Durante a primavera de 1927, um acontecimento marcou a história da pequena cidade de Charlotesville, no Estado da Virgínia (Estados Unidos): após um polêmico julgamento o juiz Oliver Wendell Holmes Jr condenou- para genuíno contentamento de muitos- a jovem Carrie Buck a submeter-se a retirada das trompas de falópio, tornando-se, assim, estéril. O motivo era claro: proteger o futuro da humanidade de seus genes portadores de imbecilidade, esta caracterizada como um espectro que envolvia de supostas capacidades diminuídas ao comportamento sexual inadequado.

Carrie Elizabeth Buck (1906-1983) nasceu na mesma cidade que a condenou. Filha de Emma Buck e mãe de Vivian, Carrie poderia ter levado uma vida típica não fosse sua sentença, executada sob os auspícios do Ato de Integridade Racial promulgado em 1924.  O decreto fazia parte de um novo projeto de nação adotado pelos Estados Unidos e compartilhado por muitos outros países: a eugenia.

Tal movimento social e científico cedeu às instituições e governos de todo o mundo teorias e métodos muito específicos para a resolução das mazelas sociais. Concebida e sistematizada em seus princípios pelo polímata vitoriano – também ovacionado como pioneiro da psicologia funcional- Francis Galton (1822-1911), a lei fundamental que a caracterizava  e legitimava como ciência e técnica era clara: partindo de pressupostos evolucionistas, os eugenistas consideravam que a variabilidade genética dentre a espécie humana acarretava caracteres hereditários positivos ou negativos. Era preciso, portanto, que a ciência eugenista investigasse, identificasse e oferecesse conhecimento para o fomento dos caracteres de valor positivo, enquanto os de valor negativo – como a suposta promiscuidade sexual das mulheres Buck- deveriam ser sistematicamente extintos. Tal missão seria concretizada por políticas públicas que deveriam dar conta desta extinção promovendo esterilizações, impedimentos de matrimônios, confinamentos e, em última instância, eutanásias. Eliminava-se do porvir humano, assim, os degenerados e doentes. Nota-se que a eugenia, diferentemente dos ímpetos sanitaristas, não visava ao combate da doença em si, mas da própria existência de doentes.

Angariando rapidamente muitos defensores – oriundos de campos diversos- a eugenia configurou-se como forte campanha, realizada por aqueles que partilhavam dos mesmos ímpetos dos que comemoraram a esterilização compulsória de Carrie e de milhares de pessoas como grande vitória rumo ao futuro livre de maus caracteres hereditários.

Médicos e juristas envolvidos no caso de Carrie Buck com muita clareza justificaram: sua mãe, Emma, havia sido internada na Colônia para Epiléticos e Débeis Mentais por apresentar comportamento imoral, se prostituir e ter sífilis. Carrie, assim, foi tirada da mãe e dada em adoção para a família Dobbs. Pelo período em que frequentou a escola, obteve notas médias. No entanto, logo foi tirada dos estudos para auxiliar a família nas tarefas domésticas, tempo em que alegou ter sido estuprada por um dos sobrinhos dos Dobbs. Aos dezessete anos, a gravidez em decorrência do estupro de Carrie foi vista pelos pais adotivos como sinal de mau comportamento e promiscuidade, o que os fez enviá-la à mesma instituição onde havia vivido a mãe, Emma. Após o nascimento da bebê Vivian, os Dobbs a adotaram e com ela ficaram até o final de sua breve vida, que se deu aos oito anos por conta de problemas no intestino.

A esterilização de milhares de pessoas, sobretudo, de mulheres, constituiu séria preocupação eugenista. O anátomo-passado e a hereditariedade, afinal, seriam a grande causa das degenerações mentais e estas, por consequência imediata, da decadência das sociedades. Valendo-se do discurso do terror quanto ao futuro, prevenir tornava-se preciso: Doris, irmã de Carrie, também foi esterilizada sob ordens especiais quando precisou ir ao hospital por causa de uma apendicite. Segundo esse raciocínio, corrigia-se o passado, compensava-se o defeito humano de criar mecanismos artificiais de existência e salvava-se o futuro pela eliminação das mulheres Buck.

Tais constructos teóricos que levaram às correlações entre as características físicas com as faculdades mentais, bem como do conteúdo do plasma germinativo aos condicionantes do modo de ser humano passaram a fazer parte das problematizações das ciências da saúde. Correlação que, por pouco questionada, tornou-se insistente e inevitavelmente produziu respostas duvidosas que perduram até a atualidade, não obstante esforços de áreas do conhecimento que atentam para a constante necessidade de ampliação das perspectivas para que as teorias não resultem em determinismos. Principalmente, não promovam a intolerância.

No mês de fevereiro de 2015 as vítimas das esterilizações eugenistas norte-americanas conquistaram importante vitória: conseguiram ser indenizadas pelo Estado pela grave injustiça passada, resultando em maior ganho simbólico do que alguma reparação material.  Nota-se que a lei que vitimou Carrie perdurou até 1979.  Se há motivo para comemorar as conquistas pelo direito de não se submeter a estes crimes, é certo que há, igualmente, motivo para manter a atenção aos projetos de lei de cunho eugenista que, insistentes, constantemente reaparecem sob novas  – e sempre “bem intencionadas”- maquiagens.

Figura: Carrie e sua mãe Emma. Fonte: http://psychcentral.com/blog/archives/2011/01/24/eugenics-the-story-of-carrie-buck/