Apesar de estar morando fora do Brasil há 14 meses, acompanho diariamente as notícias políticas do país. Dizer que, desde o começo, ou seja, após a reeleição da presidenta em 2014, era fácil visualizar a escalada do golpe, é chover no molhado. Então, por que será que tanta gente se deixou enganar com essa armação? Ou melhor, será que alguém se deixou enganar?

Vamos pensar no que aconteceu. A presidenta foi julgada por ter cometido o tal crime de responsabilidade fiscal. Sem entrar no mérito da questão, sabemos que, mesmo após aprovada a lei que regula esse tipo de atividade, tanto Fernando Henrique, autor da lei, quanto Lula, que o sucedeu, a ignoraram. É de conhecimento geral que mais de dois terços dos governadores em exercício o fazem como prática corriqueira. O próprio vice de Dilma, agora presidente empossado, também praticou.

Então, por que os parlamentares e o povo se sentiram tão revoltados com o governo Dilma? Bom, eu poderia, como já fiz, apontar causas prováveis para ambos. Porém, ao mesmo tempo que tentarei ser didático, evitarei ser demasiadamente reducionista. Até porque esse é o meu objeto de crítica.

É necessário fazer algumas pontuações. Dilma, como presidente, é muito ruim. Não satisfeita, se cercou de pessoas ruins. Se duvidar, piores que ela. Ruim no sentido de ser incapaz de exercer suas funções com um mínimo de competência. Sua incapacidade como líder de governo ainda se soma a sua profunda inabilidade em se comunicar. Lula, sabendo disso, precisou fazer todo tipo de aliança espúria para que ela fosse reeleita.

Alguns podem defendê-la. Mas acredito que a melhor postura para a esquerda, se ainda quiser ser levada a sério, é começar a reconhecer seus próprios erros. Se por um lado existe uma crise mundial sem precedentes, a ingerência da presidente e seus convivas levou o país a uma situação desastrosa. Por exemplo, somente a Venezuela, na América Latina, teve um crescimento pior que o Brasil.

O cenário não é dos maiores agradáveis, não é mesmo? Vamos adiante. Independente da crise mundial, existia uma pressão muito forte para que uma agenda de interesses norte-americanos fosse cumprida. Sim, estamos falando principalmente do pré-sal. Não significa dizer que o PT não estivesse disposto a realizá-la. O problema é que não estava acontecendo na velocidade que se esperava.

Ainda existia outro tipo de pressão interna. Desde que o Estado moderno se instaurou, principalmente a partir da segunda metade do século passado, foi prometido aquilo que não se podia cumprir. Pelo menos não da maneira como queriam. É impossível dar educação, saúde, moradia, assistência social e previdência ao mesmo tempo que se pratica um sistema como o capitalismo neoliberal. Inclusive, esse é o problema central da crise mundial.

É preciso reequilibrar as contas. Bem, o circo democrático permite que as empresas financiem as campanhas políticas. Me lembro de um empresário amigo meu que tinha o hábito de financiar todos os candidatos a prefeito da minha cidade. Assim, independente de quem ganhasse, ele teria seus anseios atendidos depois da eleição.

Começou a fazer sentido? Para quem será que os homens do legislativo e do executivo entregarão a conta-Brasil? Não acho que será uma escolha tão difícil. Afinal, na próxima eleição eles continuarão precisando de verba para novas campanhas. Nesse sentido, é melhor também vender a ideia da ineficiência dos serviços públicos e abrir as concessões para a classe privada oferecer um produto mais à altura do povo brasileiro. De lambuja, novos patrocinadores brotam do solo infértil do Estado moderno.

Ainda existe um último grupo, que,entalado em corrupção até o pescoço, precisava desviar a atenção da maioria. É triste ver que a velha política romana do pão e circo ainda funciona perfeitamente. A mídia, envolvida em duas frentes, dá a sua contribuição. De um lado, porque são administradas por grupos que dependem da manutenção do sistema de castas para manter seus privilégios. De outro, porque, assim como os nobres políticos, precisam do mesmo tipo de dinheiro dos empresários para que seu negócio continue aberto e funcionando.

No entanto, nada disso aconteceria se a parte mais poderosa do processo não estivesse envolvida: o povo. Essa é a parte complicada de explicar. Será que era tão difícil perceber todo esse estratagema? Eu creio que não. Porém, é preciso fazer alguns apontamentos para entendermos melhor essa parte.

Em um primeiro momento, é necessário dizer que havia uma insatisfação geral com a ex-presidenta devido a todos aqueles fatores que mencionei no começo do texto. Isso também se deve ao descumprimento das promessas de campanha. No desespero, foi dito aquilo que se tinha certeza que não poderia ser feito.

Eu poderia dizer que a população brasileira não aguenta mais corrupção. Não duvido que isso seja verdade. O contrassenso é que a maior parte, se não a totalidade das pessoas que se diziam indignadas, pratica irregularidades éticas corriqueiramente. E não digam que é a mesma coisa, porque não é. Eu não posso ter dois pesos e duas medidas. Pregar aos outros uma coisa e burlar minhas próprias leis de acordo com minhas conveniências.

Existe também uma parcela da população que não sabe fazer uma avaliação de si mesma. Acredita que uma meia dúzia de conquistas sociais e econômicas adquiridas nos últimos anos fizeram dela uma nova classe média, e, como toda classe média que se preze, odeia se misturar com as que estão um degrau mais abaixo. Juro que desta vez não citarei Simone de Beauvoir.

E qual é a novidade desse texto? Boa parte dessas observações já foi feita em outros textos.

Bem, existe um problema para o qual eu ainda não havia me atentado. Dois, para ser mais honesto. A grande maioria das pessoas sofre de uma burrice congênita e de uma preguiça gritante. As pessoas precisam reduzir os fenômenos até o limite da sua capacidade intelectual. Sendo assim, é muito mais fácil achar que o fato de não gostarem do governo devido às razões observadas justifica apoiar o golpe contra a democracia. Mesmo que isso lhes custe o sangue.

No meu próximo texto abordarei apenas esse último ponto. Até lá, o jeito é assistir sentado ao pior dos teatros que já foi nos apresentado.