Era nossa terceira consulta. Inês tinha trazido o filho, mas ele não quis entrar. Ela se sentou, me olhou e começou a chorar.

“Não me conformo. Não consigo. Tão novo. Tão bonito. Por quê, doutora Júlia?”

Inconsolável, corria a mão de um lado para o outro sobre a mesa. Chorava, mais serena que na consulta anterior. Era uma dor contida. Seu filho, um rapaz lindo, havia poucas semanas recebera o diagnóstico de esquizofrenia.

“Ele não estuda, não trabalha, briga com a irmã mais nova como se fosse outra criança, não me ajuda em casa. Minha vida está revirada.”

“O que você achou dos remédios?”

“São feito água. Ele continua doido.”

“E o que você esperava que os medicamentos fizessem?”

“Ora… curassem. Consertassem ele….. Eu não penso que meu filho está estragado… é que eu tinha tantos sonhos pra ele.”

Novo silêncio e ela chora. “Por mais que eu insista, ele não estuda, ele não trabalha, ele não me ajuda. Eu não queria que ele se tornasse um peso. Não por mim. Por ele.”

“Quais eram seus sonhos pra ele?”

“Ah, casar, ter filhos, trabalhar, ter uma profissão”

“Pra quê?”

“Ora, pra ele ser feliz.”

“Você sabe o que significa o diagnóstico de esquizofrenia?”

“Doido.”

“Inês, há certas limitações que são estruturais, minha flor. Por mais que ele se esforce, é impossível que a mente dele se organize a tal ponto que ele vá viver uma vida absolutamente condizente com os sonhos que você tem pra ele.”

“Você acha que eu devo desistir, doutora? Desistir dele?”

“O que você acha?” Novamente um silêncio e o choro.

“Acho que eu preciso sonhar outros sonhos pra ele… talvez ficar só com a parte de ele ser feliz.”

“Acho um excelente começo.”

Nos encontramos mais algumas vezes por alguns meses. Ora na rua, ora no consultório. Ela havia voltado a sorrir e as olheiras sumiram do rosto. Em nosso último encontro, ela me contou:

“Guilherme tá ajudando o pai no estoque da loja e tá aprendendo violão. Está bem mais tranquilo com a irmã e a nossa convivência dentro de casa voltou a ser muito tranquila. Estou preocupada só com uma coisa. Ele conheceu uma moça e tá namorando. Ai, doutora, tenho tanto medo da moça engravidar!”

“Oxi, mas não era esse o seu sonho pra ele?”

“Mas doutora… ele tem problema.”

“Quem não tem?”

“Mas e se ele tiver um bebê com problema?”

“Todo bebê tem um problema. Asma, rinite, pneumonia, autismo, cólica, diarreia…”

“rsrsrs ai, doutora Júlia, você é meio doida!”

“Obrigada! rsrsrs Sai do controle, boba… deixa a vida passar.”