Eu,

aqui,

à espera

 

à espera

 

desta parte de mim

que sou quando

contigo…

é inevitável a falta

se só por ti

pertença de mim

enfim

um fim

em mim

de mim

sua

pele

minha

meu

mais fundo eu

minha

e em ti

e só

enfim

voltar a ser

 

Eu,

aqui

à espera

 

refaço

o que de mim em ti

aborto e renasço

Outra

a que escreve a ausência de mim e se faz presente

quando escrevo estar sem ti

sendo

essa linguagem em falta

e presença

e alheia

que se refaz da saudade do seu próprio corpo

(e do seu)

Corpo

e linguagem

eu

quando contigo estou

cantiga

aqui,

à espera.

 

Sendo Outra

e minto,

pois falar do passado como se ainda fosse

é reviver uma Outra

que não é

e nos coloca à parte

à espera

do silencio e dos sons

e da inteireza que

só serei

em ti

 

Enquanto isso

Outra…

 

Chegou tarde àquela noite e não estava frio, mas uma febre ao contrário percorria o chão, fissura, percorria e a espinha… espinhava:  sua espera. Havia alguns meses que sua pele perdia a semântica de ser, ainda que em digitais ásperas. A cada instante empalhada em si, cada vez mais anestesiada de seu próprio sangue e memória. Quente ou macia ou úmida ou ter cheiro de açúcar queimado e limão e cravo e manjericão e laje batida, ou contar alguma história de quando ainda se catavam tatus no quintal, alguma música pop de amor, algum samba de amor e os goles de cerveja – preta, preferia preta – em algum boteco barato da Rua Augusta, o paladar já por demais afetado, inclusive . Não SE sabia mais. Escalpelada, apartada da própria pele, nem mesmo mais fios de cabelo – crespos?, nem maciez após a depilação. Em contato com Outro é que se sente, em contato com Ele é que roçam…  E isso é. É. É… Olhar e saber-se olhos… (só seus pelos é o que faz Sentido.) E, finalmente, saber quem se é, oh! oh! oh! sendo!  Saber quem se é e ser neste único instante para sempre.

Escrever é sempre sobre mentir, por natureza. O que passou já não é. E mesmo o presente é apenas a mentira do instante sepultado, defunto fresco. E a sinceridade? Moraria no gesto? Moraria no toque? Moraria nos cheiros? As lembranças também têm um cheiro… O que não mente é a carne, toda ela, sem separação – cheiro, toque, memória… E escrevo aqui sobre esse frio, sobre fissuras e espinhas, mas é necessariamente sobre Nós, pois que se escrever é fazer do Outro um pedaço de minha carne, é também que escrevo para imaginar o gozo que é o Outro devorar essa parte de mim.