Depois do melancólico resultado de ontem no plenário da Câmara, que deu o primeiro passo concreto na direção do afastamento de Dilma Rousseff da presidência da república, creio estar o Brasil inteiro mergulhado em uma contraproducente ressaca emocional. Por mais que eu tente, não consigo fazer um balanço concreto do que aconteceu, embora, de certa forma, o resultado fosse tristemente esperado. O que aconteceu ontem nos afeta a todos de forma profunda e, no meu entender, nos encaminha para um lugar ainda mais árido, ainda mais difícil.

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Meu pensamento estancou nas imagens do plenário da Câmara, ontem. Imagens de horror, mas também de grandeza.

O horror encontrou sua máxima expressão no voto de Jair Bolsonaro. Nunca esperei nada do deputado do PSC carioca, mas quando ele, do microfone, dedicou seu voto ao Coronel Brilhante Ustra, penso que ele conseguiu se superar. Ustra é o responsável por 45 mortes durante a ditadura militar e é citado em cerca de 500 casos de tortura durante aquele regime político. Um dos métodos do militar para arrancar confissões de mulheres presas era introduzir ratos em suas vaginas.

Com sua homenagem, Bolsonaro cuspiu em toda uma geração que se forjou na luta pela democracia durante um regime de exceção. Cuspiu na memória de homens e mulheres jovens, que tiveram sua vida abreviada pela brutalidade e pelo arbítrio de uma história que ainda nos ronda. Bolsonaro testa os limites de nossa tolerância às divergências ao personificar o Horror, o indefensável, o abjeto. Mas o que se comenta hoje, com ares de indignação, é outra cusparada, a desferida pelo deputado Jean Wyllys em Bolsonaro.

Jean, que é um dos políticos mais difamados e caluniados do Brasil por conta de sua atuação clara, bem demarcada e de sua orientação sexual, é ainda obrigado a conviver com as ofensas constantes, inoportunas e criminosas de Jair Bolsonaro e de outros deputados que se utilizam das prerrogativas de seu cargo para produzir nada além de discursos obscurantistas (quando não abertamente criminosos) e para deferir provocações rasteiras, dignas do jardim de infância, contra colegas.

O cuspe de Jean em Bolsonaro foi coisa de pouca monta perto do que Bolsonaro livremente apregoa da tribuna no Plenário da Câmara, mas, a mim, me lavou a alma. Ao deputado, agradeço.

Se a noite foi feita de horror, pode-se dizer, também, que teve elementos inequívocos de grandeza. Para citar apenas um exemplo, fico com um jovem deputado de Nova Friburgo que, tendo sido eleito para o atual (mandato) pelo PSB, migrou para o PSOL quando sentiu que a legenda, afastando-se de seus ideais históricos, apartava-se também de sua consciência. O nome desse deputado é Glauber Braga. Anotem esse nome.

Glauber é pré-candidato à prefeitura de Nova Friburgo, cidade com cerca de 180.000 habitantes no interior do estado do Rio de Janeiro. A cidade cuja população, acossada pela crise política e econômica, comprou o discurso fácil de que Dilma deveria ser afastada da presidência da república em nome do combate à corrupção. A mídia e a direita trabalharam bem na formação desse quase-consenso em torno da solução mágica do impeachment, e não se enganem: boa parte dos deputados votaram guindados apenas por esse consenso, sem se debruçar, por um segundo sequer, sobre a pertinência ou impertinência da denúncia que deu origem ao processo.

Todos os deputados foram intensamente pressionados por suas bases a votar pelo impeachment. Forjou-se a impressão de que quem não o fizesse estaria a defender corruptos, muito embora a denúncia que deu origem ao procedimento de impeachment não tenha qualquer relação com corrupção. Como estamos em ano eleitoral, não foram poucos os que optaram pelo caminho simplista do afastamento de Dilma simplesmente para atender aos anseios imediatos do eleitorado.

Glauber foi alvo desse tipo de pressão. O eleitorado o pressionou de forma consistente, sem tréguas. Adversários políticos de Glauber bancaram uma pesada ofensiva publicitária para desqualificar o deputado e o seu partido por conta das posturas do PSOL à esquerda e do voto da bancada contra o impeachment.

Pois, apesar de tudo, apesar das pressões, o deputado não apenas votou contra o impeachment como produziu um dos votos mais memoráveis, fortes e belos daquela noite, como um todo, pantanosa e lamentável. Reproduzo o vídeo, para que o leitor constate, por si mesmo, a força de seu discurso.

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Quando Glauber Braga fala que vota por aqueles que nunca escolheram o lado fácil da história, ele sabe perfeitamente bem do que está falando. Sua escolha pode acabar por se traduzir em reveses eleitorais, mas estar em dia com a própria consciência e ombrear-se com aqueles que estão do lado certo da história não tem preço. Isso é grandeza.

Agradeço a Glauber Braga e a todos os gigantes que emergiram daquele lodaçal de oportunistas e de anões morais. O futuro é de vocês.