Em Interrupting identities: Turkey/Europe, artigo contido em Questions of Cultural Identity (organização de Stuart Hall e Paul du Gay – 1996), Kevin Robins, procura articular os processos de construção da identidade nacional turca a partir da relação Turquia-Europa pautada pela ideia de Modernização. Avaliando que o ressurgimento do islamismo como fonte de oposição a uma laicização e homogeneização culturais forjadas violentamente na afirmação do Estado-nação turco, Robins comenta, sobre os eventos políticos de 1980, como a sociedade civil reagiu ao golpe institucional que tomou parte na Turquia:

 

There were also crucial developments within Turkey, contributing to the unblocking of cultural and political life. The military coup in 1980 created a political and cultural vacuum, and, as I have already indicated, it was apparent that the Kemalist ideology was no longer capable of filling it. There was the need to find a new compromise which would not sacrifice Kemalist principles, but which could hold Turkish society together and give it a new identity’ in changing times.” (p. 73)

O comentário de Robins, me parece, é o tipo de afirmação que pode facilmente – demasiado facilmente – abrir brecha à romantização dos golpes de Estado. Ainda, se tomado isoladamente, simplifica a forma como o governo turco se diferencia da reação popular àquele golpe de Estado. Mesmo assim, creio que ela instiga a pensar sobre a questão da resistência civil aos regimes de exceção, ao menos se a tomarmos em outro registro: não o do “qual o lado bom do golpe?”, mas aquele do “que projeto político uma sociedade construiu a partir da emergência de um golpe?”.

Particularmente, aplico com bastante parcimônia a palavra “golpe” para falar do impeachment de Dilma Rousseff. Minha reticência vem muito menos de um negacionismo histórico, de uma resistência a reconhecer a ocorrência de um golpe jurídico-parlamentar, do que questionar de que, enquanto atores da esquerda, viemos nos ocupando politicamente de 2016 para cá. Num artigo ainda não publicado, teço uma crítica a alguns dos usos que a esquerda fez de “golpe” como categoria organizadora de suas ações políticas. Minha intenção não é relativizar a existência de um golpe ao usar este termo entre aspas, mas marcar a diferença notável entre um evento histórico e uma categoria de ação política que, baseada no primeiro, adquiriu uma dinâmica que merece análise própria.

 

Sem querer entrar na longa discussão sobre o que significa “golpe” como princípio de ação, o comentário de Robins sobre o golpe de Estado turco me faz pensar em como não fomos capazes, e não temos sido ainda hoje, de construir nada transformador, como sociedade civil, nenhum projeto de curto, médio ou longo prazo a não ser repetir: golpe!

 

Minha questão, pois, seria: o que, efetivamente, fizemos do golpe? Responder que resistimos, que estamos resistindo, ainda que alente nossas almas, responde somente a uma parte desta pergunta. No fundo, e à diferença de 1964, “golpe” não serviu para transformar nossa prática política e consolidar um novo horizonte de sociedade. Basta ver como o “Lula 2018” e o “Volta Querida” articulam a recuperação mítica de políticas que nem em seu tempo surtiram os efeitos que prometem produzir num Brasil pós-Dilma.

 

Se “golpe” é o mote de nossas ações políticas, se somos por ele orientados a denunciar o golpismo de Michel Temer, resta ainda presente o falseamento sedutor do termo resistência. Dizer que resistimos conforme repetimos golpe! é uma forma de autocomplacência bastante convincente. Isto é, somente enquanto nos distrai de pensar que golpe! não é capaz de mobilizar nenhum projeto efetivamente popular no Brasil.