Tenho certa dificuldade de desassociar o autor ou artista dos seus trabalhos e obras. Minha inclinação é uma cobrança sem razão de ser. Se eles não condizem com o conteúdo que produzem ou deixam de agir segundo a minha idealização, meu impulso é deixar de admirar trabalhos que tanto admiro. Quem perde sou eu.

A semana passada, que incluiu o Dia Internacional da Mulher, me possibilitou rever conceitos próprios e analisar o de outras pessoas. Começo pela entrevista do escritor Fernando Gabeira no Roda Viva. Ele tem o direito de mudar posicionamentos, mas me senti traído.  Gostei do revolucionário, não me identifico mais com o conservador atual. Meu conflito é querer transferir esse sentimento para os “antigos” livros e textos dele.

A revista de comunicação e marketing Meio & Mensagem resgatou, no dia 08, a importância de Marta Suplicy em relação ao empoderamento feminino e sexualidade, nos anos 1980, em programa de TV. Admiro grande parte do histórico da atual senadora e a ignoro atualmente.  Ela tem se mostrado tão amarga e perdida que nem parece a autora do “relaxa e goza”.

Participei de um debate online sobre artistas que se renovam. Citei as mudanças de estilo de Picasso e questionei se a obra de Romero Brito reflete o conservadorismo que identifica a gestão do prefeito João Dória. Elogiaram o cantor Fagner nos tempos de música-protesto: “Um homem se humilha / Se castram seu sonho / Seu sonho é sua vida / E vida é trabalho” Depois que ele compôs música ao juiz Moro, perdeu muitos fãs e ganhou outros tantos. Lembrei que Fagner gravou “Traduzir-se” e avisou a todos: “Uma parte de mim pesa, pondera / Outra parte, delira”.

A multiartista Denise Stoklos é caracterizada pela renovação constante. Quem não se sente confortável com mudanças poderá não se identificar com os 40 anos de Teatro Essencial. Conheço pessoas que gostam da carismática Denise, sem entender, se sensibilizarem e gostarem do trabalho dela. Eu curto ambas, diferentemente de muitos artistas que mantenho admiração somente pela obra.

A jornalista Marília Gabriela recebeu recentemente postagem de uma leitora que admitiu não gostar da sua voz e atuação como entrevistadora na TV, mas admirava os textos publicados. Ou seja, alguma parte pode ser admirada.  Eu não consigo e nem quero admirar nada relacionado ao Bolsonaro. Não sei se ganho ou perco com esse rigor.

A semana passada fechou com uma foto e nota divulgadas pelo historiador Leandro Karnal no Facebook, sobre um jantar com o juiz Moro e  outro magistrado. “Talvez não faça sentido para alguns. O mundo não é linear. Amo ouvir gente inteligente. Discutimos possibilidade de projetos em comum”, escreveu Karnal. Foi um bom marketing para o colunista do Estadão.

Vou continuar admirando alguns conteúdos dele em artigos, livros e palestras, mantendo a mesma ressalva de antes. Em 4 ou 5 vídeos que assisti, Karnal criticou, desnecessariamente, o escritor Paulo Coelho. De forma obsessiva até. Ao abordar os sete pecados capitais, Karnal deveria ter analisado a sua própria Inveja e Vaidade, mesmo que estes dois pecados tenham apenas a intenção de marketing profissional.

O mais nobre da semana passada foi o bisavó de 95 anos que se assumiu gay. Na internet, muitos passaram a admirá-lo, outros manifestaram preconceito e ódio. De imediato, gostei demais. Ele me faz acreditar que em qualquer idade é possível mudar de vida para ser feliz, sem perder tempo em avaliar, aprovar ou rejeitar a complexidade humana.