Cada vez mais nossa vida tem passado menos pela palavra.

Há menos de dez anos, contávamos para as pessoas das cartas que recebíamos, dos e-mails que líamos, do que aprendíamos na Barsa, das nossas descobertas na revista do mês.

Com a participação da tecnologia, cada vez mais ativa em nossas vidas, temos falado pouco dos nossos acontecimentos, e os mostrado muito.

São fotos, print screens, informações infinitas, tudo on-line.

Antes, uma amiga ia contar para a outra do fora que recebeu, então se queixava de que sempre era assim com ela, aproveitava e fazia uma piada, que a deixava um tantinho menos triste. Agora, um amigo já não se demora em palavras para dizer ao outro do quão bonita é a moça com quem ele está saindo, mas mostra a foto. Nisso, aproveita e já descobre que o amigo e a moça têm dois ou três amigos em comum, então ouve três ou quatro histórias sobre o passado dela, que geralmente acabam com a fantasia dele. É comum que alguém que comece uma análise não reflita sobre os equívocos da linguagem, mas ofereça o celular ao(à) analista, para que ele(a) leia e conclua: “estou certo(a) ou errado(a)?”

Há pouquíssimo tempo, mandávamos um e-mail (nem precisamos voltar para o tempo das cartas) e era preciso esperar um, dois ou três dias para que a pessoa o respondesse. Era preciso um computador, era preciso conexão com a internet, e também disposição. As fotos também demandavam tempo, para serem reveladas, assim como descobrir uma informação ou mesmo o significado de uma palavra. Tudo demandava um tempo e era preciso esperar.

Atualmente, estamos submetidos ao imperativo do coelho-da-Alice-no-país-das-maravilhas: “estamos atrasados, corram!”

Assim, temos nos fixado no campo da imagem, no reino da visão, onde os print screens reinam e a angústia número um é ficar sem conexão. Em vez de contar o que aconteceu e fazer o acontecimento passar pela palavra, manda-se um print. Em vez de dizer quem é a pessoa sobre a qual se fala, descrever a pessoa, manda-se um print. Em vez de copiar a matéria do quadro, tira-se uma foto. E assim é com o rótulo do produto, com a receita do doce, com a dr que se teve com o(a) parceiro(a) na noite anterior. Tudo acaba em print.

“Ficar sem resposta” (que não é necessariamente ficar sem resposta, mas é não ter resposta imediata), é vivido como o fim do mundo. Mensagem do whatsapp com dois tracinhos em azul, acompanhado de silêncio? Já se nomeia como “vácuo”, antecipadamente. Pouco importa se fulano ou fulana está na aula, no banheiro, em uma reunião, ou mesmo se está apenas pensando no que responder.

Nossa contemporaneidade é um prato cheio para a angústia. Esta, na contramão do desejo, não entende o desejo como um tempo de espera que é necessário, mas como rejeição, desespero, puro vazio. O tempo para desejar, para imaginar, para fantasiar, para esperar, é entendido como “criação de expectativas” e é preciso ser eliminado. O tiro sai pela culatra, é claro.

Viver desse modo é desarticular a falta da nossa existência, é agir como se um desejo não realizado pudesse nos quebrar, como se fôssemos de vidro – é menosprezar a capacidade humana de se restaurar, de se reinventar, de viver.

Por outra via, a psicanálise nos ensina que o desejo é o melhor remédio para a angústia.

“O melhor de uma viagem é esperar por ela”, “é bom viajar, mas é melhor voltar pra casa”, “o melhor do amor é a conquista”, “reservemos as melhores coisas para o final de semana”, são ditos populares que marcam a importância do desejo.

É preciso que a gente suporte a espera, é preciso que a gente aprenda a desejar. É tããão necessário sentir o frio na barriga que antecede à espera de uma resposta… é importante não conseguir dormir porque se está num estado de ansiedade, mas desde que ele não equivalha à angústia!

Além do mais, tanta pressa, para quê? Se acelerarmos demasiadamente a vida, será a morte que vamos encontrar.

Não podemos controlar tudo na vida – e esta é a melhor coisa dela.