Recentemente as redes sociais foram tomadas por duas notícias que chocaram muitas pessoas: dois estupros coletivos na mesma semana aqui no Brasil. O primeiro, no dia 21, de uma adolescente de 17 anos que foi drogada e abusada sexualmente por cinco homens. O outro, no dia 24, de uma outra adolescente de 16 anos de idade, no Rio de Janeiro, que foi estuprada por 33 homens, filmada durante o ato e teve as imagens divulgadas na internet. Dois dos estupradores já foram encontrados e a captura deles só foi possível graças às denuncias do vídeo postado ao Ministério Público. Após a repercussão do segundo caso nas redes sociais, mensagens de repúdio foram amplamente postadas pelos internautas. Infelizmente, além das mensagens de solidariedade, frases como “se estivesse em casa lavando a louça não teria acontecido” também pipocaram em meio aos comentários das matérias.

Os estupros mal começaram a ser divulgados e classificações como “monstros”, “pena de morte” e “vai virar mulherzinha na prisão” também passaram a surgir em meio aos comentários. O que, contudo, se perde ao fazer isso é a discussão realmente necessária: são realmente monstros?

Como teriam trinta “monstros” coincidentemente se encontrado e ido morar na mesma comunidade para praticar esse tipo específico de violência? E os cinco “monstros” do Piauí? O que têm em comum com os do Rio de Janeiro?

Eles têm em comum a cultura do estupro.

A cultura do estupro pode ser observada não somente pelos atos de violência que sofreram essas duas adolescentes mulheres, mas pelo modo como o caso foi divulgado e recebido pela sociedade. A começar, pela descrição dos estupradores e das vítimas. Se fizermos uma comparação, quando assaltos e crimes contra a propriedade e contra homens são noticiados, dificilmente o título da matéria é “O suposto assalto” Estupros são sempre divulgados como “supostos estupros”. Alguns diriam que é uma medida de cautela para não se acusar de maneira leviana pessoas inocentes. O mesmo procedimento no entanto não é utilizado para descrição de assaltos e furtos. Mesmo após acharem a vítima e verificarem que o estupro ocorreu, os textos continuaram  divulgando os casos com o termo “suposto”. Um outro dado que salta aos olhos é que, ao contrário das notícias sobre assaltos, a primeira descrição é sobre a vida da vítima. E leia-se: “a vida errada da vítima”.

Dificilmente leremos sobre um assalto descrições do tipo  “era usuário de bebida alcoólica/drogas e levaram o carro dele”, “costumava andar à noite com carro importado destravado”, “estava alcoolizado quando levou um tiro na testa”, “tinha um filho, mas há cinco anos não pagava pensão, foi ao samba e sofreu o assalto”.

Casos de violência contra a mulher e, se for pobre, à sua condição de pobreza, são sempre o enfoque inicial  em textos e comentários sobre violência contra a mulher. A suposta “brecha” da vítima inicia as descrições para somente depois o crime ser colocado em pauta. Nos dois estupros divulgados, detalhes sobre a vítima já ter feito uso de drogas, e uma delas ter um filho de três anos, rechearam os textos na mídia.

Não é coincidência terem aparecido nos comentários do vídeo na página de um dos estupradores afirmações como “já é drogada mesmo, deve estar acostumada”. A avó da moça relatou à imprensa que, ainda que saísse com frequência e fosse a festas, a neta nunca havia sofrido abuso. Assim, nem mesmo a afirmação de que ela estaria “acostumada” pode ser confirmada. Mas, mesmo que tivesse passado por muitos abusos antes desse, o estupro não é uma experiência com que seja possível se acostumar.

Podemos observar uma aproximação de vozes entre imprensa e estupradores. Se para a imprensa e seus leitores é importante destacar que a vítima deu “motivos” para o estupro, também foi esse o critério para a escolha da vítima pelos estupradores.

É também simbólico que na mesma semana o ator Alexandre Frota tenha sido recebido pelo Ministro da Educação para apresentar propostas na melhoria do ensino do país. Por quê? Porque o ator em rede nacional fez a descrição de um estupro com o mesmo tipo de “humor” que os rapazes do vídeo e isso não abalou em nenhum momento sua credibilidade, inclusive sendo recebido no palácio do governo para propor pautas sobre Educação. Tão bem recebido quanto pela plateia do programa que empiricamente também achou muito engraçada a cena (seja real ou fictícia).

Ao procurar a notícia sobre o estupro da adolescente do Rio de Janeiro, o internauta poderá se deparar com a maravilhosa sugestão de vídeo pornô com o seguinte título “safada com mais de trinta homens”. Mais coincidência? Não. Essa é a sexualidade culturalmente construída como sendo a masculina e feminina. Qualquer mulher heterossexual, por mais desejo sexual que tenha, sabe que tentar fazer sexo com 30 homens é se colocar em risco iminente de estupro e violência. Porque eles podem resolver no meio do ato que ela é uma vadia e”deve estar acostumada a ser arrombada”.

Não foram monstros nem no Piauí nem no Rio de Janeiro.

Se cruzarmos os casos aos dados da ONU sobre como o Brasil se posiciona em relação à violência contra mulher (1 estupro a cada 11 minutos), veremos que os “monstros” são em um número suficiente para afirmarmos que ou é um país inteiro só de monstros, ou não há monstros, mas uma cultura de normatização do estupro.

A Índia geograficamente parece muito distante e o horror que as mulheres sofrem lá parece tão distante quanto o país. Mas o que nos separa culturalmente em relação ao tratamento que damos às mulheres é que aqui não exigimos que saiam de burcas. Mas as incentivamos a sair sem, para depois as culparmos pelas violências que sofrem.

A Índia também é aqui.