Quando o presente nos desagrada, às vezes, quase que involuntariamente, nos deixamos levar pela nostalgia.

Para muita gente, uns dos primeiros presentes na vida foi uma bola de futebol. E junto deste presente vinha sempre outro, a camisa de algum time de futebol. Geralmente o time de coração do pai, da mãe, de algum familiar ou amigo da família mais próximo. Comigo não foi diferente. Tinha eu por volta de 3 anos quando ganhei de uma tia minha primeira camisa do Corinthians; ela era branca, com distintivo bordado no peito e número 10 costurado nas costas. O presente tinha um motivo pra lá de especial, que transcendia os meros anseios paternos de continuar a tradição clubística da família: naquela noite nós iríamos a um restaurante onde todo o elenco corintiano estaria. Lembro-me apenas vagamente daquela noite, restaram na minha memória somente algumas imagens difusas de jogadores me pegando no colo e autografando minha camisa. Dito isto, alguém pode concluir que foi a partir desta noite que me tornei corintiano, e que desde então comecei a acompanhar todos os jogos do time, sofrendo e vibrando com as vitórias e derrotas da equipe. Não, ainda não. O futebol era ainda para mim uma brincadeira, a paixão “séria” chegou um pouco mais tarde.

Quatro anos depois, as coisas começaram a se transformar um pouco. O Corinthians tinha um time “diferente” dos demais, com um centroavante com pinta de roqueiro e fama de maluco, um meia-direita que era médico e um lateral sindicalista: era a Democracia Corinthiana. Naquela altura da vida, a minha compreensão da palavra democracia era algo próximo do nada, mas de qualquer maneira aquela equipe possuía alguma aura especial que me tocou e que efetivamente me tornou um corinthiano.

 Mesmo sem entender na época o significado daquele movimento liderado por Sócrates, Wladimir e Casagrande, tanto para o universo conservador do futebol quanto para o país, que vivia sob uma Ditadura, de alguma maneira aqueles jogadores me encantavam: eles ganhavam e isto me bastava. A paixão ficou séria.

Passados mais trinta anos, continuo corinthiano, mas meu entendimento sobre o conceito de democracia e também sobre o movimento da Democracia Corinthiana mudou um pouco. Ao longo deste período, concluí duas coisas simples sobre estes dois assuntos: a democracia é algo valioso, porém frágil, e a Democracia Corinthiana foi um movimento tão grande que transcendeu o próprio futebol.

Acredito que, para muitos brasileiros, a primeira lição de democracia que tiveram na vida foi com aquele time do Corinthians (mesmo para aqueles que não são corinthianos). Existiu toda uma geração que cresceu dentro da Ditadura, sem saber direito o que é democracia de verdade, na prática. Para estes, certamente a Democracia Corinthiana ajudou a clarear as ideias sobre o assunto. Seja quando viram os jogadores envergando camisas com frases como “Dia 15 vote”, ou entrando em campo com a faixa “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”, ou principalmente quando ouviam as opiniões contestadoras e as atitudes libertárias de seus principais protagonistas.

Trazendo para o presente pós-golpe de 2016 as lembranças daquele início de década de 80, não há como não comparar. Vivíamos ainda ali sob um regime de exceção, porém o espírito era outro.  A democracia surgia no horizonte. Eram as “Diretas Já”, era o Doutor Sócrates discursando na Praça da Sé, era o verde-amarelo do lado de cá. Hoje, poucos dias após a efetivação de um golpe de estado que descaradamente atropela as regras da constituição, o sentimento é outro. Hoje a democracia está no retrovisor.

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Porém ainda existe um resto de esperança (afinal de contas, ela é a última que morre, não é?). Vejo o lado de cá tomando novamente as ruas, gritando, contestando, reclamando e de certa forma dizendo que a pior coisa em um jogo são os trapaceiros. Gol impedido e de mão não vale. Impeachment sem crime de responsabilidade é golpe.

Não deixa de ser curioso, no mínimo, que, em tempos sombrios como os de hoje, seja novamente nos estádios de futebol, e demais arenas esportivas, que ocorram algumas das mais significativas manifestações contra o golpe: com faixas contra o presidente usurpador, com cânticos nada elogiosos a deputados golpistas, com o surgimento de movimentos políticos em forma de torcidas (Comuna Rubro-Negra, Coletivo Democracia Corinthiana, Palmeiras Antifas, Ultras Resistência Coral, entre outros) ou ainda, isto já especificamente em jogos do Corinthians, na presença cada vez mais numerosa da célebre camisa listrada retrô em preto e branco, com os dizeres “Democracia Corinthiana”.

Talvez estas manifestações sejam herdeiras daquele movimento comandado pelo Doutor Sócrates. Sócrates, que ao longo de praticamente toda sua vida gostava de afirmar que “o futebol é o único meio que pode acelerar o processo de transformação da sociedade porque é a nossa maior identidade cultural”.

Certamente há um pouco de exagero na frase do Magrão, mas não deixa de ser uma alternativa, e, em tempos obscuros como os atuais, qualquer caminho que nos aponte uma possibilidade de saída já é alguma coisa. Não custa tentar.

 De qualquer maneira, gosto de acreditar que o futebol é sim um caminho, ainda mais para mim, que me tornei corinthiano com aquele time da Democracia. Não é o único, mas é uma possibilidade, um pontapé inicial para tentar virar o jogo. Ainda que o mesmo futebol seja ainda um meio extremamente conservador, misógino e homofóbico, ele também pode ser, como já foi no passado, um espaço de contestação política e de práticas de liberdade, e é de espaços assim que os dias de hoje urgentemente necessitam.