Alguns posicionamentos do consultor de empresas e conferencista Stephen Kanitz dão o que pensar. Antes de atualizar a minha atual surpresa com o último texto dele, volto em dezembro de 2007, na última edição semanal da revista Óia (Veja), onde Kanitz distinguiu brasileiros de brasilianos. Ai, ai, ai.

Chegou a citar o adiposo ex-ministro Delfim Neto, que eternizou uma bobagem: “o sonho de TODO brasileiro é mamar nas tetas de alguém”. Delfim mamou muito e ficou adiposo. Brasilianos estão em outro patamar. Não mamam, não choram. Kanitz definiu: “Brasileiro era a profissão daqueles portugueses que viajavam para o Brasil, ficavam alguns meses e voltavam com ouro, prata e pau-brasil, tiravam tudo o que podiam, sem nada deixar em troca.”
Há dois tipos de brasilei

ros na visão do consultor, começando pelos profissionais com essa mesma terminação: pedreiro, padeiro, funileiro e afins. (Os nascidos em Minas Gerais são o quê?) Em outro nível estão os brasileiros que investem nas Ilhas Cayman. “Não veem o Brasil como uma nação, mas uma terra a ser explorada, o mais rápido possível. Investir no país é considerado uma burrice”, escreveu Kanitz.

Atualizando para 2016, essa população de eiros cresceu muito. “São esses brasileiros que viraram os bandidos e salafrários de hoje, que sonham com uma boquinha pública ou privada, que só querem tirar vantagem em tudo.” (Cariocas, gaúchos, capixabas e gentílicos com final enses estão excluídos).

Brasiliano rima com italiano, indiano, australiano, baiano, goiano, sergipano e também paulistano. Stephen Kanitz nasceu em São Paulo capital, é paulistano. Herdou o prenome da mãe inglesa e afirmou:“Brasiliano não é profissão, mas uma declaração de cidadania, aqueles abnegados que cruzaram o Atlântico para criar um mundo melhor, uma família, uma nova nação.”

Há outro tipo mais sofisticado e que investe na Bolsa de Valores de São Paulo, em detrimento das ilhas fiscais. “Foram os brasilianos que fizeram esta nação, em que se incluem índios, negros e milhões de imigrantes.” (Quando leio este trecho me deu saudade do Peri de José de Alencar. Da Cecizinha também).

Continuando: ‘“Quem está destruindo lentamente este país são os brasileiros, algo que você, leitor, havia muito tempo já desconfiava.” Ai, ai, ai. Será que entendi direito?Os leitores de Kanitz, na revista Óia, são todos brasilianos? Nenhum deles investe em ilhas fiscais, como fazem os brasileiros? (Ai, ai, ai. O Peri tá sabendo disso?).

O que continua atual de 2007 pra cá é a afirmação de que moradores do Brasil “não têm uma Constituição, que ainda é negada a uma parte importante da população. Uma Constituição feita pelos verdadeiros cidadãos, que estimule o trabalho, o investimento, a família, a responsabilidade social, a geração de renda, e não somente sua distribuição. Uma Constituição de obrigações, como a de construir um futuro, e não somente de direitos, de quem quer apenas garantir o seu.”

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Ainda em 2007, na Óia, ele escreveu o artigo “A tese de Dilma”. Sete anos depois, em abril 2014, a revista Fórum, via Maria Frô, reproduziu este texto do blog de Kanitz: “Dilma implanta sua tese, em menos de 15 meses”. A presidente é elogiada por ter baixado o Custo de Capital das empresas brasileiras para 2% ao ano.  “Se todo mundo ficar falando de caderneta de poupança como opção e ficar culpando os Bancos que no mundo inteiro estão morrendo de velhos, vamos novamente morrer na praia. Esta é a nossa última chance, acreditem em mim. Não desperdicem esta última oportunidade. Ela já tem o meu total apoio, agora só falta o seu”.

Quatro anos depois, Kanitz parece comemorar a vitória do prefeito eleito em São Paulo, por paulistanos brasilianos e brasileiros.“Dória é nossa chance de renascer com líderes que sabem administrar”. Ai, ai, ai.

Lá atrás, o autor sugeriu que o IBGE pesquisasse (e isso vale para 2016) a proporção de brasileiros e brasilianos para entender o Brasil. Segundo Kanitz, é uma informação estratégica para prever o futuro crescimento do país e saber se haverá crescimento ou somente a continuação do conflito distributivo no país. “O eterno conflito entre aqueles que se preocupam com a geração de empregos e aqueles que só pensam na distribuição da renda”, finaliza o artigo. Ai, ai, ai.