“Esse fim de semana, nem adianta chamar nenhum amiguinho seu, pois todos estarão com os pais, é dia dos pais, você não sabe?” foi o que ela disse a ele. Que não sabia nem se lembrava de como é que as pessoas se comportam no dia dos pais: não conhecia o seu. Olhei fulminante a ela, mas lembrei  que eu também provavelmente não sabia as consequências em lembrar alguém a cada cinco minutos dessa data.

Alguns dias antes, ele já havia me dito “Vai ter apresentação musical de dia dos pais. Você vai, né?”. E, claro, eu respondi que sim, afinal na hora do aperto quem cobria aquele papel era eu.

Não parece ser motivo de preocupação de ninguém o cuidado em lembrar uma criança sem pai sobre uma data que nada lhe diz.  O que me irritava muito. Provavelmente só a mim, espero.

Eu tive um pai. E dou graças a deus do meu filho não saber o que é ter um pai participando de sua vida. Faz falta. Agora parece também ser algo diluído em uma fotografia corroída pelos dias e pela nova pessoa que me tornei ao longo da distância. Já ficou para trás. Não sinto mais seu cheiro. Porque, por muitos anos após sua morte, eu sentia seu cheiro. A periferia não perdoa. Alguns são menos perdoados. Há menos perdão aos pretos, aos nordestinos, aos descendentes de indígenas. Porém, periferia é periferia. Um assalto. Sem perdão. Aqueles adolescentes deveriam estar lendo ou em uma roda de capoeira, tocando, fazendo raps. O Estado não perdoa. Tira tudo para depois cobrar pela segurança.

Já fazia algum tempo e isso tudo me veio à mente conforme a fome me embalava. Aquele dia havia uma salada de macarrão na escola, mas o churrasco cheirava forte. Comia meu estômago, alimentava minha raiva.  Eu estava sem dinheiro e justamente aquele dia a carne seria cobrada. Ainda bem que ele estava brincando com os amigos, pois sei que estaria dando um piti por eu não ter a grana para um espetinho.

Dez anos e, no máximo cinco mil reais, dinheiro que obtive num acordo para que não passasse mais tempo na cadeia. Seria mais, mas 20% vão para o advogado, afinal nunca paguei seus honorários. A mãe dele outro dia, nessas tentativas de retomar relações que nunca existiram, disse que o avô não conheceu o neto graças a mim. Afinal “Como assim impedira criança que nunca viu a família paterna de ir passar um final de semana a sós com ela?” Ele tinha uns três, quatro aninhos, e a primeira coisa que me disse ao noticiar a ele que iria conhecer o pai foi “mas você não vai me deixar sozinha, né, promete?”. Prometo, filho.  E foi cumprida. Não o conheceu. Uma das poucas cumpridas. As outras,cansada demais para lembrar.

Com raiva.

Dele inclusive.

Dele…

(isso nunca vai ser devolvido)

Porque o mundo dizia que tudo isso, toda essa raiva vinha da existência Dele.

 O pai, não. Pais são assim mesmo.

(Aliás, feliz dia dos pais atrasado!)

Da família não. Quem pariu Mateus que balance.

Da faculdade não. Quem quer estudar não abre as pernas.

Pais não abrem as pernas para fazer filho.

(Feliz dia dos pais novamente, talvez ano que vem eu esqueça!)

Do Estado…

A maior parte de nossos representantes políticos clama a família como símbolo de caráter. Citam seus filhos como um mérito  e não um acontecimento biológico natural. A metafísica das relações patriarcais em que são feitos os filhos legítimos e os bastardos. E em que as filhas dos pais mais pobres servem de deleite ao final do dia, em sítios de prostituição infantil.

O pai.

Onde estava o pai daqueles adolescentes que mataram o meu pai?

E onde está o pai do seu filho, sempre me perguntam os bisbilhoteiros, já querendo assuntar sobre a minha vida sexual, pois o bem-estar da criança, quem pariu Mateus que balance. E perguntam à própria criança, sem nenhum cuidado, a fofoca interessa mais que o incômodo da criança.

Já sabia sobre o meu pai “E seu pai, mãe? para onde as pessoas vão quando morrem?” Não sei, filho. Eu prefiro acreditar que viram estrela.

A noite daquela festa na escola não estava nublada quando eu cheguei. Mas aos poucos, o tempo fechou e eu que resolvi sair mais cedo da comemoração. As estrelas estavam já cobertas pelas nuvens e desaguavam sua força, enquanto em tantas casas pais estão sendo gerados no ventre de uma mulher.  Alguns nascerão. Pensei na chuva aguando as plantas que eu sempre me esqueço de regar e, na visão que eu tive nos últimos dias, uma voz dizia para eu não ter medo das águas que há em mim e nas pessoas. Não temer o mar.

As estrelas ainda estavam lá e eu sabia disso. E já era meia-noite e um quando lembrei que também viria o dia dos pais, a comemoração na escola foi na sexta, mas a data oficial era no domingo. E lembrei que também tive um pai, embora aquela data pouco significasse. Aos poucos, seu sentido afastou mar adentro, rumo ao infinito. Teria adorado conhecê-lo, seu neto.

Feliz dia dos pais atrasado, pai.