Talvez Ludwig Feuerbach seja mais conhecido pela influência que exercera sobre Karl Marx do que propriamente por sua obra. Mas o pensamento do filósofo alemão é deveras denso e profundo para ser reduzido a apêndice de Marx.

Antes de falarmos propriamente de Feuerbach, cabe uma breve contextualização histórico-filosófica. Com a filosofia de Friedrich Hegel, no início do século XIX, a especulação metafísica chegou ao ápice. Depois disso, o idealismo alemão começou a sucumbir sob as duras críticas dos filósofos que o sucederam, entre os quais Feuerbach e Marx, por um lado e Schopenhauer e Nietzsche, por outro. Enquanto os primeiros transformaram o idealismo absoluto hegeliano, aos poucos, em materialismo histórico, Schopenhauer e Nietzsche, por sua vez, se colocaram em oposição radical ao reinado da razão de Hegel, inaugurando a filosofia da Vontade.

Partamos, então, para Ludwig Feuerbach, que nasceu em 1804 no país que seria a Alemanha. Nos primeiros anos de estudo foi profundamente marcado pelo pensamento hegeliano (abandonou os estudos de Teologia para tornar-se aluno de Hegel, durante dois anos, em Berlim). Passado esse tempo, tornou-se um crítico severo da filosofia do mestre e, em 1828, começou a estudar ciências naturais. Dois anos depois publicou anonimamente seu primeiro livro, “Pensamentos sobre Morte e Imortalidade”, obra na qual ataca a ideia da imortalidade, sustentando que, após a morte, as qualidades humanas são absorvidas pela natureza. Em 1839 publicou “Sobre Filosofia e Cristianismo” que discutia a essência antropológica de toda religião, uma das obras que mais influenciou Karl Marx. Ainda publicou vários livros, dentre os quais podemos destacar “Crítica à filosofia hegeliana”, de 1839, “Princípios da filosofia do futuro”, de 1844 e “Espiritualismo e materialismo”, de 1866. Morreu em 1872.

Como adiantamos brevemente, Feuerbach tece veementes críticas à filosofia de Hegel. De maneira didática, podemos reduzi-las a dois pontos principais. O primeiro refere-se à valorização hegeliana do abstrato em detrimento do concreto e real. De acordo com Feuerbach, a filosofia idealista de Hegel é ausente de determinações concretas, pois gira em torno do conceito e da lógica. O empírico, enquanto presente, é concebido por Hegel como aquilo que deve ser suprimido em prol do abstrato. O segundo ponto diz respeito ao método de investigação. Feuerbach acusa Hegel de pressupor a Ideia Absoluta, cujas fases intermediárias não passam de simulações forçadas, mas não fundamenta tal noção.

Feuerbach não nega integralmente o idealismo hegeliano. Contudo atribui a ele uma interpretação materialista, conforme a qual, as leis da realidade são também leis do pensamento. Em outros termos: Feuerbach substitui o Espírito de Hegel pelo gênero humano.

Desde as obras precoces, Feuerbach submente a religião a exames severos. No livro “Pensamento sobre a morte e sobre a imortalidade”, de 1830, afirma que a noção da imortalidade individual só apareceu com força na modernidade. Nem no mundo greco-romano, nem na época medieval, o problema da imortalidade configurava uma questão fundamental da existência. O homem da época greco-romana não se reconhecia como consciência individual, considerando-se como parte do todo, da polis. O homem medieval, por sua vez, não se via envolvido com problema da imortalidade, apesar de o tema ser artigo da fé. Vivia a sob a responsabilidade da Igreja, já que ainda não tinha desenvolvida a consciência da sua individualidade. Foi depois do pensamento de René Descartes que tudo passou a girar em torno do indivíduo; até Deus foi transformado em pessoa: um ser que se difere do homem por uma questão de grau. Eis um dos pontos centrais da crítica feuerbachiana à religião. Em “A essência do cristianismo”, ele afirma que “em Deus existem as mesmas determinações que existem no homem, só que em Deus elas são infinitas e finitas no homem”. Em outro trecho, o pensador evidencia o mesmo problema, tomando como apoio a noção de consciência: “A consciência que o homem tem de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo.”

Feuerbach assevera que a religião cristã suscita e reproduz o egoísmo. E para sustentar tal tese, ele lança mão, dentre outros argumentos, da doutrina criacionista. Segundo o pensador, o criacionismo não poderia ter nascido entre os gregos, mas somente onde os homens concebem a natureza como “nada”, como produto e objeto de uma vontade subjetiva. Monoteísmo e criacionismo são fermentadores da subjetividade livre. E a crença em um Deus pessoal e transcendente implica necessariamente na exaltação da personalidade fechada, indiferente às determinações substanciais do mundo e ao laço com o outro. Em suma, esse Deus corresponde à ideia da personalidade humana como subjetividade separada do mundo e abstraída de sua constitutiva unidade com o outro.

Embora a obra supracitada seja intitulada “A essência do cristianismo”, Feuerbach disfere sua crítica não somente ao cristianismo, mas a toda espécie de religião. Diferentemente de Hegel, que considerou a religião como grau inferior da Filosofia, Feuerbach concebe-a em oposição à filosofia. Desse ponto de vista, todos os mistérios e milagres que a religião enfatiza nada mais são do que verdades naturais às quais a consciência religiosa confere imagens. Tais imagens são produto de uma consciência alienada da sua essência que projeta em um soberano transcendente a sua própria essência humana. Essa tese fundamental do livro é tratada por Feuerbach em dois aspectos: antropológico e teológico. O primeiro configurando a religião verdadeira e o segundo, a não-verdadeira.

Quanto ao aspecto antropológico, Feuerbach afirma que a religiosidade é um atributo essencial da natureza humana, que se define como consciência. Contudo, não como consciência de si, como indivíduo, mas como consciência do gênero humano. A esse propósito, a comentadora Sophia Rovighi esclarece: “Ter consciência de si como espécie significa ter consciência da própria essência universal, da própria humanidade.” Neste sentido, fica evidente que, para o pensador, o objeto da teologia, Deus, é uma essência objetivada do homem. A religião cristã é a relação do homem com a sua essência transformada em outra. Diferentemente do animal, “o homem é, ao mesmo tempo, Eu e Tu e pode se colocar no lugar do outro justamente porque não é apenas individualidade, mas também espécie que, no fim das contas é a sua essência”. O homem religioso, por ser alienado da sua essência, transfere-a para um ser transcendente, isto é, Deus. A consciência religiosa é uma consciência infantil que, ao crescer e amadurecer, naturalmente se transformará em filosofia. Uma prova dessa confusão entre Deus e a essência humana, ele descobre no tratamento antropológico de Deus por grande parte das religiões. Desse ponto de vista Deus é pessoa: pai, filho, santo, bom, justo, etc. Determinações essencialmente humanas são atribuídas ao soberano divino. A religião é, portanto, antropologia que esqueceu suas raízes.

Ludwig Feuerbach

O aspecto teológico revela-se para Feuerbach como distorção e manipulação da origem antropológica da religião. Partindo da doutrina da salvação, ela reduz tudo ao núcleo do indivíduo que, para se salvar e com medo da punição, adere a moral religiosa sem questionamento. Apesar de reconhecer na figura de Deus a soma de todas as perfeições, a consciência religiosa empobrece e inferioriza o homem: “Para enriquecer a Deus, o homem deve empobrecer-se; para que Deus seja tudo, o homem deve ser nada.” Essas reflexões sobre a Teologia seriam ampliadas mais tarde pelas “Lições sobre a essência da religião”, discursos proferidos em Heidelberg entre 1848 e 1849 e publicados em 1851em que a sua tese principal é que o sentimento de dependência do homem está na base de toda religião.

Diante desse panorama, fica a pergunta: qual é a saída, então? O processo de desmistificação da religião coloca o homem numa situação, digamos, curiosa. Por um lado, ele já não toma a sério os dogmas religiosos e abandona, aos poucos, a sua devoção. Por outro, deixado a si mesmo, ele precisa de uma esperança que o torne confiante no seu futuro. Eis que emerge a importância da Filosofia. Feuerbach acredita que a filosofia deva assumir o protagonismo e conduzir o homem à sua essência, tese que ele enfatiza na obra “Princípios de uma filosofia do futuro”.

A principal missão desta nova filosofia é responder à pergunta o que é o homem? Diferentemente das filosofias anteriores (principalmente o Idealismo) que vieram atender a uma necessidade filosófica, a filosofia proposta por Feuerbach deve responder uma necessidade humana. E, uma vez superada a religiosidade, o homem deve abandonar a Bíblia e filiar-se à razão.

Mas isso, obviamente, não significa submeter tudo à razão como propusera Hegel. Feuerbach aproxima teologia e filosofia especulativa, já que, partindo dos postulados da teologia comum, que considera Deus como pessoal e transcendente, a filosofia especulativa põe-no na Terra, tornando-o presente e determinado. Desse modo, ele submete à crítica a tentativa da filosofia especulativa de identificação de Deus com o pensamento, uma vez que este não é criador de realidades, mas formador de conceitos abstratos que por si mesmo nada podem realizar. Afirma ele: “O real em sua realidade, ou o real enquanto real, é o real enquanto objeto dos sentidos, é aquilo que é sensível (…). Somente um ser sensível é um ser verdadeiro, um ser real. Somente os sentidos e não o pensamento por si só, nos dão o objeto em seu verdadeiro sentido.”

As formas da existência material e natural são o espaço e o tempo. Essas formas são concebidas como leis tanto do ser como do pensamento. Sem essas leis toda sensação, vontade e pensamento não passariam de ficções vazias. Portanto, sem matéria não existiria conteúdo a ser pensado. Disso emerge um conceito essencial na filosofia de Feuerbach: o amor.

Para Feuerbach, amor é materialismo que, por sua vez, envolve uma plena essencialidade do mundo sensível. E só o amor é capaz de resgatar a “essência humana do homem” deformada pela fantasia da religião (principalmente por atribuir esse sentimento a um Deus pessoal) e pela especulação filosófica. Essa “essência genérica” racional, amorosa e comunitária, constituída por nossas excelências e potências voltadas ao outro é fundamentada nos sentidos e não no pensamento. Novamente as palavras do pensador corroboram tal noção: A nova filosofia fundamenta-se na verdade do amor, na verdade da sensação. Ela representa o coração elevado ao plano do intelecto. O coração não quer objetos e entes abstratos, metafísicos ou teológicos, quer objetos e entes reais e sensíveis.”

As relações humanas, que outrora eram presididas por Deus, devem ser regradas por esse homem do amor, pela essência humana presente em todo homem. Para concluir, uma frase que, apesar de retórica, sintetiza esse sentimento humano: “Onde não há amor, não há verdade; somente tem valor quem ama. Nada ser e a ninguém amar é a mesma coisa. “