Por mais que a Filosofia e a Ciência tentem buscar padrões absolutos para tudo, há certas coisas que dependem de circunstâncias históricas incomensuráveis. Nossa percepção acerca da realidade, por exemplo, nem sempre é a mesma e é difícil imaginar que alguma fórmula seja capaz de esclarecê-la. São tantas variáveis a serem levadas em conta, com proporções tão diversas e tantas possibilidades de precisão e imprecisão, que soa um tanto quanto ridículo, depois de tanta História feita pela humanidade, 00querer homologar um conceito fechado, único e universal a respeito de como as coisas são vistas.

Há algumas marcas, no entanto, em nosso imaginário, que desvelam essa questão da percepção do mundo, e que são consagradas pela cultura ocidental. É o caso da Alegoria da Caverna, em que Platão trata de como os homens encaram a distorção da realidade; ou da Novinlíngua da distopia orwelliana de 1984, à qual faz referência o título dessa coluna e pela qual o governo controlaria o pensamento das pessoas; ou de determinadas situações de controle social total, da trilogia Matrix. Todas essas representações, metáforas e prenúncios podem nos ajudar a entender o que vem acontecendo com a humanidade, em especial com esse país.

Mais de sete bilhões de pessoas sobre a Terra. E os vencedores da Guerra Fria – os donos do capital – precisam controlar toda essa gente, enquanto expandem seu sistema, como prática econômica concreta, e também como doutrina. Um dos artifícios principais para isso vem sendo o financiamento regular de uma mídia sem escrúpulos, que passa a editar a História diária e, consequentemente, a vida, de modo a amparar esses donos do poder. Nesse contexto, a Internet, em especial as redes sociais, que poderiam constituir um artifício de emancipação, acabam colaborando para o aprofundamento da ideia de que uma versão da realidade pode substituir a realidade. Mas não qualquer versão. A versão hegemônica, a compartilhada aos milhares. E agora vivemos em um tempo em que o real já não importa. O discurso equivale à verdade e, portanto, a verdade passa a equivaler a discurso. De modo que o mais forte não só é dono da verdade, como a compõe da forma que mais lhe agrada e passa a conduzir seu gado humano para onde bem entende.

Não é a primeira vez que se vive sob a égide totalitária de uma visão única das coisas, na História, mas, talvez a falsificação da verdade nunca tenha sido produzida de modo tão cínico, porque provavelmente nunca estivemos, digamos, tão próximos de certas verdades verdadeiras.
E nós, no Brasil, estamos vivendo intensamente esse fenômeno.

Para o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, da Unicamp, e doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VII, a sociedade brasileira está “enfeitiçada” pela manipulação. Ao tratar do discurso da grande imprensa, forjado no ressentimento, defende que “só as versões se tornam realidade, ao ponto de as pessoas não saberem mais o que é real e o que não é.” Para ele, “A mídia é parte ativa na criação de versões e ficções sobre o que acontece. O que é de fato real soçobra.”

Não é difícil entender como essa canalhice funciona, nesse país. As narrativas oficiais, produzidas pela grande imprensa, dão vazão e canalizam não apenas determinados interesses político-econômicos, mas também sentimentos coletivos, como um ancestral ódio de classe, fermentado pelas conquistas populares durante os governos petistas, mas represado, por algum tempo, pelo politicamente correto. Nesse jogo sujo, criminalizam, geralmente de forma indireta, a pobreza: o partido do trabalhador só tem corrupto, o sem-terra é delinquente, o estudante de escola pública que reivindica melhores condições para a Educação é vândalo, o torcedor do time popular é bandido, de modo a apostarem na generalização que costuma acompanhar os rancores. Humilhar, desmerecer, estigmatizar, como sempre se fez, mas agora em rede nacional, diariamente, para que todos conheçam bem e assimilem visceralmente as verdades dos nossos dias. A nova realidade deve colocar essa gente em seu devido lugar, ou fazê-los sumir do mapa, porque ou servem aos donos do país em troca de migalhas, ou desaparecem de perto dos que acham que merecem privilégios – mas, claro, essas condições não podem ser reveladas assim, com todas as letras, logo, não é oficialmente real. Trata-se de uma realidade advinda de um passado escravocrata, fundada também em preconceitos e feita pela amplificação do ódio aos que, desde sempre, merecem apanhar, aos que, desde sempre, têm mais é que morrer.

Se a polícia massacrou a manifestação contra o governo, é porque está aí justamente pra acabar com qualquer tipo de baderna e pra manter a ordem. Se você discorda do que dizem na TV, nos jornais e nas revistas, você está preso a uma ideologia equivocada e assassina. Se você não sabe o que pensar, apenas recite o mantra da semana e o coro da massa o sustentará.

E se, na prática, não existe mais realidade, porque ela já não importa, tampouco há a possibilidade de terem alguma legitimidade as interpretações diferentes daquela que ocupa a posição de verdade institucional. Existe, no fim das contas, o que a mídia hegemônica mostra e só. O resto não vale, porque quem o apresenta não tem valor. E, se ser conduzido por essa nova tirania já é de se lamentar, pior ainda é fazer questão de defendê-la. Como diz Morpheus, em Matrix: “Você precisa entender: a maioria destas pessoas não está preparada para despertar. E muitas delas estão tão inertes, tão desesperadamente dependentes do sistema, que irão lutar para protegê-lo.” É o estágio mais profundo e socialmente perigoso da estupidez e da alienação. É o clamor pelo cabresto. É a humanidade derrotada por si mesma e acreditando que venceu.