Se há algo desencontrado neste país é a política com o cotidiano dos brasileiros médios (ou do “homem simples”, na conceituação do sociólogo uspiano José de Souza Martins).

Políticos da situação se sentem deuses saídos do Olimpo, parte da oposição caminha com seu Rocinante pelos prados e parte dos jejunos oposicionistas que militam nas redes sociais se descabela com as novidades temerárias do Brasil político.

Do outro lado, o Brasil Profundo. Absolutamente à margem do mundo político.

Vejamos.

Pesquisa IPSOS revela que 55% dos brasileiros desconhecem reformas governamentais

Pesquisa IPSOS (não se trata de um instituto de pesquisa desqualificado, mas também não é o de maior reconhecimento público) revelou nesta semana que Temer tem 30% de aprovação entre os entrevistados contra 60% que desaprovam sua gestão.  Houve uma ligeira melhora na avaliação que, segundo o diretor do instituto, não se deve ao seu desempenho, mas ao clima menos beligerante pelo que o país passava até então.  Mesmo assim, o índice de rejeição é altíssimo: a avaliação do governo Temer como ruim ou péssimo envolve 45% dos entrevistados.

Mas esta não é a principal notícia. A fundamental é que 55% dos brasileiros desconhecem as reformas que Temer quer implantar no país. É fato que os efeitos negativos sobre os mais pobres (queda drástica de crédito bancário, perda de 300 mil postos de trabalho formal no último trimestre, ociosidade de 40% da indústria automobilística e inflação anual em 10%) já chegaram na ponta. Mas ainda não conectaram o cotidiano mais difícil com iniciativas de Temer. O mundo político continua em outra dimensão para grande parte dos tupiniquins.

No final de agosto, o estudo “Perfil do Inadimplente Brasileiro” revelou que 6 em cada 10 entrevistados (61,2%) avaliavam que a situação financeira piorou na comparação com o ano passado, seja em razão do endividamento (24,4%), seja porque estão desempregados (16,4%) ou porque a renda  diminuiu (20,4%).

Mas, a culpa ainda não foi totalmente depositada na conta de Temer. E será.

Os jejunos se desesperam

Tenho, somados, 35 anos entre militância e análise política como profissional. Já fui governo, consultor, outsider, dirigente, militante, assessor e crítico do fim do mundo. Vários ângulos sobre um mesmo lance. A perspectiva de quem tem a faca e o queijo nas mãos e de quem tem a plateia nas mãos. De quem se acha poderoso e de quem efetivamente tem o poder, além dos que nunca têm o poder mas sabem como criar instabilidades.

Então, vou me repetir para, na verdade, pedir serenidade de quem acredita que o Sétimo Selo foi aberto pelo Temer. Não foi.

O que ocorre neste momento já ocorreu com o governo Collor: movimentos múltiplos e acelerados. Naquela época, Collor afirmou que deixaria a “esquerda perplexa e a direita indignada”. Eu estava na assessoria nacional da CUT e posso garantir que a velocidade dos anúncios das medidas deixava a esquerda não necessariamente perplexa, mas desorientada. Mal analisava uma ação governamental e já era produzida outra. E outra. E outra. Trata-se de uma técnica. O problema é que os efeitos também chegam em cascata.

Mas, neste momento, Temer vai acelerar o carro. É o tempo político que tem para unir a tropa, pagar a fatura e dar certa impressão de que tem o controle absoluto sobre o feudo Brasil.

Os jejunos da oposição desanimam e se desesperam, por vezes. Nada mais equivocado. É preciso denunciar, informar e contrapor, mas é preciso deixar que os efeitos amadureçam. Não se retira de uma fruta o aroma e o sabor antes do tempo, nos ensinou Bertrand Russell. No máximo, conseguimos antecipar a forma madura. Mas não passará de um pastiche. Metade da população brasileira desconhece o que são os pacotes temerários. Pesquisa IPSOS, recém-divulgada. Aí está o trabalho persistente e plácido: informar e discutir com quem interessa. E, cá entre nós, não interessa a quem se opõe ao desmonte do Estado Social brasileiro dialogar com imprensa comprometida com o outro lado ou com quem se tornou Cassandra profissional. Esses já estão consumidos pelo fogo das certezas absolutas.

Enfim, esta onda de medidas mefistofélicas se desdobrará até março ou abril do próximo ano. Exatamente quando é provável que o bolso das classes populares já esteja bem apertado, o cinto esmagando a cintura e o sentimento de injustiça já seja forte e consistente.

A questão é que os temerários também sabem disto. E reagirão. Tentarão se antecipar e criminalizar ou desmoralizar toda fonte de organização que possa capitalizar esta reação negativa. Será a segunda onda. Esta é a batalha mais importante. Não a de agora.

Finalmente, a onda que completa este ciclo começará no segundo semestre de 2017, quando temerários e oposição tentarão viabilizar seus nomes para 2018. Mas esta batalha só terá sentido se a anterior já estiver consolidada. Se arrastarmos os efeitos e indignações populares ao longo do ano, o país ingressará em outro impasse, desta vez, possivelmente institucional.

Portanto, o jogo só começou e não há surpresa alguma até aqui. Há perdas. O que não sabemos é se são provisórias.