– Fala, Raimundinho, como vão as coisas?
– De saco cheio, amigo. É terrível morar nessa droga de interior do nordeste. Nada acontece nessa cidadela. Bom mesmo seria morar numa capital. Fortaleza por exemplo.
 – O João tá morando lá. Gostou um pouco no começo. Mas, depois de uns meses, disse que tinha se arrependido. Uma das cidades mais violentas do Brasil. Disse que ia se mudar pra São Paulo. O centro cultural do país.
– O José não se mudou pra São Paulo também?
– Se mudou. Disse que era a realização de um sonho. Mas isso foi só no começo também. Disse que o trânsito é insuportável. Se mudou pra França agora. Centro cultural da Europa.
– Que massa. Ele deve estar feliz lá.
– No começo estava. Mas depois disse que os franceses eram mal-educados. Tinha muita criminalidade em relação ao resto da Europa. País laico. Estado comunista. Fora que é praticamente impossível usar o transporte público lá. Superlotado. Se mudou pra Alemanha. O país dos maiores filósofos modernos.
– Show. Estou errado ou a Lurdes também se mudou pra Alemanha?
– Está certíssimo. No começo ela disse que tinha descoberto a felicidade. Depois de um tempo, achou um terror. Por mais que estudasse o idioma, nunca aprendia. Muito frio. O povo é muito bairrista. E a Alemanha enfrenta o maior problema de desperdício de alimentos da Europa. Ela disse que, com tanta gente passando fome no mundo, era inadmissível. Se mudou pra Suécia.
– Mitou. Impossível não ser feliz na Suécia. Como ela está?
– Pois é. Ela se matou. A Suécia tem um dos maiores índices de suicídio do mundo.