Os movimentos de ocupação estudantil, sobretudo em São Paulo em 2015, deixaram patente o desejo de reconhecimento dos jovens como sendo sujeitos de direitos (e não apenas de estarem sujeitos ao direito), notadamente o direito pleno à educação. Isso passa necessariamente pela democratização da gestão dos sistemas escolares, que têm na elaboração de seus currículos um dos pontos mais centrais, difíceis, problemáticos e estruturantes. Democratizar o currículo, então, sempre foi o recado direto que esses estudantes mandavam quando faziam oficinas, rodas de conversa, aulões nos quais falavam sobre gênero, raça, sexualidade, classe, política, meio ambiente, os anseios e expectativas para uma vida e um mundo diferentes.

Quem, então, entendeu o recado das ruas? Parte da esquerda, e, o pior, também parte da direita. Mas quem soube converter uma demanda legítima em instrumento de disputa definitivamente foi o governo Temer, em conluio especial com o governo de Goiás, que, por meio de sua secretária de educação e cultura, tem impactado diretamente no debate nacional do tema. (Seria muito bom, para entender a política nacional atual, deixar o Alckmin de lado e olhar mais para Goiás. O Sudeste é apenas parte da Realpolitik e, perto do Marconi Perillo, é até café pequeno às vezes.)

Como isso se deu? Ora, assistam à propaganda do MEC e vejam o que o governo promete. Direito de escolha. Autonomia. Liberdade. Atendimento de demandas da juventude.

Sabemos bem que essa reforma traz tudo menos a flexibilização e a concretização da autonomia. Os itinerários formativos na verdade engessam tremendamente o currículo enquanto o fato de não serem obrigatoriamente todos ofertados em todas as escolas faz que não haja nenhuma possibilidade real de escolha. Tudo isso tem um objetivo nítido que é o de forçar uma especialização precoce, jogando com a ansiedade (natural na adolescência) de identificação com uma carreira profissional que deveria justamente evitar o constrangimento de uma escolha precipitada – quando, me parece, o papel do Estado seria o de ofertar oportunidades iguais para que todos pudessem no mínimo experimentar as diferentes disciplinas e componentes curriculares existentes (e outros que precisamos incorporar e até mesmo inventar).

Acho que nos perdemos precisamente aí. Como oposição à retirada de saberes dos currículos e ao seu esvaziamento, muitos acabaram saindo em defesa do currículo tal como existe hoje, seja no seu formato, seja na sua aplicação. Há anos falamos sobre transversalidade e interdisciplinaridade, autonomia do sujeito aprendente (termo bem bonitinho que só usamos por bons modos), mas adoramos o currículo fechado, o trabalho disciplinar, o estudante não como aquele que constrói, mas aquele que se esmera em cumprir o currículo. Também argumentamos às vezes que um currículo finlandês não seria aplicável ao Brasil (e não é mesmo, mas não) porque aqui a obrigatoriedade das disciplinas ainda garante melhores condições para o exercício da cidadania e da autonomia; o que, aliás, só dizemos quando sobrepomos a obrigatoriedade da oferta da educação e a compulsoriedade no atendimento de todos os saberes definidos como básicos. (Por quem, pra quem, por que, em que condições? Política pública também precisa pensar nisso.)

Só sobrou isso pra nós? Naturalizar nosso currículo como se ele não tivesse história e nosso modelo de ensino como se não tirasse em muito o protagonismo estudantil?

Defendo a reforma do Temer? Não. O fim da obrigatoriedade de saberes básicos como Biologia e História? Jamais. Mas deixamos de lado como pauta regressiva aquela que louvávamos há dois anos enquanto a direita, sem incorporá-la efetivamente, se apropria dela para fazer avançar seu projeto de país.

Não importa termos razão sobre o currículo (em muito, nem acho que tenhamos ultimamente). Como diz Brecht: “Uma vez que é difícil escrever a verdade porque em toda parte ela vem sendo suprimida, muitos pensam ser questão de foro íntimo escrever a verdade ou não. Acreditam somente é necessário coragem. Esquecem a segunda dificuldade [de escrever a verdade]: [seu] descobrimento” (Teatro Dialético, p. 21).  Ou então, como aponta artigo recente de Tatiana Roque no Le Monde Diplomatique (http://diplomatique.org.br/subjetividades-no-ponto-cego-da-esquerda/): enquanto a direita convence os trabalhadores de que a privatização de tudo é natural e palatável usando a figura do empresário de si mesmo, a esquerda tenta reativar a figura do proletariado de chão de fábrica atado a seu patrão na qual esse mesmo proletariado já não mais se reconhece. No caso em questão, boa parte de nossos jovens vai acreditar nessa mudança do governo Temer como benéfica enquanto estamos defendendo um currículo que eles têm mil razões legítimas para querer transformar.

Enquanto isso, o que fazemos à esquerda?: dizer para eles que o melhor que há é cumprir o programa empurrado de cima pra baixo pelo Estado.  É mesmo preciso dizer quem vai ganhar essa disputa na sociedade, ainda mais na atual correlação de forças?  Quem saiu em defesa do currículo, decerto, não.