Um vídeo recentemente divulgado no youtube mostra que Wellysberto Morays da Sylva, ganhador da última edição do Big Boss Brazil, o mais famoso reality show do país, não é mesmo flor que se cheire. O bancário (apesar da grana que recebeu, ele diz que nunca vai parar de trabalhar, pois faz o que ama) foi filmado recusando-se a receber um cheque no valor de R$ 549,00, que seria depositado por um solidário mendigo para ajudar as vítimas do terremoto no Turcomenistão, ocorrido na última semana. A atitude do ex-BBB deixou indignado o sem-teto, que ameaçou chamar a Sociedade Protetora dos Altruístas à Distância, sediada em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, caso o banco não tomasse alguma providência contra o mais famoso de seus funcionários. Amedrontado, um gerente foi cobrar explicações de Wellysberto, que, impávido, justificou o bizarro procedimento alegando que não recebia depósitos com valor inferior a R$ 550,00 porque isso ia contra os seus princípios morais.

 Não é a primeira vez que a celebridade globoçal causa polêmica. Quem se esquece de suas declarações especistas, proferidas durante o confinamento na “casa mais vigiada do Brasil”, sobre o comportamento dos morcegos, das hienas e das lulas-gigantes, que cultivariam, segundo ele, o hábito nefando de depositar nas caixas de correio das mansões de Higienópolis, em São Paulo, exegeses anônimas sobre diversas passagens dos Evangelhos Apócrifos? Na época, a Associação Brasileira de Defesa dos Animais Repugnantes divulgou uma nota em que a) desmentia as acusações do bancário, 2) criticava asperamente as suas atitudes na casa, 4) solicitava às autoridades civis a prisão imediata do caluniador, f) fazia o panegírico dos bichos injustiçados, entre outras coisas. A direção do reality show chegou até a cogitar eliminá-lo do programa, mas no final prevaleceu a opinião de que isso acarretaria uma queda na audiência. Salvo da degola, Wellysberto viria a faturar meses depois o prêmio de um milhão de caramujos, convertíveis em dinheiro sonante nas casas de câmbio da Nova Zelândia e dos Países Baixos, incluindo a Groenlândia.

Embora o bancário tenha conquistado admiradores fieis durante o confinamento, especialmente entre as classes V e Z, formada por aqueles que pagam para trabalhar e ainda dão gorjeta para os patrões, é um fato indesmentível que sua imagem saiu bastante arranhada após as controversas declarações sobre a bicharada. Estúpido, corno, idiota, alarve, mandarová, pateta, brucutu, troglodita, fossa do Diabo, língua de cobra, flagelo do Satã e vergonha da nação são apenas alguns dos epítetos que ele confessadamente ouviu nas ruas após ganhar a liberdade.

 Por incrível que pareça, muita gente aprovou a atitude do ex-BBB de se recusar a receber um cheque com valor de R$ 549,00, apesar da nobreza manifesta da causa do depositante. “Quem”, pergunta o desocupado oficial Saulo Pereira, “pode resistir ao charme de um bancário que só aceita depósitos acima de R$ 550,00?” “Como pode alguém”, indaga o colunista de Releia Viturino Cavalcante, “continuar admoestando um sujeito que ajeita os óculos sobre o rosto com o indicador?” E remata o jornalista Sutião do Fobó: “Será que já não é tempo de suspendermos as ofensas e as injúrias contra esse rapaz?” “Realmente”, pondera o filósofo Aldo Melindró, “contra um bancário que só aceita depósitos de R$ 550,00 para cima e que só ajeita os óculos sobre o rosto usando o indicador não se pode erguer um dedo em acusação. São virtudes que honram a espécie humana e enobrecem qualquer biografia.”

Obs: este folguedo é parte do texto homônimo publicado no livro O vampiro de Quixadá, de minha autoria.