Uma amiga me contava emocionada sobre uma pesquisa realizada em instituições de acolhimento. A princípio, o trabalho seria sobre o nível de conscientização em relação aos resíduos orgânicos, mas, quando a pesquisadora perguntou para a entrevistada sobre o que ela sabia a respeito daquele tema, ouviu algo surpreendente.

  – O que eu sei sobre o lixo? Eu sou o lixo.

  A resposta cortante da criança abrigada mudou todo o foco do estudo. A dura realidade da menina impactou não só a Doutora em Ciências Sociais com mestrado em Ciência Ambiental, mas todas as pessoas que estavam reunidas em um evento que se propunha discutir políticas públicas para a infância e adolescência. Quando alguém que está em pleno processo de formação declara sentir-se suja e descartável, um sinal de alerta é aceso. Significa dizer que não só a família, mas todos os atores responsáveis pela proteção desta população falharam e continuam falhando.

  A história do menino sem direito a ser criança me tocou profundamente. Me lembrei dos garotos de 9 anos que, por pouco, não foram linchados pela população de Juiz de Fora ao tentarem roubar uma loja de celular no Calçadão. Diante da multidão em fúria, eles foram alçados à condição de criminosos contumazes. Quando fui à casa deles, na Vila Olavo Costa, para tentar entender o que produziu aquele comportamento, descobri que as duas crianças eram filhas da indiferença e haviam sido adotadas pela rua. Com múltiplos parceiros, as mães que pariram outros sete não tinham tempo para eles. Ambos eram órfãos de uma família viva, tão esfacelada quanto o futuro daqueles filhos do Brasil.

  No momento em que meninos e meninas comparam-se a lixos humanos, me pergunto o que temos feito pela infância e juventude brasileiras? Em que instante da nossa existência, nós, adultos, nos tornamos tão endurecidos em relação ao outro a ponto de aceitar que uma parcela da população merece ser descartada? Que tipo de referência somos para quem se espelha em nós?  E por que fazemos questão de ignorar os grupos sociais confinados à periferia? Quando a criança é vista como o problema, é a sociedade que está gravemente adoecida.

  Enquanto desejarmos o melhor só para os nossos, continuaremos brutalmente desiguais. Se não aprendermos a cuidar, a metáfora do “lixo social” continuará sendo utilizada pelos sem-infância.