Em um post aleatório no Facebook, deparo-me com o seguinte comentário.

” A Burguesia continua sendo uma merda disfarçada, dizendo que musica classica é boa, que comer mcdonalds é bom, que ter roupa cara é bom… sendo que musica é musica. Nem escuto Valesca mas tipo, se tem quem goste, se não tem é um estilo como outro qualquer.”

Existe um pensamento bastante capcioso e popular por detrás desse comentário. É o famoso “relativismo estético”. A doutrina que considera que nada em matéria de arte e cultura artística, é objetivo. Tudo é e pode ser um “estilo” qualquer. Nada em termos artísticos e culturais pode ser considerado “verdadeiro” ou “falsificado”, “melhor” ou “pior” entre si.

Música pode ser uma questão de gosto. Mas não é APENAS questão de gosto. Você é o que você ouve. E em muitos casos, o que você ouve pode dizer muito a respeito de suas origens, de suas tendências de pensamento, de sua sociedade, de como ela pensa, quais seus rumos, etc.

Música não pode ser uma questão apenas de gosto porque, acima de tudo é uma questão cultural. E é possível pensar em progressismo em matérias culturais ou em conservadorismo. Se achamos que tudo é da cor da lente com a qual enxergamos, o relativismo estético no caso da música, pode levar ao relativismo cultural. O que traz muitos malefícios sociais. Explicarei em simples linhas.

Quando somos progressistas culturais, temos a preocupação com o papel da arte e da cultura numa sociedade. Ou seja, como tratar a questão cultural? Os artistas deveriam merecer um fundo e incentivos do Estado para que continuem com suas atividades, ou viver às custas do mercado? Uma coisa é certa: artistas fazem outras coisas e não vivem apenas de música. O que pode acontecer, a nível de mercado, quando artistas vivem apenas de sua arte? Tornam-se comerciais. Produtos de indústria.

Quando somos conservadores culturais, pensamos da seguinte forma: ninguém tem de mexer com a cultura. Ela deve ficar concentrada nas mãos da indústria musical ou artística e que assim seja. Qualquer semelhança com o que os ditos “liberais” de mercado falam, não terá sido mera coincidência.

A mesma burguesia que o sujeito falou acima é a que contribui para que o funk ganhe ares de importância aparentemente tão grandes e que na verdade, são pouco ou nada relevantes. É a “cultura das periferias”, é a “identidade cultural” das favelas. São rótulos concedidos e que não ajudam em nada com relação a solucionar os problemas socioculturais desses lugares. A indústria musical é a que mais se beneficia com a produção das “divas” e “celebridades” dos morros, guetos e rincões de pobreza.

Para a população destes lugares, resta o “contentamento” de sua suposta “identidade cultural”, gerando uma contradição sociológica: poucas celebridades ganhando rios de dinheiro fazendo barulho em “DJ softwares”, assessorados por produtores de eventos e empresários nada humildes em termos financeiros, em meio a favelas onde as mais diversas desigualdades socioculturais e socioeconômicas são imperantes. Onde indivíduos trabalham de sol a sol por módicos salários ou quando nos piores casos, delinquindo.

Ou seja, o que existe é uma espécie de “cultura da naturalização da desigualdade”. Na verdade, é o relativismo cultural levado às suas últimas consequências. Para exemplificar, voltemos ao relativismo estético. Ponha-se a perguntar: “a situação de uma cadeira ao lado de um monte de lixo empilhado pode ser chamada de ‘arte’? Quais benefícios ou progresso isso pode trazer para a sociedade, modo de pensar de seus cidadãos?”. Perguntas assim podem ser feitas com estilos musicais também.

Ninguém é obrigado a ouvir rock, música clássica, bossa nova ou chorinho para se dizer mais “culto” que alguém. Até porque gosto musical, de fato, não necessariamente torna alguém mais “culto”. Entretanto, naturalizar desigualdades e exaltá-las como uma espécie de “orgulho cultural” é algo bastante retrógrado e conservador. Muitos progressistas (como supostamente o sujeito das aspas que frisei acima), inocentemente ou não, têm feito esse tipo de exaltação. Nada mais conservador que exaltar uma cultura de desigualdades sociais e culturais e que é vetorizada por uma indústria que não tem preocupação alguma quando se trata de analisar a contradições socioculturais.