precisando dar um ar fresco pro meu gripado e entupido nariz, desço pro pilotis aqui do prédio.

uma mãe e seus dois filhos se chegam à área de sombra em que estou.
um dos filhos é bebê, o qual a mãe embala no berço, o outro tem uns 5 ou 6 anos, abre um caderno grande no chão, tira de um estojo em forma de girafa uma dezena de lápis e canetas de todas as cores, deita-se de bruço e começa a desenhar.

tempinho depois, boto butuca no desenho, elogio:

– que dragão legal.
– não é dragão, não – responde bem sério, e completa: – é uma vaca.
– ai, me desculpe… é que eu tô sem óculos, não enxergo bem sem eles. que vaca bonita. qual o seu nome?
– Gustavo.
– e cê também já sabe escrever, Gustavo?
– sei – confirma, sem parar de colorir as asas da vaca.
– ah, Gustavo, fala a verdade pro moço, filho – intervém a mãe.
– eu já sei escrever, sim – retruca, altivinho.
– vai aprender rapidinho, meu filho, mas ainda não sabe – reforça a mãe.
– sei, sim. sei escrever desenho – finaliza com “touché” Gustavo, o Espadachim dos lápis.

razão incidental, bem verdade, mas razão.

quantas milenares civilizações não escreveram suas epopeias e suas rotinas com desenhos?
e lembro de ter lido que muitos dos ideogramas das grafias japonesa e chinesa remetem às formas das coisas a que a escrita se refere, como casa, árvores, animais etc.

e sobre eu ter visto um dragão no que era uma vaca, questão meramente idiomática, ué – no caso, de um saber riquíssimo que todos desenvolvemos e dominamos até um certo período da vida, mas depois desaprendemos, e cuja maior prova disso que conheço veio do Picasso, quando, já quase octogenário, declarou: “eu levei uns 70 anos pra reaprender a desenhar como uma criança de 7 anos”.

perdeu, mãe do Gustavo.