Fome de paz. Fome de silêncio e sossego. Fome de verde. Fome de amizades. Fome de terra que pulse sob os pés e lembre a toda essa gente da gratuidade abundante de uma vida desintoxicada antes da impermeabilização de corações, solos e mentes.

Pelo esvaziamento do campo, a equação urbana redunda em males crônicos, porém, deveras lucrativos. Por um lado, o êxodo para cidades favorece a industrialização da agricultura comprometendo o que há de mais sustentável – a agricultura familiar. Setenta por cento dos alimentos in natura do Brasil são produzidos pela agricultura familiar, mas, por outro lado, é basicamente deste êxodo que se nutre o crescimento do mercado urbano. Estamos pedindo pelo encarecimento absurdo da alimentação, nos obrigamos a comprar alimento industrializado enquanto a urbanidade devora o mundo!

Poucos investimentos são mais lucrativos que a conversão da diversidade humana em consumidores urbanos. Isto é um processo mundial, mas com intenso fluxo em nosso país, escolhido a dedo como mercado de massas, sem considerações à cultura popular, à natureza, impondo o consumo como senha de pertencimento às babilônias de cimento.

Sai da terra quem tinha vínculos com a terra, mas só entra na cidade, independente de vínculo, quem pode pagar. O alimento, antes produzido perto de casa, potencialmente sustentável, passa a ser item proporcional à renda, sem a compaixão de cidadania ou sustentabilidade alguma, e o pior: o alimento urbano é impessoal, sem procedência além de logomarca.

Cidades são ocos insustentáveis onde a fome e o medo da fome são criaturas úteis e lucrativas. Não é à toa que muita gente vai embora da cidade quando entende que é um modo de vida sem sentido, indelicado, desconectado e caro. A fome do estômago é uma entre tantas inanições de quem vive no desalento urbano, sem direito à sinergia com a natureza.

A fome do outro incomoda um pouco, mas quem já olhou nos olhos da fome sabe do que é capaz para não reencontrá-la… Na cidade, onde nada brota além do institucional, são todos reféns do medo de faltar… Fome urbana é fome tática de uma economia que lucra com a escassez e a mercantilização da vida enquanto, incrivelmente, ainda precisamos de justificativas para a preservação do que resta de meio ambiente sadio no meio urbano e em seu entorno, e autorização do Guarda Belo para plantar comida nas calçadas e praças…

O que a cidade não mata crescendo, manda matar fora para consumir enquanto cresce. E só cresce. Porque, infelizmente, a linearidade dá as cartas no jogo da urbanidade… É a cidade que manda arrancar a tora da floresta para vender mesa, balaustrada, viga de lei mundo afora. Manda plantar pasto no Cerrado para vender carne na churrascaria e no supermercado. Manda destruir mata rara e manancial para plantar estrada, fábrica, usina, incoerência. É a cidade que consome o que matamos na mata. E às pessoas que habitam as cidades raramente é permitido enxergarem para além das muralhas.

A crise econômica global, sob o crivo do Novo Paradigma levanta a questão maior: – Por que não lucrar com abundância e prosperidade em parceria com a natureza, fixar o homem à terra, sustentabilizar as cidades, em vez de inflar a urbanidade sem limites, ampliando a restrição aos recursos – rumo à tirania privada definitiva?

É autoexplicativo. Natureza vista como mercadoria vira privilégio. Se a terra tem dono, como tem dono todo lugar, planta-se ou arranca-se o que o dono mandar. Mas na cidade, mesmo quem sabe plantar, só come se tiver como pagar…

Uma vez que temos urgência em conter a ação humana nos processos de Aquecimento Global, ou seja, temos que escolher entre planilhas de vendas e consciência; inegavelmente, a escolha enquanto civilização, que passa pela redução drástica da emissão de gases estufa, aponta para um novo modelo de produção e consumo, mais realista, movido por prioridades simples e garantias sociais essenciais… Mais uma vez, nada é tão urgente como fixar o homem à terra e permitir ao ser urbano que plante seu alimento e humanize seu entorno… Ao contrário do que pregam os entusiastas do capEtalismo verde, a transformação vai muito além do mero redesenho do mercado e dos produtos. É preciso repensar a razão de ser das cidades-balcões de negócios, sua relação com o meio ambiente e o equívoco de dirigirmos sua vocação exclusivamente para o artificial. É preciso resistir à privatização da vida e à negação da natureza. É preciso produzir alimento nas cidades!

O que está em jogo são nossas fomes relegadas a meras humanidades sob a lâmina psicótica da economia urbana que herdamos, na qual, completamente alheios ao meio ambiente, somos, ao mesmo tempo, cúmplices e reféns do consumismo. Todas as fomes ficam pequenas perto da referência mercantil, é isto que nos mata aos poucos.

Ter que pagar para comer é absurdo para quem sabe das abundâncias da natureza… Mas, para os seres urbanos, a fome no oco do estômago e o rombo psíquico no peito estarrecem do mesmo jeito. Em se pagando, ou não custando, tanto faz morrer de inanição ou obesidade, de tédio, cansaço ou ansiedade.

Graças às fomes do mercado urbano estamos há séculos devastando o meio ambiente e gerando poluições em nome de um modelo civilizatório que jamais poderá contemplar a todos… Qual o sentido da migração do homem da terra para o asfalto se é, justamente, de costas para a natureza que a maioria das pessoas não consegue ligar seu consumo à devastação ambiental e à geração de gases estufa?

Para compreender as prioridades reais que a vida urbana dissimula, precisamos compreender a privatização dos solos agricultáveis e áreas preservadas… É disso que trata o conceito gasto de sustentabilidade; da ordem primordial de importância dos recursos naturais e das necessidades essenciais para o coletivo. Claro, pensando nas escolhas disponíveis para as próximas gerações… Nossa economia só vai deixar de produzir passivos fora das cidades se houver redução espontânea do consumo nas cidades. A consciência ambiental no meio urbano só pode crescer através do Consumo Crítico como forma de educação política e ambiental. Sem relacionar o consumo à preservação de recursos, como as pessoas entenderão sua parte no processo?

Estes são alguns contornos do debate sobre sustentabilidade envolvendo uma população cada dia mais urbana e sob informação cada dia mais massificada e, portanto, publicitária. E a mídia – sócia e dependente química do mercado urbano, não das pessoas, da natureza ou da terra – faz questão de não pautar os problemas socioambientais à altura… Em 2016, banalizar o Aquecimento Global ou repercutir posições favoráveis ao desenvolvimento econômico convencional, linear, pode até caber como opinião – mas não cabe mais como sustentabilidade de fato. Quando muito, é marqueting de justificativas, pura negligência. E desse ponto de vista, a omissão diante do uso equivocado dos meios de comunicação em estímulo ao consumismo é sempre irresponsável!

O mundo do desenvolvimentismo é pautado pela expansão do modelo de bem-estar burguês — repito à exaustão – e este é necessariamente urbano… Incapaz de compaixão pela natureza ou por qualquer povo ou costume que resista à sua indelicada democracia, o mercado impõe um modo de vida cujo ingrediente principal é a negação cultural naturalizada pela apropriação de tudo que estiver ao seu alcance, a começar pelos sonhos. O que não virar mercadoria, o que não cair na teia da normalidade, perde valor. E este é o ponto insustentável de qualquer padrão.

Sabe por quê? Porque nada é sustentável quando nega a diversidade! Pondere aí, como a diversidade pode caber no senso comum, se o senso comum é o grande produtor de moral, preconceitos, exclusões, modelos? O senso comum é a antítese da diversidade! E isto vale para o meio ambiente e a alimentação.

A começar pelo gabarito de urbanização maçônico — o carimbo impermeabilizante, a gestão pública promíscua, a destruição da vegetação e dos mananciais, a privatização de processos socioeconômicos, da mídia, dos modos de vida e liberdades — nossas fomes são produto do que naturalizamos como “urbanidade”.

O alimento foi expulso da urbe, exceto, pela exposição para venda. A gratuidade do alimento ou a possibilidade de produzi-lo foi substituída pelo consumo e pela falta de tempo para o cuidado com o alimento e a saúde.

Ainda que muitas cidades tenham zonas rurais, faz parte da cultura urbana tradicional o preconceito contra quem não vive na cidade, contra quem se alimenta da natureza, contra quem “perde” tempo com cultivo e preparo artesanal, contra quem produz alimento e plantas medicinais, contra quem vive da terra, contra quem planta ou cria – como se diz, contra qualquer um que tenha terra sob as unhas!

O olhar de cima para baixo, do urbano contra o rural, do urbano contra o quintal, do escasso contra o gratuito, não é apenas uma consequência da importação de um modelo de urbanidade, da verticalização, da desertificação, da gentrificação, mas da própria empáfia colonizadora que a cultura urbana carrega consigo a título de “civilização”, e que faz tudo parecer “menor”, enquanto as coisas que toca passam a reles tralhas mercantis, taxáveis e insustentáveis.

A indústria da construção civil, quase integralmente ligada à maçonaria, sofre de alergia às artes da terra. Desacredita da abundância da natureza. Não tem amor por vegetação nem respeito por água, e precisa controlar intimamente a gestão do meio ambiente e a legislação pertinente porque vive de sua destruição… Os Corações de Cimento vivem de sua própria impermeabilidade. Metaforizei… E parece que ainda estamos longe de conseguir criar cidades sem suas psicoses e densas burocracias.

Taí a luta pela implementação de ecovilas, com todas as dificuldades óbvias para modos alternativos de construção, moradia, produção, saneamento, abastecimento de alimentos, água, etecétera… Vá você aprovar a planta de uma casinha bioconstruída, um banheiro seco, um formato alternativo adaptável à mata, algo sustentável de fato num balcão de prefeitura. A maioria está paralisada no meio do século XX. E isso escancara: não são os lugares que não mudam. São as pessoas que se recusam a mudar porque se dão o direito de cobrar pedágio da evolução!

A “lógica” aplicada à urbanização é excludente para com a sustentabilidade a começar pela produção de alimentos. Ainda mais, em se considerando a produção em pequena escala, nos meandros do traçado urbano. É quase proibido plantar no mundo dos engenheiros e arquitetos aprovadores de obras, no mundo árido dos carros, das roupas, dos bancos, da pressa. Ainda que em todas as partes do mundo aconteçam mudanças, os processos de sustentabilidade urbana encontram toda sorte de barreiras. A maior delas, o preconceito!… Converse com os gordocratas das prefeituras e confirme. Experimente plantar comida na sua calçada e confirme. Tente criar uma horta comunitária num terreno baldio e confirme. Tente fazer um simples piquenique numa praça. Não demora, o Guarda Belo estará lá para tirar satisfações em nome da normalidade, em nome da fome urbana, que nem ele sabe de onde veio, mas sabe que tem que preservar. Por essas e outras, digo que educação ambiental é um processo socioambiental e que de pouco serve se não costurar Consumo Crítico, Cidadania e Soberania Alimentar.

Para quem alardeia urbanização, progresso e insustentabilidades do gênero, para quem vive de vender o passado, toda erva é daninha, todo pé de fruta é atrativo para bicho, mendigo e moleque ou problema para o cimento da calçada, os carros ou a fiação aérea. Para a antiguidade vigente nas prefeituras deste Brasil – tão próspero em tradições alimentares e tão íntimo da natureza — toda gratuidade, toda prosperidade natural, toda disponibilidade de recursos para o coletivo é um atentado ao controle do comércio, ao “des-envolvimento” da tal urbanidade.

Cidade é um micromundo estético-burocrático sob uma lenda sem raízes que diz que o progresso é assim mesmo, que terra e folhas secas são sujeiras, que a vegetação nativa nada vale, que o alimento que dá de graça em qualquer borda de mata não é bom, que basta a economia funcionar para comprarmos alimento alhures. Um micromundo muito mais perigoso e dependente dos equívocos capEtalistas que qualquer selva amaldiçoada pelos que se arrogam “civilizados”. Uma gaiola de escravos sorridentes tão entretidos de banalidades que sequer questionam que água bebem, que alimento comem.

É um pacote. E parece que todas as instituições são afinadas pelo mesmo diapasão para impor as mesmas demandas. A reboque, a cultura do senso comum ao mercado globalizado toma vidas para impor à mesa seus valores nutricionais, sua estética, sua gastronomia, sua lógica produtiva a partir de suas tradições inexoráveis e alheias ao povo de qualquer lugar.

A destruição de uma cultura pode ser imposta de diversas maneiras. As principais são, historicamente, a corrosão do idioma e a negação de hábitos e costumes, inclusive, alimentares. Por isso, os que escapam de conflitos levam consigo sua língua e sua comida… A restrição ao acesso do ser urbano aos alimentos regionais, a negação de tradições alimentares a partir da impermeabilização de solos e mentes, é o que estou questionando…

Há uma espessa laje de alheamento vazada sobre nossos corações mestiços que sugere superioridade daqueles que consomem o cardápio idealizado pelo senso comum. O cardápio importado, o que “vira” comercialmente, o que mostram em filmes e novelas, pela imposição da cultura de shoppings, das especialidades gourmet e da gastronomia padronizada é tratado como verdade única, como se fosse assim desde sempre… O cimento do alheamento é a imposição comercial “cabível” na concepção de cidade que importamos com cada uma das culturas que aqui desembarcaram, não por acaso, repercutindo valores de origem. Daí, o alimento europeizado é tido como bom, em detrimento do alimento da terra… Nossas cidades quadriculadas de impermeabilidades não seriam o que são sem a negação da cultura original.

Emblemático é o exemplo do uso do trigo – que nem brasileiro é, mas é bíblico –, e comemos e usamos com toda a naturalidade, e em excesso, na forma de pães, bolos, tortas, biscoitos, bolachas, macarrões, pizzas até a náusea, deixando de lado uma infinidade de alternativas. A padaria é a cara da cultura urbana. Padaria não vende verdura, não vende fruta. Talvez, suco no balcão e salada com o “peéfe”. Nada além…

Entenda que o problema não são as santas padarias, mas a absoluta negação da diversidade alimentar… Para não alongar este artigo, fica por sua conta estender o raciocínio para outros produtos, mas deixo uma pergunta a respeito: – Você tem ideia de quantos grãos, tubérculos e raízes podem render farinha e podem ser produzidos dentro de sua cidade com valor nutricional muito maior que o do trigo e com implicações econômicas e ambientais muito menores?

Temos comida até dizer basta nos arrebaldes de nossas cidades, mas a maioria de nós mal sabe o que comer do mísero cardápio urbano para ser saudável… Não bastasse sermos reféns das confrarias que disciplinam as cidades, estamos virando zumbis da indústria alimentícia e dos rótulos teleguiados pela padronização nutricional global. Já lhe disseram que alimento equivale a estado de consciência?

Antes que o futuro nos obrigue a tomar picaretas nas mãos para abrir poros de vida no pavimento urbano, pergunte por aí: – As pessoas sabem que tipo de solo há sob o asfalto ou seu quintal, que frutas e outras plantas comestíveis e medicinais poderiam estar, exatamente, ali onde enfiaram uma praça de concreto impessoal, gélida como o coração dos que espetaram seu compasso à alma do lugar?

Agora, respire fundo e mergulhe comigo em alguns dados que ajudam a entender que nossas fomes são construídas e que, sim, temos motivos para arrebentarmos os cimentados e plantarmos nas cidades mesmo uma alimentação diversa, orgânica e saudável que, entre outras vantagens, reduz suas despesas e limita o consumo dos alimentos industrializados poupando o planeta de todos os Ciclos de Vida envolvidos.

Em nosso planeta há cerca de trezentas mil espécies vegetais. Em torno de duzentas e quinze mil, catalogadas. Dessas, algo por volta de trinta mil são comestíveis ou têm partes comestíveis. Sete mil têm históricos de cultivo, sendo que, nos dias de hoje, a humanidade se alimenta basicamente de duzentas espécies. Isso mesmo, duzentas espécies, todas produzidas fora das cidades, todas produzidas em detrimento da vegetação endêmica, ou seja, por métodos tradicionais da agricultura, não necessariamente, orgânica, mas com todos os inconvenientes logísticos e custos ambientais.

Enquanto discutimos economia e cultura urbana, destruímos espécies que sequer conhecemos, negamos a prosperidade de nossas origens e nos perdemos nos baixios da política; o mundo segue às voltas com fomes fabricadas e hábitos alimentares potencialmente nocivos… Entre os que se alimentam do senso comum do mercado, a maioria sofre de alguma carência nutricional, além de distúrbios como obesidade, diabetes, doenças coronarianas, cânceres e outras tantas bizarrices construídas garfada a garfada, gole a gole, sem ressalvas da medicina. Isso, para não falar em transtornos do humor, insônias, estresses e estados de consciência alterados por excessos em geral, afetados por hábitos que resumem alimentação a prazer oral e barriga cheia no ritmo exigido pelo mercado…
Não bastassem os equívocos do modo de produção de alimentos – agrotóxicos e  transgenia, por exemplo – pagamos pela produção de fomes ocultas — por alimentos incapazes de saciedade nutricional –,  em benefício de uma indústria que tem medicina própria, ciência própria, estatísticas, publicidade e mídia próprias, mas não está interessada na saúde e na prosperidade de ninguém.

Em essência, o problema da alimentação reside no carimbo mais que evidente da economia capEtalista – a negação do óbvio, no caso, da diversidade alimentar, e no desrespeito aos ciclos naturais. Claro que estamos falando em urbanidade.

Pasmemos, globalmente, apesar das trinta mil espécies comestíveis das quais contamos com duzentas em cultivo intensivo, apenas vinte espécies – não, não é erro de digitação, vinte espécies — constituem noventa por cento da produção industrial de alimentos… Em nome da fome, escorrem os maiores investimentos do planeta para um modelo cartelizado e monocultural de produção que envolve o uso de transgenia e agrotóxicos, provoca o êxodo para cidades e inclui uma tremenda corrosão geopolítica que insufla mais e mais consumismo, doenças e incompletudes…

Enquanto permitimos que a indústria transnacional de alimentos, de mãos dadas com governos, lobbies políticos, corporações, mídias e comércio determinem o que comemos; adoecemos de dietas pobres, incompletas, excesso de alimentos em busca da saciedade dos nutrientes em falta, doenças provocadas por maus hábitos alimentares e muita, muita corrupção para impor modelos alimentares movidos a interesses econômicos. A ordem é impor normalidades e destruir singularidades. É ou não é urgente quebrar as calçadas e plantar?

Ainda que teimando nos equívocos da fórmula caduca de desenvolvimento, no Brasil, temos a maior biodiversidade do mundo – algo entre quinze e vinte por cento das espécies vegetais do planeta. No entanto, nosso maior cultivo continua sendo o da baixa autoestima em consórcio com a negação da fartura de nossos quintais.

Os dados menos otimistas apontam mais de três mil espécies estudadas em condições de suprir significativa Segurança Alimentar, para muito além da cesta básica precária consumida neste Brazil que desconhece o Brasil.

Pondere que muita coisa pode ser plantada em um metro quadrado. Um pallet na parede de seu apartamento pode produzir, no mínimo, bons temperos e ervas medicinais … Seus resíduos orgânicos podem abastecer um minhocário e produzir o melhor adubo do mundo… Sua varanda pode virar horta… Uma piscina abandonada em um condomínio pode virar uma pequena chácara… Seu jardim com cara de paisagismo de catálogo pode vir a ser um jardim comestível… Você pode usar PANC, Plantas Alimentícias Não Convencionais, fáceis de manejar e cultivar, e abundantes por toda parte [Breve, artigo a respeito]… Seu quintal pode ceder espaço para um canteiro, vários canteiros. O mesmo vale para a cobertura abandonada do prédio… Permaculture-se! Sustentabilize-se! Ecologize-se! PANC-SE!

E você pode estender sua cidadania para fora de sua casa… Sua calçada pode ter uma frutífera que atraia passarinhos ou até alimente alguém e renda uma boa farra para a molecada, qual o problema? Você pode rasgar um canteiro em sua calçada e plantar comida, sim… Sabe aquele terreno baldio na rua de trás? Pode virar uma horta comunitária… A praça cinza e abandonada pode virar espaço para aulas abertas de jardinagem e produção de alimentos. É uma forma de reunir amigos, ocupar a cidade à qual você pertence e que lhe pertence… Não faltam alternativas. E tudo isso pode e deve envolver as crianças, principais interessadas no futuro e que tão pouco contato têm com a terra. Quem disse que terra é sujeira se é da terra que brota nossa comida?

Plantar é um caminho de empoderamento e cidadania. Além de sabermos o que plantamos, onde plantamos, como produzimos, com que água regamos, reduzimos custos de nosso orçamento, convivemos com a terra e as plantas, trocamos uns com os outros e ganhamos em saúde, a começar pela diversidade alimentar…E outra. Conte com os idosos, guardiães de saberes sobre raízes e plantas medicinais, plantas comestíveis, receitas e histórias de um tempo que, não faz tanto tempo, esse lugar onde você mora era um bairro arborizado, uma região de sítios, uma fazenda ou, quiçá, mata nativa…

Como sabemos, muita gente deixa o interior e vem para a cidade. Gente que detém conhecimento e pode participar deste processo. Uma vez que o êxodo é inevitável, por que não dirigir tamanho conhecimento da terra para a agricultura urbana, nos moldes da agroecologia, por exemplo?

Não demora o tempo em que produziremos alimentos nas cidades, e isso vai nos obrigar a rever tudo ao redor do que plantamos. Isto pode significar um grande ganho em qualidade de vida. Porque o jogo da sustentabilidade não está restrito à preservação ambiental longe de onde moramos… Além disso, qualquer coisa que você plante é um dinheiro que deixa de investir na indústria da doença em benefício de quem você ama, a começar por você mesmo.

Mas tenha uma coisa clara. Plantar em espaço público é luta como qualquer outra. Porque mostra seu pertencimento ao lugar onde você vive. Marca sua presença em cidadania. Protesta pela Segurança Alimentar negligenciada pelas gestões públicas… E mesmo que você não peite a ordem institucional, creia, há cidades em que começam a dar certo iniciativas legítimas nessa direção, inclusive, no resgate de espécies endêmicas, alimentos e plantas medicinais regionais com seus usos tradicionais com apoio da administração pública. Resta reconhecer e separar o que são iniciativas fakes e o que realmente pode ser legitimado como ação de educação ambiental popular.

As cidades não precisam ser mero artifício pago. Basta que lembremos que, exatamente onde estão, havia vida intensa antes de o progresso chegar com seus protocolos e impermeabilidades… Também por isso, tenho dito por aí que de pouco adianta fugirmos das cidades levando conosco os hábitos toscos do padrão de bem-estar que aprendemos, para criar outras cidades… Então, por que não fazer do lugar onde moramos o melhor que pudermos?

Bora deixar a Terra respirar?