O filme de Ken Loach, escrito por Paul Laverty, é um longa do seu tempo, um registro histórico que nos faz lembrar de não esquecermos de que as desigualdades sociais e econômicas não são naturais, ao mesmo tempo em que são elas que fazem o capitalismo funcionar. O filme desestabiliza os sentidos evidentes sobre o real e desafia o espectador a pensar: até que ponto eu me aproximo ou me afasto de Daniel Blake? Eu sou mais um Daniel? Eu serei um Daniel? Eu conheço um Daniel? Eu me importo com o Estado que produz os Daniels?

O longa aborda a rotina de Daniel Blake, carpinteiro, com cerca de 60 anos, de Newscatle, na Inglaterra do século 21, o qual sofre um infarto e fica impedido pela médica que o atendeu de trabalhar. Daniel passa a lutar pelo auxílio financeiro. Para isso, ele tem duas “alternativas”: andar pelas ruas o dia inteiro procurando emprego, ou enfrentar as instituições governamentais e convencê-las de que ele não pode trabalhar por questão de saúde. A primeira cena do filme já mostra a “saga” do personagem para conquistar seu auxílio-desemprego junto ao governo inglês. O tom “leve” do início não dá indícios sobre o que virá. O riso curto, de canto da boca, pode enganar o espectador mais desavisado.  A partir dessa cena, o público vai junto com o protagonista e passa a participar de uma história violenta, visceral, necessária, digna e extremamente atual.

O recorte dado por Loach assemelha-se a um mosaico, no qual as partes parecem não pertencer a uma narrativa linear, centrada na versão psicológica de Daniel. E essa, ao meu ver, é a grande sacada do diretor: uma história tão realista corria o risco de ser previsível e monótona, como o jornalismo faz com a realidade diariamente. Mas aqui é cinema. E cinema é diferente.  Os cortes, que não duram mais de dois segundos, são refinados e não permitem  que o drama se torne um dramalhão, o que poderia afastar o espectador. Exemplo arrebatador dessa construção dramática é a cena da cesta básica; um soco no estômago. Algo que só o cinema é capaz de fazer, com sua fotografia fria, sua câmera que acompanha os personagens e dão a eles um enquadramento modesto, sem grandes efeitos; uma câmera que se movimenta pelos personagens, mas não com eles.

A história tratada no longa aborda o mundo do trabalho e consequentemente mobiliza inúmeros outros temas que o seguem como a mundialização, o antigo em contraste com o moderno – Blake é carpinteiro e nunca mexeu em um computador, o discurso do Eu-empreendedor e, principalmente, a burocracia.

O que é mais peculiar ao mundo do trabalho que a burocracia?

A burocracia não é imparcial. Ela coage, impõe e controla. É um dispositivo de poder que funciona há séculos, mas que se aprimora a cada ano.  O longa mostra que a burocracia tem várias facetas e pode se apresentar de inúmeras maneiras, seja na vida de Daniel ou na vida de Katie, uma jovem, mãe, que está desempregada, emigrante de Londres, que também luta pelo auxílio-desemprego para criar sozinha os seus dois filhos. A problemática enfrentada por ambos os aproxima. Katie e Daniel são personagens riquíssimos: a primeira é sempre expulsa das repartições por questionar e lutar pelos seus direitos, uma grande abordagem do filme sobre a exclusão daqueles que resistem, assim como fazem com Daniel, que resiste ao não desistir de seu auxílio-desemprego, mesmo com o governo fazendo de tudo para que isso ocorra.

O filme trata sobre o mundo do trabalho como um importante produtor da identidade dos sujeitos, daí o nome do filme e a necessidade do personagem ser lembrado pelo nome, numa metáfora que contrasta com os números, meio utilizado pelas instituições para identificar as pessoas. O filme também questiona a premissa de que o trabalho dignifica o homem e coloca o espectador a pensar: no capitalismo, qualquer um pode ter emprego; não todos, apenas qualquer um.

Apesar de o Estado saber que não há emprego para todos, ele finge que há, produzindo nos sujeitos a culpa por não estarem inseridos, mostrando como a burocracia funciona pelo cinismo, pois ao mesmo tempo  que o governo oferece cuidado, seja com a possibilidade de um auxílio-desemprego, seja com a doação de cesta básica, ele torna esse cuidado extremamente inacessível, minando qualquer possibilidade de dignidade. Para se inserirem, Katie e o vizinho de Daniel, um jovem negro, desempregado, começam a participar de atividades informais, um fio solto no longa sobre as questões que envolvem o capitalismo: ele produz a violência, a ilegalidade e a desigualdade, mas diz que a culpa é sua.

Por fim, o mérito do diretor é justamente imprimir a responsabilidade sobre o drama vivido pelos personagens no funcionamento social capitalista e não nos indivíduos, como é comum nas narrativas dramáticas. Em nenhum momento o filme individualiza a problemática vivida pelas personagens, mesmo quando aborda a má vontade de funcionários do governo, em contrataste com a boa vontade de outros funcionários, que nada podem fazer diante de um sistema que existe para ser burocrático. De modo geral, o longa mostra que o Estado capitalista é agente fundador da violência que o filme aborda, mas ele (Estado) finge que não tem nada com isso. Como notarão, a realidade continua dando argumentos para Loach permanecer atrás das câmeras.