Dentro das culturas em que a tradição oral é mais forte que a tradição escrita, as narrativas parecem ter um peso muito maior. Elas não são algo apenas para registrar o que aconteceu. As narrativas são o próprio evento acontecendo de novo. Por isso, as histórias familiares são sempre contadas e recontadas à exaustão entre os parentes. De certa forma as famílias, quando se reúnem, querem reviver estas histórias.

E estas histórias são tão repetidas que não sei até que ponto elas são de fato verdadeiras. Creio que o valor da verdade nelas seja secundário. O que importa é contá-las, e assim revivê-las.

A minha família, como todas as outras famílias, tem as suas histórias. E geralmente estas histórias só fazem sentido para os membros da própria família. E dentre estas histórias que existem dentro da minha família, pelo menos duas que sempre me marcaram. As duas têm como personagem central meu avô paterno.

Dizer que conheci meu avô em vida é um exagero, afinal ele morreu quando eu tinha um pouco mais de dois anos. Porém, se eu não o conheci, sua figura sempre foi forte para mim. Não sei bem o motivo, talvez por várias pessoas sempre dizerem que sou muito parecido fisicamente com ele, ou simplesmente por não tê-lo conhecido como gostaria.

Meu avô trabalhava em uma casa de torrefação, carregando pesados sacos de café. Era um homem humilde, casado, pai de três filhos. Morava junto com a irmã viúva, que também tinha uma filha. Gostava de tomar suas cervejas e de futebol. Não sei muito de suas preferências políticas, apenas de suas clubísticas. Era torcedor do Corinthians e do São Paulo, um time amador de Araraquara que disputava o campeonato local. Não morria de amores pela Ferroviária, simpatizava muito mais com a sua extinta rival, a ADA. Também era fã do futebol argentino, dizia que os hermanos é que tinham raça.

Descrito desta forma, nota-se que meu avô era um homem comum, com nada que pudesse destacá-lo no meio da multidão. Mas não para mim, afinal, ele é o meu avô.

A primeira das duas histórias envolve o lendário zagueiro Domingos da Guia.

Domingos da Guia, para quem nunca ouviu falar dele, foi provavelmente o maior zagueiro da história do futebol brasileiro. Dono de um estilo refinado de jogo, ficou conhecido por sair driblando os atacantes adversários em vez de recorrer a “chutões”, dribles estes, milimétricos e precisos, que ficaram conhecidos como as “domingadas”. Ele foi ídolo no Brasil, Argentina e Uruguai, e também um dos destaques da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938. Em síntese, Domingos era um craque.

Mas o que Domingos da Guia tem a ver com meu avô? Reza a lenda familiar que, quando o Corinthians anunciou seu desejo de contratar o zagueiro, lançou uma campanha de arrecadação junto aos seus torcedores para tornar possível a vinda de Domingos para o Parque São Jorge. Dentro desta campanha, o Corinthians espalhou urnas pela cidade de São Paulo onde torcedores poderiam depositar suas contribuições, e é aí que meu avô entra na história. Segundo meu pai, meu avô, que àquela altura ainda era solteiro, teria pego um trem lá em Araraquara e viajado para São Paulo, só para depositar uma parcela considerável de seu minguado salário em uma urna localizada na Estação da Luz, e assim ajudar seu time do coração a contratar o “Divino Mestre”. História que revela um pouco sobre meu avô, uma pessoa ingênua e apaixonada pelo Corinthians.

A outra história que sempre mexeu comigo aconteceu décadas mais tarde. O Corinthians amargava seu longo jejum de títulos, vinte e três anos sem um único grito de campeão, um período de grande sofrimento para a Fiel. Em 1977, depois de dois jogos contra a Ponte Preta, o Corinthians voltava a enfrentar a equipe de Campinas em uma terceira e decisiva partida. História contada e recontada, que inclusive até virou filme, aos trinta e oito minutos do segundo tempo, depois de um bate e rebate maluco dentro da área da Ponte Preta, a bola sobrou limpa para Basílio, que encheu o pé e estufou a rede.  Aquele chute não foi apenas um chute em uma bola, foi um chute que mandou para longe toda dor que milhões de corinthianos sentiam havia mais de duas décadas. Dor que obviamente era compartilhada pelo meu avô, e que ao final do jogo, aliviado, teria dito: – Agora posso morrer em paz!

Triste coincidência do destino, o fato é que aquela frase teve algo de profético, pois, menos de um mês depois do tão sonhado título corinthiano, meu avô faleceu. O que me consola um pouco, mesmo passados quarenta anos da sua morte, é que ele provavelmente morreu feliz, feliz por ver seu time finalmente campeão.

Como disse no início, todas as famílias têm as suas histórias, e se são verdadeiras ou não, pouco importa. A importância está no ato de contá-las, recontá-las, escutá-las e assim  reviver o que elas representam. Estas duas em particular servem para me aproximar de coisas muito importantes para mim: o meu avô e o Corinthians. Embora, muito em função destas mesmas histórias, o amor pelo Corinthians e o amor pelo meu avô sejam no fundo a mesma coisa. Meu corinthianismo nasceu muito por conta destas histórias que ouvi, mas também da admiração que tenho por esse avô com quem tão pouco convivi.

Todas as vezes que grito um “Vai Corinthians!” é quase como um canto tribal em que lembro quem sou, de onde vim, quem são meus antepassados e quais são os valores que eu devo ajudar a preservar. Quando falo do Corinthians, estou falando do meu avô e, por tabela, de mim mesmo. Por isso, quando digo sou corinthiano, não estou dizendo apenas que torço por um time, na verdade estou relembrando meu avô, estou falando da minha família e de quem eu sou.

Não quero com isso tudo dizer que sou o maior ou o menor corinthiano de todos, ou que quem não torce para o Corinthians não sabe a verdade sobre futebol. Nada disso. Estas histórias servem para mostrar parte da mágica do futebol e a sua força, capaz de conectar diferentes gerações, gerações que em muitos casos nem conviveram.

Sei que são muitas as histórias como essas, em que a paixão por um time serve como elo dentro de uma família. Minha esperança é que estas histórias envolvendo a minha família, e que outras histórias envolvendo outras famílias e o futebol, continuem a ser contadas e revividas até a eternidade, sejam elas verdadeiras ou não. No meu caso, verdadeiras ou mentirosas, elas passam pelo Corinthians, pelo Domingos da Guia, pelo Basílio, pelo meu avô e agora por mim.