Confesso que nos últimos tempos, de vez em quando, me sinto um pouco idiota. Esta sensação aparece sempre quando começo a escrever, e como na maior parte do tempo escrevo sobre futebol, acredito que a sensação de estupidez se deve justamente ao fato de escrever sobre futebol.

Afinal, como uma pessoalmente razoavelmente “estudada” e sempre preocupada com o caótico cenário atual, tem a leviandade de gastar seu latim falando sobre futebol? Será que não existem outros assuntos mais elevados e dignos da minha atenção?

É óbvio que existem, porém, mesmo com os atuais ataques aos nossos direitos, que nós brasileiros estamos sofrendo, na hora de escrever, de maneira incontrolável, é sempre a bola que aparece como temática central dos meus garranchos. Permanecendo ainda a pergunta: – Por quê?

Antes que, devorado pela angústia, eu confesse a minha alienação e dependência do “ópio do povo”, folheando um velho caderno cheio de anotações, me deparo com coisas há muito esquecidas. Esquecidas por conta do clima nebuloso no cenário político brasileiro, mas ainda verdadeiras.

Apesar do golpe, do Temer e das “flexibilizações” das leis trabalhistas, lembrei que o futebol não é apenas uma ferramenta utilitária para a alienação das massas, é algo fortemente ligado ao cotidiano de muita gente. Ele faz parte da sociedade, da mesma forma que a sociedade é refletida nele, portanto é bem difícil falar de Brasil, por exemplo, e não levar o futebol em consideração.

Logo, quando escrevo sobre futebol, escrevo de maneira indireta sobre a sociedade em que elfe está inserido e dos problemas que fazem parte desta mesma sociedade. O futebol é uma grande metáfora, uma janela para observar, por outros caminhos, os nossos problemas.

Porque xingamos um juiz quando ele prejudica nosso time, mas nos calamos e até gostamos quando ele nos favorece? Por que as torcidas organizadas, assim como os movimentos sociais, são criminalizadas pela mídia e pelo Estado? Por que só nos incomodamos com o cartola corrupto quando ele é de outro time, ou quando suas trapaças já não ajudam em mais nada o nosso lado? Qual a semelhança (ou diferença)  entre idolatrar um clube e uma ideologia política? O futebol é um meio machista e homofóbico, ou ele apenas é o reflexo de uma sociedade que é machista e homofóbica?

Estas e muitas outras perguntas, aparentemente restritas ao universo do futebol, mostram como este esporte pode ser um ponto de partida para entender uma vasta série de problemas significativos da sociedade brasileira. O futebol não é alienação, alienado é quem pensa assim. E por isso, mesmo que às vezes eu me sinta um idiota, continuarei a escrever sobre o assunto, porque se sou de fato um idiota, prefiro ser um idiota apaixonado pelo futebol a um outro tipo qualquer de idiota.