“Eu vim trocar minha receita. Se eles não me derem meus remédios, eu vou na delegacia. É meu direito. Meu médico do convênio já falou que é meu direito. Eu gravei no meu celular a moça falando que tem o remédio aqui, sim, mas eles não querem me dar. Estão guardando só para as grávidas. Quer dizer que não pode nascer um bebezinho cego ou retardado, mas eu posso ficar com problema sério no coração? Eu não quero nem saber. Não saio daqui hoje sem tomar essa injeção.”

“Fabiana, eu tô no meio de uma consulta. Eu vou terminar com este paciente e em seguida eu te chamo e a gente conversa, tudo bem?”

Ela fecha a porta sem responder.

“Fabiana, pode entrar.”

Ela entra, se senta, tira diversos papéis da bolsa e começa a falar.

“Eu não te conheço. Você não me conhece. Eu sei que você tá chegando aqui agora. Eu tenho que tomar essa injeção todo mês e eles não querem me dar. Eu sei que tem aí. Eu gravei a moça falando que tem guardado só para as grávidas. Eles me passaram um comprimido no lugar da injeção, mas eu não vou ficar tomando comprimido todo dia. Tá acabando com meu estômago.”

“Fabiana, este medicamento está em falta no mundo todo. Está faltando matéria-prima para produzir.”

“Não quero saber. Eu quero o meu. Que falte pras grávidas.”

Silêncio… Coloquei os braços na mesa, inclinei o corpo pra frente. Esperei que ela retomasse o fôlego, olhei dentro dos seus olhos. Com um tom de voz bem mais baixo que o dela, falei pausadamente.

“Além da receita, o que mais você gostaria que eu fizesse pra te ajudar?”

“Eu estou sentindo dores de cabeça insuportáveis.”

E começou a chorar compulsivamente.

“Eu nunca tive nada. Sempre fui saudável. Agora só fico assim. Primeiro as inflamações das articulações, depois as dores de coluna, agora essa dor de cabeça. O neurologista falou que é enxaqueca. Gastei um tanto de dinheiro com exames, tomografia, RX, exames de sangue. Já tomei um tanto de remédio caro. Nada faz melhorar isso. Não aguento mais. Vivo chorando, estou perdendo peso, quase não saio de casa…”

“Há quanto tempo você vem sentindo isso?”

“Tem 3 anos.”

“E o que aconteceu há 3 anos que mudou tanto a sua vida?”

“Eu me separei…”

Novamente um longo silêncio e muitas lágrimas. Fechou os olhos. Parecia tentar buscar na memória as lembranças de quando se sentia bem.

“Eu tive um aborto, logo em seguida, outro… acho que isso mexeu muito comigo. Tenho medo, pois já me disseram que, se eu não tratar esse meu problema de saúde com as injeções, eu posso desenvolver problema de coração e nunca mais poderei ter filhos.”

“Tantas coisas, né, Fabiana?”

“Muitas coisas. Vivo sozinha, sem família aqui, fui despejada. Tô morando na casa de uma amiga, num lugar que eu detesto. Ainda com essas preocupações com a saúde… Pior coisa do mundo… Ai, doutora… Você acha que eu preciso de uma psicóloga?”

“Você acha?”

“Acho.”

“Então, eu também acho. E acho que há medicamentos que podem te ajudar com essa dor de cabeça. Quer tentar?”

“Quero. Quero, muito. O que você passar eu vou tomar.”

“Posso marcar um reencontro nosso na semana que vem?”

“Sério?”

“Sério! Sabe, Fabiana, às vezes a tristeza vira doença, né.”

“Doutora, a minha tristeza virou dor.”

Ela seguiu seu caminho e eu fiquei aqui pensando em como achei essa moça cruel, arrogante, agressiva, impiedosa e chata antes de ouvir o que ela tinha pra dizer. Ainda bem que, como toda Médica de Família, eu me alimento dessas histórias. Preciso disso pra viver!

Desculpa aí, Fabiana! Sem saber da sua dor, eu te julguei sentada aqui na minha cadeirinha confortável e cheia de privilégios. Desculpa. Não repara, não.