Hermínia adentrou o quarto, cautelosa, prudente com as sensações que sabia de antemão que a arrebatariam: a velha cama, os enfeites de gosto duvidoso e o rústico armário continuavam os mesmos, mas ela, por sua vez, tinha mudado até os ossos. O tempo – esta metáfora preciosa- tem seus caprichos e age como quer. Contundente nas suas diferentes maneiras e à revelia do que quer que seja, escolhe seus diferentes alvos.

 

                A pequena estante de livros especialmente a intrigava. Havia os lidos, os sentidos, os impactantes e aqueles encarados apenas por vaidade. “Estes foram tempo perdido”, pensou.

                Atrás dos livros, a pequena caixa de cartas. Tanta vida havia passado desde que aquelas palavras foram escritas. Mas elas continuavam ali, testemunhas dos momentos que as produziram, tivessem sido agradáveis ou não. Encará-las era refletir sobre suas próprias mudanças ou permanências. O que permaneceu, concluiu Hermínia, causaria dor.

                 Dor esta que morava apenas no olhar, o inebriava, entorpecendo e marejando os olhos. “Posso queimá-las!” Poderia. O fogo, de beleza indescritível, destruiria formas e proporções. Não destruiria, contudo, as tais permanências.

                Não, a beleza visceral do fogo não a libertaria. Pensou Hermínia que libertar-se requereria morrer em vida e renascer.

                Tarefa árdua, violenta. Perder-se, enfrentar riscos terríveis, sem garantias de qualquer recompensa. Sabia Hermínia que viver é estar à deriva. Navega-se com poucas certezas.

                Exceto pelas cartas. Aquilo era concreto. Tinha lastro: feito de papel, tinta. Existiam como um norte para o porvir.

                Alcançou a pequena caixa, deixou-se inundar pelo cheiro. Este também permanente, guia para lembranças que a golpeavam. Acariciou a madeira, permitiu que seus dedos sentissem o formato, removendo parte da poeira que a cobria. Sua beleza ritualística contrastava com sua apreensão.

                Abriu a primeira, permitindo que seu olhar alcançasse a dimensão toda. Por breves instantes questionou se o formato das letras muda com os sentimentos que as criam. Logo concluiu que a forma, neste e noutros casos, pouco importava. Pensamento tolo, logo afastado. O mais importante estava logo ali.

                “Era tão belo”, disse a si mesma, em voz alta, em ímpeto sem controle. Ou apenas seu olhar à época fosse mais hábil para enxergar belezas. Agora já não o era.

Era preciso, definitivamente, renascer.

Renascimento

                Hermínia lamentava por ter, em vida, o acariciado como se seu rosto estivesse a milhas de distância, mesmo quando repousava bem ao seu lado.

                Pensou em todos os labirintos que a impediam de apenas ser. Assim se desperdiçaram cheiros, gostos e texturas; perdidos em emaranhados de formalidades que seriam absolutamente inúteis não fosse o terrível poder que carregam de ensinar a não sentir. Ou pior: como sentir.

                Questionou mesmo se aquelas palavras registradas nas cartas teriam novos sentidos caso suas sensações e toques tivessem transcendido as formalidades. Gostava de crer que sim.

                “Maldita vida!”, esbravejou Hermínia, condenando o passado ao olhar amargo de uma existência que agora se via estéril. Já ele, ao contrário, era por demais deslumbrado, vibrante, o que sempre a irritou. “Não me irritaria agora”, pensou, por um instante. Mas logo concluiu que assim pensava apenas por se permitir ingênua.

                Hermínia sentiu uma fisgada em suas costas, alarme que a fez retornar dos devaneios ao velho quarto. Avistou os últimos raios de sol do dia, já enfraquecidos. Nuvens esparsas se tornavam mais densas e anunciavam a tempestade.

                Sentada no velho quarto, costas eretas – tal como devia ser- e munida da antiga caixa de cartas, agora confortava-se com seu poder sobre aquelas lembranças ao simplesmente não abri-las. Assim, apenas contemplando, por alguns instantes, contentou-se.

                 Caiu a chuva. Forte, intimidadora, sem indulgências.

                Sem muito pensar, Hermínia se moveu. Afastou um dos pés, esboçou um passo, levantou-se. Olhou atentamente para as novas sandálias que cobriam pés já maltratados pelo tempo. Pés agora com formas que, se pudesse, preferiria não reconhecer.

                Sentiu um leve peso nas pernas. Sensação logo substituída pelo impacto da brisa quente, fruto do choque que provocavam as fortes águas do verão.

                Hermínia cedeu ao comando de suas pernas e caminhou. Um passo após o outro.

             Como num estalar de dedos, viu-se na chuva. Os cabelos desgrenharam-se. Deixou estar, sem reparos. E entre estranhos prazeres e incômodos, inundou-se.

Era possível, definitivamente, renascer.

[1] Old woman walking in the rain, de Cristian Black.