicas dificultam o processo de reciclagem. Outra questão é que o seu manuseio pode ser danoso à saúde e os índices de acidentes com trabalhadores que fabricam fogos são altíssimos.

Também não são raras as explosões de locais que armazenam fogos de artifício clandestinamente, causando mortes e perdas materiais. Esta semana, uma explosão num mercado de fogos no México deixou 31 mortos e 72 feridos.

Em 2015, A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) lançou uma campanha de conscientização denominada Fogos de Artifício – um Espetáculo Perigoso. A campanha é fruto de um estudo, feito em todo o país, que aponta 122 mortes decorrentes de queima de fogos nos últimos 20 anos, sendo 48 no Nordeste, 41 no Sudeste, 21 no Sul e 12 nas regiões Norte e Centro-Oeste. Além de graves sequelas causadas por queimaduras e amputações.

Ora, considerando todos os riscos e os amplos prejuízos resultantes da queima de fogos de artifício, o que explica se “queimar” dinheiro por ruídos estrondosos ou luzes espocando no céu por míseros segundos?  Hedonismo? Idiotia?

O objetivo deste artigo é o de propor reflexões sobre ações inconsequentes ou práticas grosseiras. Ainda que a tradição do uso de fogos de artifícios remonte há dois mil anos -teve início na China -, é passada a hora de ser transformada. A tecnologia atual permite outras possibilidades muito menos nocivas, quiçá projeções holográficas no céu. Bem, é preciso que se busquem alternativas. Há  séculos, alguns povos sacrificavam pessoas em homenagens a deuses, atitude que hoje seria considerada hedionda. A queima de fogos também deve ser vista como algo obsoleto, anacrônico para as mentalidades contemporâneas, bestial.

Não solte fogos. Comemore suas alegrias! Festeje! Mas sem agredir a vida.