Não fosse por suas flutuações de humor, tão bem demarcadas entre um dia e outro, pensaria que era um otimista desvairado, um sujeitinho cansativo, daquele tipo que está sempre sorrindo e saltitante, como a noviça rebelde, jogando flores para todo lado, cantarolando alguma música que cola na cabeça, exalando perfume de gente feliz. O certo é que ele oscilava; oscilava demasiadamente, e isto era tão enjoativo, pelo fato de nunca saber como deveria abordá-lo, pois deveria, antes, fazer uma hora de observação, alguns testes, algumas entrevistas, para só então aproximar um resultado e prenunciar seu humor para aquele dia. A verdade é que era tão cheio de mimimi num dia, e tão cheio de agressividade e euforia noutro, que, não fosse pela ausência de alguns sintomas, diria que ele é desequilibrado. Certamente diria.

Mas, como sempre, havia algo neste melodrama todo que me chamava atenção, que me punha pensativo e, portanto, enveredava-me pelas suas filosofias, algumas tão maçantes que mais parecia um bêbado achando que estava sóbrio. Refletia demasiadamente em dias tristes; em dias de alto astral, agia; sobretudo, agia sobre as reflexões dos dias tristes, e isto tomava minha atenção de especial maneira, pois bem sei que em dias tristes penso coisas que desconsidero em dias alternativos. Do meu ponto de vista, a verdade é que estamos sempre num meio-termo; o ideal seria estarmos no meio-termo. O saudável e, por assim dizer, adequado e padrão, seria o meio-termo: nem alegre e nem triste; nem sorridente e nem choroso; nem sofredor e nem risonho; apenas o meio-termo, algo que se assemelhe – ou que seja, propriamente dito – à indiferença. Um estado indiferente é um estado que não está apático, tampouco simpático: está, apenas… está predisposto às inclinações, tanto pra um lado, quanto pra outro.

Esta era uma das reflexões em que ele concordava comigo; uma das poucas, confesso, mas me contentava que fosse esta, pois era uma parte significativa de mim; ele dizia “se somos indiferentes, qualquer experiência nos é válida; se estamos propensos a querer alegria; a querer amor; a querer gozar, então será importante saber que teremos perdido a oportunidade de viver. A expectativa, meu caro, é quem decidirá o que e quando você viverá”. Eu concordava, em partes, mas cria não ter certeza sobre o que dizia da expectativa. Seria, então, o caso de não sermos livres, quando pensamos que somos? Quando crio expectativas sobre algo, estou, portanto, algemado à ocorrência que espero? E a suposta liberdade de viver e sentir? “Não há liberdade quando você constrói apenas um resultado…”; arrematava, como uma marretada, minhas dúvidas e incertezas. A expectativa, por sua perspectiva, era a delimitação de si no espaço-tempo, pois encerra as múltiplas possibilidades da vida; quando se espera por algo, deixa-se de perceber os vários outros “algo” que passam por si.

Ele sempre dizia que estamos – ou deveríamos estar – em uma tendência ao centro. Ora essa, que centro? – eu pensava; o centro de si; o centro que corresponde à imparcialidade; o centro que corresponde à indiferença de sentimentos, ele explicava. Mas não uma indiferença de apatia, de desamor, de desgostosura; uma indiferença fria, calculista, perversa. Nada disto. A indiferença que ele dizia era aquela que aceita qualquer coisa; aceita a alegria se lhe se apresentar; aceita a tristeza se lhe aprouver; aceita o amor, se assim acontecer: uma indiferença que aceita deliberadamente, pois não tem expectativas; não tem resultados prontos, abstraídos antes da experiência.

Assim, eu pensava, acariciando meus botões, tamborilando os dedos no joelho, apoiando a cabeça sobre a mão cerrada, que estar centrado é não se deixar arrebatar grosseiramente, tanto pela tristeza, quanto pela alegria… e por qualquer outra emoção, aliás. Não se trata de ser um “inafetável”, mas alguém que está lúcido o suficiente pra analisar com cautela suas emoções. E, como sempre, ele vinha com suas elucubrações, suas vãs conclusões que, assumamos, não concluíam nada; dizia, sempre apalpando os bolsos, num ar meio prepotente, de quem tem a razão e, por isto, não precisa fitar seu interlocutor, que “a emoção, boníssimo amigo, é um estado tão irracional, mas tão superior, que a própria racionalidade não dá conta de analisá-la; é por isto que ela acontece sem medida, meio que por conta, pois não há medidas para a emoção: ou há, ou não há”. E, mais uma vez, sabia que ele estava certo, pois não há tristezinha; não uma alegriazinha; uma raivinha, odiozinho, amorzinho; ou há tristeza ou não há; ou há ou não há e assim é para todas.

Neste lance de emoções e pensamentos, de raciocinar sobre algo que é, por excelência, incompreensível do ponto de vista da razão, eu me perseguia em voltas, como o cachorro que corre atrás do rabo. Se, então, a razão pensa e a emoção sente, qual a lógica de se autorizar ou não; de se recomendar ou não; de se determinar ou não o que é competência de cada? Digo, se a razão pensa suas coisas, e a emoção sente suas coisas, por que a ditadura da alegria, por exemplo? Sim, ditadura… porque isto que é!

Lembro perfeitamente que esta foi uma das poucas vezes em que o pus contra a parede, questionando sobre algo que também ele questionava a si próprio. Éramos dois contra um, sendo que estávamos apenas em dois. Sem ter certeza, ou buscando suas respostas lá na bagunça do seu inconsciente, ele afirmava, imerso e anuviado em um ar melancólico, parado, meio inflamado, que “perdemos… perdemos a capacidade de sentir. Nós só pensamos. E se nós só pensamos, então pensamos que sabemos sentir; pensando que sabemos sentir, julgamos sentir algo. Aí, então, frustramo-nos quando sentimos o vazio, pois o vazio tem gosto de nada, e o que não tem sabor não sustenta”.

Sim, o que não tem sabor não sustenta; era isto mesmo que eu concluía; claro que de uma forma menos rebuscada e menos alegórica, mas era isto que eu também pensava quando pensava o sentir: quando você consome alegria enlatada, destas à pronta-entrega, tipo um fastfood das emoções, a alegria é tão industrializada que perdeu sua essência, perdeu seu sabor, e aí é só uma “alegriazinha”; mas não uma alegriazinha no sentindo de ser pequena, pacata ou tímida; é no sentido de ser frívola, desinteressante, aborrecida e infecciosa. É como a cocaína ou qualquer outra droga que arrebenta por dentro: no primeiro uso, pouca coisa gera muita pira; depois, um pouquinho mais pra chegar à mesma pira da primeira vez; até que você perde as contas de quanto tem usado pra chegar à metade da última vez. Alegria enlatada é igual: come-se, come-se, come-se e nunca se enche de alegria, e aí você passa a ser só mais um viciadinho em experiências pseudodivertidas, que deveriam ter adrenalina, que deveriam liberar serotonina e outras porcarias no seu cérebro, mas só libera chateação e aborrecimento, e você fica frustrado por não conseguir estar feliz o tempo todo; e sabe o que acontece neste momento? O viciadinho sai por aí postando foto em redes sociais, com legendas de autoafirmação, dizendo “#goodvibes”, “#sorriasempre” e outras afirmações semelhantes que tentam convencer a si mesmo de que não, não está deprimido; não está triste; não está sofrendo; está sendo pseudoalegre.

E era aí que estava o pulo do gato, ele dizia: “por que, afinal, preciso estar estável no meu humor? Por que, afinal, há implicância com aqueles que sofrem um pouquinho hoje, outro pouquinho amanhã, não sofrem nada no terceiro dia e, quem sabe, ainda guardam um outro pouquinho pro final de semana, seja de alegria ou de tristeza, para saborear no domingo de manhã, por exemplo? Por quê? Por que devemos estar alegres e sorridentes o tempo todo?! Por que devemos contentar o descontentamento alheio?! Tipo um Show de Truman?! Em que as coisas são simuladas e não se sabe mais o limite entre o real e o fantasioso?! Por quê?!”; eu quase sempre armava um guarda-chuva quando ele fazia estas perguntas, pois era tanto veneno que destilava, me fitando com olhos semicerrados, dentes apertados, cigarro queimando rápido, de tanto que gesticulava no ar, que sempre respingava em mim. Assumo que eram questionamentos retóricos, daqueles que só existem para provocar reflexão, pois suas respostas, além de não responder coisíssima alguma, ainda não serviriam pra nada, se respondessem alguma coisa. Aliás, sua habilidade de atacar qualquer um, em nome da reflexão, era tão distinta, que sempre punha o interlocutor em dúvida: se deveria refletir pelas perguntas, ou se deveria se magoar pelos ataques.

O buraco era mais embaixo; a ditadura das emoções era algo pernicioso. Maléfica era a forma como nos ensinavam a sentir; a sen-tir! Que coisa absurda! Até nisto queriam meter o bedelho. “Ora essa! Não seríamos nós se não fosse pela interdição que os outros se nos impõem. Queria tanto saber como eu seria se não fosse o que sou… como eu sentiria aquilo que hoje sinto desta forma?”; e lá estava eu, concordando com as flexões da sua insanidade.

O terrível é que desta vez, maldição!,desta vez eu também estava perdido nos meus pensamentos. Ora essa, eu que sempre fui tão mais lúcido que ele, que fazia análises calculistas e conseguia bolar estratégias tão bem elaboradas para sair das suas encruzilhadas, agora tinha sido pego de calças curtas, por mim mesmo, de um modo que parecia mais um fuzilamento. Sim, um fuzilamento, pois cada coisa que eu pensava doía mais no corpo do que na mente; tamanha era a somatização da angústia, que já não tinha certeza se eu era um corpo que sentia dor, ou se eu era a dor que se apresentava a um corpo.

“Não temos mais permissão para autenticidade, nobre cavalheiro; você está desautorizado a sentir, seja lá que raios quiser sentir. Quer sentir tristeza? Não pode! Quer sentir amargura? Está proibido! Quer sentir raiva, ódio, melancolia, deprimência, uma coisa qualquer? Jamais será permitido! Abra sua rede social favorita e veja quantas pessoas estão te ordenando a sair pra rua, com um sorriso colado na cara”; e era exatamente isto! Aliás, se não se consegue sorrir genuinamente, encharca-se de remédios, que então tudo ficará bem; a geração prozac ainda não acabou.

Mas, depois de meditar tanto sobre suas oscilações de humor, sobre seus mimimis e amolações nos dias tristes, naqueles que, de tão nublados, chove mais dentro do que fora, pensava que ele, sim, era livre. Embora lhe dessem tapas na cara, encontrões e usassem de truculência psicológica para lhe dizer que não, não fique assim, as coisas vão melhorar, há luz no final do túnel – embora o túnel pareça começar e terminar no mesmo lugar, depois de dar uma volta no planeta – sempre há esperança, ele pouco se afetava com estas infantilidades de adultos; estas frases prontas, de efeito, de quem tira um maço de baralhos do bolso e saca uma carta e diz: “a frase de hoje é ‘não fique triste’”; estas inconsistências racionais que são ditas por quem, certamente, não resta dúvida, perdeu metade do cérebro e a outra metade apodreceu por falta de uso… ele não se afetava: deitava e gozava sua tristeza, sua melancolia, sua amargura.

Ele recendia podridão nos dias de amargura implacável; chegava a ter sabor de ranço com música do Roberto Carlos, de tão moribundo que parecia estar nos dias de tristeza; mas ele sim era livre, incólume em sua liberdade, pois permitia que a tristeza lhe revirasse o estômago, lhe retorcesse a cara; ele se permitia chorar, sofrer, espernear, berrar, se maltratar, se maldizer. Ele vivia suas emoções; sobretudo, nunca se escondeu delas, nem atrás de falsos sorrisos ou de cartelas de remédios. Era isto que o tornava mais próximo da humanidade, pois ele considerava seu espectro falho, inconsistente, em processo de desenvolvimento. Fazia qualquer coisa nos dias tristes, menos tapar o sol com a peneira, pois sabia que, tão logo tentasse abafar, como uma panela de pressão, a tristeza destruiria tudo quando viesse à tona, com força máxima. E este processo ele aplicava a todas as outras emoções – suas amigas emoções, ele dizia –, pois entendia que o sentir era próprio da condição humana, e não esperava racionalizar o que sentia. Ele, sim, vivia de peito aberto, sem medo de sofrer ou sabendo que sofreria, pois não pretendia se mostrar forte, fazendo pose de intocável; muito pelo contrário, ele mostrava sua força quando se despedaçava e, sozinho, conseguia se recompor. E era observando suas flutuações, suas inconstâncias entre o amar a todos e a misantropia; suas oscilações entre um otimismo absoluto e o quase uso de tentativas de suicídio; em meio a tanto vaivém de emoção, eu concluía: ele sabia sentir; sentia, aliás, a si próprio de um modo que ninguém mais sentiria; ninguém mais o sentiria, e ninguém mais sentiria a si próprio, tal como ele o fazia. Ele se entregava; rebelava e reclamava a liberdade para poder morrer… de alegria ou de tristeza, pois a ação de morrer é igual para ambas. “Experimentar a si próprio é um voo livre e solitário no inverno: você sente tudo, e não há nada além do frio de estar sozinho, e a sensação de pertencer a si mesmo”.

E era aí, em meio a este torvelinho de brisa mansa; em meio a esta tempestade de pingos quentes; em meio às ventanias e lufadas de bafo adocicado; em meio aos seus devaneios e digressões que eu, sem o menor entusiasmo pela vida, concluía sobre a ditadura da alegria. Esta ditatura boçal e pré-adolescente, de pensamento fantasioso e mágico; esta que vemos nos amolar o juízo dia após dia no facebook, twitter, instagram e caralho a quatro dizendo “sorria para a tristeza”; “põe um sorriso no rosto”; “aponta pra fé e rema”; “eu sorrio porque não tem lugar pra tristeza na minha vida”; concluía, por fim, que o medo de ser triste é tamanho que ninguém mais sabe ser feliz. Briga-se constantemente com a tristeza; dedica-se tamanha atenção à tristeza; fita-se incessantemente a tristeza, em nome da alegria, que me convenço que as pessoas têm um fetiche pela tristeza e não pela alegria.

“Você foi inundado pela razão e não há, sequer, argumento que possa desmontar o seu”, dizia-me, quase aplaudindo, enquanto eu ficava sem reação, por receber uma aprovação de quem nunca concorda com nada. Nisto eu tinha razão, ele não negava; aliás, tanto não negava, que, meio resignado, de lado na poltrona, fitando o canto da sala por onde corria algum grão de poeira, segurando sua xícara de café gelado, com o cigarro parcialmente queimado, com cinza no chão, dizia, pensativo, “é… é isto mesmo… quanto mais nos preocupamos com o não se sentir triste, mais estamos propensos a não experimentar a vida”. E isto era fato! Não tinha o que dizer de contrário.

A verdade era que, em meio a olhos opacos e atravessados, que olham através das coisas, ficávamos nós dois lá, sentados, abandonados em nós mesmos, ensimesmados de tal maneira que sequer tínhamos energia e dedicação para pensar em pensar. A verdade era que, finalmente, eu tinha entendido que era preciso que nos reconciliássemos conosco, e aceitássemos nossa condição de humanos; sim, condição de humanos, de humanos falhos, imperfeitos, em processo de nascimento, aliás, que existem, desde sempre, faltando um pedaço. Aliás, é justamente a falta, esta falta que nos completa; esta falta que vem conosco desde sempre, que é o alvo da alegria desmedida, pintada e enlatada, que tanto se consome e se vende: afinal, tenta-se, inutilmente, é verdade, acumular tanta alegria quanto seja possível, que ela tape os buracos que nos figuram. “Um homem, quando aceita seu destino, declara fim à própria guerra”, dizia ele, olhando de soslaio os pensamentos que lhe estimulavam o espírito; dizia ele, falando metaforicamente, sobre a condição de humanos que não queremos aceitar: ou seremos deuses, ou não seremos nada; e parece não querer haver negociação.