Júlia Rocha, médica, cantora e nossa colega de revista, foi vítima de covardes manifestações de preconceito na internet há alguns dias atrás.

A razão? Júlia teve a coragem de defender as pessoas simples em mais um de seus brilhantes textos.

Uma nota de repúdio por essa ação nefasta abre esta vigésima edição da Língua de Trapo – mas no meu entender isso não é suficiente.

Assim encostei meu texto quase pronto para esta semana e troquei-o pelo ensaio fotográfico de gestante de minha companheira Paola, pois à época de sua execução e publicação fomos também vítimas desse ódio obscuro que escancara sectarismo, conservadorismo e a visão retrógrada que objetiva a manutenção de privilégios em um país injusto desde sempre.

Nas fotos Paola e eu rompemos com os ensaios tradicionais de grávidas – que reforçam a visão machista da maternidade como se esta fosse marcada somente por momentos agradáveis e a gestante fosse imaculadamente frágil, assexuada e intocável.

Em nosso projeto não; Paola está forte, sexy e desfilando sem pedir licença ou consentimento a ninguém para trajar a (pouca) roupa que quis por onde desejou.

O ensaio teve duas locações, ambas na capital mineira: um galpão industrial no bairro Saudade e as ruas de Lourdes, epicentro da coxinholândia belo-horizontina.

Usamos muitos elementos para, direta e indiretamente, reforçar nosso recado de libertação feminina: um carrinho hidráulico com os sapatinhos de bebê simbolizando o peso que é ter e criar um filho, o livro “A Origem das Espécies” de Darwin reforçando nossa visão materialista da maternidade além de figurinos e elementos nada convencionais para um ensaio de gestante, como cinta liga e garrafas de vinho.

E subordinamos a técnica fotográfica à mensagem: o foco principal das fotos quase nunca está em Paola, numa demonstração que os trajes de uma mulher não são passaporte para olhares indesejados; as fotos não sofreram um tratamento padronizado, simbolizando os diversos momentos da gestação – a maioria em preto e branco, fugindo da ditadura das cores e reforçando as preocupações, enjoos e dificuldades que cercam esse momento da mulher.

Dedicamos essa publicação à Júlia e a todos que lutam diuturnamente contra o preconceito, o machismo, o sexismo e o sectarismo.

Porque temos um mundo a mudar.

E rápido.

(ficha técnica: fotos, edição e tratamento – Alexandre Périgo; concepção e figurinos – Paola Lopes e Alexandre Périgo; modelo – Paola Lopes; maquiadora- Riane Prates)