ontem, no restaurante, camaradinha pediu a um pessoal numa mesa que lhe pagasse uma marmita.
pedido feito, pedido aceito, um garção foi preparar a marmita pro camaradinha, tendo a fineza de lhe perguntar:

– o que você quer na marmita?
– irmão, meu prato predileto é o cheio; então… – e piscou.

riu-se o garção.
me ri também.
mais: panhei simpatia.

veio o garção, lhe entregou a quentinha, que ele abriu sentado ao chão, sob a marquise do restaurante.
ao abri-la, contemplou-a por um tempo, e, com os dedos em pinça, começou um lento garimpo, pousando a coleta na tampa da quentinha.

eram as passas do arroz à grega.

aí panhei foi admiração mesmo.
dignidade, sabe?
tipo, “certo, tô na pindaíba, mas tenho princípios”.

paguei por meu rancho, saí.
passando por ele, dei-lhe dez dinheiros.

– pô, irmão, valeu. deus te abençoe.
– meu chapa, deus não tem nada com isso. sabe tirar as passas?
– sim.
– achei atitude.
– é, não gosto, e pronto. na comida, não. já passas ao rum…
– assino embaixo.
– se bem que essas aqui vão ser com pinga mesmo.
– tá tudo certo. rum também é cachaça, só que de Cuba.
– Fidel! – bradou.
– hasta siempre – devolvi.

nos despedimos brandindo punhos cerrados.
companheiros nas lutas contra ditaduras.
a das passas aí incluída.