No texto Interinidade e exceção: hipótese de uma missão Temer, defendi a teoria de que o impeachment de Dilma Rousseff é resultado de uma orquestração do grande capital que, na condição de esgotamento de suas formas conhecidas de expropriação de excedentes da força de trabalho (especialmente na condição atual da produtividade do trabalho), tem de apelar, ao menos nesta quadra histórica, à pilhagem dos direitos do trabalho. Michel Temer, nesse contexto, seria um agente adequado à desregulamentação dos referidos direitos, precisamente pela sua imersão nos sistemas de poder totalmente alheia ao crivo [frágil] das urnas (que, aliás, é um modelo forjado dentro da própria historicidade burguesa, portanto concebido para administrá-la segundo seus princípios econômico-políticos).

Embora não tenha mencionado, debato, nesse texto, com a tese ‘Golpe sem Comando’, do Professor Vladimir Safatle, intelectual que respeito e admiro muito, e com quem tive o privilégio de estudar durante a graduação.

Mas as hipóteses distam-se diametralmente: se considero haver uma inteligência central no golpe civil-parlamentar de Dilma Rousseff, é porque baseio minhas análises na materialidade histórica que a crítica da economia política marxiana nos aponta. Safatle, a seu curso – e assumo a temeridade dessa projeção – simpático que é aos movimentos singularistas e idealistas do pensamento pós-moderno, tenderá, naturalmente, ao casuísmo de um golpe sem comando.

De todo modo, avalio ser de interesse tanto filosófico como político o olhar correto sobre esse processo. Em grande medida, a passividade da esquerda diante desse golpe se explica pela sua crença quase pueril no modelo democrático burguês. A ocupação de postos no Estado pelo PT imobilizou parte importante das ações políticas de pessoas muito bem-intencionadas, crentes na possibilidade de uma autonomia do Estado em relação à dinâmica do capital, ignorando a composição histórica e interessada do Estado (Marx – desde a década de 1840-, Lênin, Gramsci e tantos outros gastaram muita tinta a esse respeito). E hoje, 11 de agosto de 2016, lemos, no jornal Folha de São Paulo, algo que parece robustecer meu argumento (transcrevo ao fim do texto). Convido, também, para que conheçam a argumentação do Professor Safatle (sempre vale a pena!), para que possamos caminhar a um diagnóstico mais preciso. Segue o link.

Vladimir Safatle: “O golpe de 2016 é um golpe sem comando”
Tv Boitempo

Matéria da Folha:

Temer se reúne com banqueiros e empresários para tentar evitar que setor privado abandone governo
http://painel.blogfolha.uol.com.br/2016/08/11/temer-se-encontra-com-banqueiros-e-empresarios-para-tentar-evitar-que-setor-privado-abandone-governo/

POR PAINEL

Fica, vai ter ajuste Michel Temer reuniu-se nesta quarta (10) com banqueiros e grandes empresários para evitar que o setor privado se afaste do governo. No encontro, o presidente interino reafirmou seu compromisso na área fiscal. O gesto ocorre após reclamações do mercado sobre aumentos a servidores e recuos no Congresso. Para os empresários, é preciso insistir em reformas amplas. Um executivo presente disse: “O governo tem de perseguir o binômio senso de urgência e capacidade de entrega”.

Só a nata O grupo de executivos se reuniu separadamente com Temer, Henrique Meirelles e Rodrigo Maia. A comitiva foi integrada por Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Pedro Moreira Salles (Itaú), Jorge Gerdau, entre outros.

Aplica aqui! De acordo com interlocutores, os empresários disseram que há cerca de “US$ 15 trilhões ancorados em juros negativos” no mundo e que a confiança é a “moeda mais barata” do Brasil para atrair dinheiro lá de fora.

Meu níver! Michel Temer prometeu fazer o “máximo possível” em dois anos e disse que seu balanço de 90 dias no cargo é positivo.

Essa aí passou! Congressistas avaliam que a proposta de emenda constitucional do limite de gastos será bastante desfigurada. Se em um projeto de lei como o da renegociação da dívida dos Estados o governo teve de recuar tanto, imagine no resto, dizem.