A HISTÓRIA

Em 1700, às margens do igarapé do Murutucu, um caboclo chamado Plácido José de Souza encontrou uma imagem de Nossa senhora de Nazaré e a levou para casa. Na manhã seguinte, a imagem havia desaparecido. Estranhando o desaparecimento, o caboclo voltou ao lugar do achamento e lá estava a “santinha”. Levou-a para casa novamente e ela tornou a reaparecer nas margens do igarapé. Então, Plácido decidiu construir uma pequena capela no local onde hoje se encontra a Basílica Santuário, em Belém. Os devotos contam que assim nasceu a adoração à Nossa Senhora de Nazaré no Pará.

O primeiro Círio ocorreu em setembro de 1783, e só em 1901, por determinação do bispo Dom Francisco do Rêgo Maia, a procissão passou a ser realizada sempre no segundo domingo de outubro. Tradicionalmente, a imagem é levada da Catedral de Belém à Basílica Santuário.

A tradição do Círio chegou a Soure, na Ilha de Marajó, pelo casal Gertrudes e Aniceto José Gomes, moradores de uma localidade chamada Pacoval e devotos de Nossa Senhora de Nazaré. Em 1890, celebraram o primeiro Círio na ilha. Em 1942, foi inaugurada a Igreja Matriz de Nossa  Senhora da Conceição, e em 1963 a Capela de são José, de onde parte a Imagem de Nossa Senhora de Nazaré em direção à Matriz.

HOJE

Em 2016, o Círio de Nazaré de Soure aconteceu no dia 13 de novembro, domingo. As celebrações têm início com pequenas procissões. Cheguei em Marajó na sexta-feira pela manhã, e à tarde aconteceu a romaria dos estudantes, na noite anterior já havia ocorrido a dos motociclistas.

O Círio de Nazaré de Soure é o maior do arquipélago de Marajó e considerado o mais tradicional do Pará. No sábado, realiza-se a trasladação, quando a santa é levada para a Igreja de São José, onde, no dia seguinte, tem início a procissão.  Após a trasladação, muitas famílias se reúnem em casa e realizam festas regadas a maniçoba, pato ao tucupi, tacacá etc.

No domingo pela manhã começa a romaria principal. As pessoas se encontram na Igreja de São José, fazem orações, entoam ladainhas e saem em acompanhamento à santa, que é carregada por um percurso de 4 quilômetros sob forte sol, e milhares de romeiros disputam a corda que puxa a berlinda com a imagem de Nossa Senhora.

Aos olhos de um “estrangeiro” do lugar, como eu, tudo na procissão parece pitoresco. A começar, por uma espécie de “trio elétrico” abre-alas, no qual um narrador anima os romeiros, puxa orações e cantorias. Logo atrás, vem uma tropa de cavalos montados por amazonas e cavaleiros, muitos deles no pelo, isto é, sem usar celas. Depois seguem os enormes búfalos montados, e logo atrás puxando carroças.

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Mais atrás, um outro “trio elétrico”, trazendo o padre que conduz e convoca todos às orações. Fechando a romaria, segue a imagem de Nossa Senhora de Nazaré sobre uma berlinda puxada por uma corda disputada palmo a palmo pelos romeiros.

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Durante a procissão se fazem diversas paradas para homenagens à santa, feitas por pessoas ou famílias que tiveram graças alcançadas, que preparam orações ou apresentações musicais diversas, que vão do carimbó ao samba enredo. Muitos enfeitam suas casas celebrando a passagem de Nossa Senhora de Nazaré.

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Para amenizar o calor para os romeiros, moradores das ruas por onde a peregrinação passa molham o asfalto com esguicho e banham também as pessoas e animais.

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O Círio de Nazaré é marcado pela fé dos romeiros, mas também por grande alegria da comunidade de Soure, que vem de sítios e regiões distantes, e também da vizinha Salvaterra.

cec_1163cec_2282 cec_2266 cec_2095 cec_2100A procissão termina na Igreja Matriz de Soure com uma missa. A equipe que organiza a romaria segue seu trabalho enrolando a corda da berlinda e se cumprimenta efusivamente por mais um ano em que deu tudo certo.

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Eu, que estava hospedado numa comunidade distante, uma vila de pescadores, retornei mais cedo para o lugar que estava vazio. As pessoas só voltaram à noite.

E assim terminou o Ciro de Nazaré de Soure de 2016; para comunidade, uma grande festa da fé, para um visitante, uma rica experiência cultural.

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