O ano começa quase depois do Natal. Estranho, mas é verdade. Começamos a fazer balanços internos, tipo loja que antigamente fechava para contar o estoque de mercadorias, e novamente apostamos tudo de novo. É que sentimos o frescor de novas chances e talvez ninguém tenha parado para pensar que é nesse momento, talvez o único, em que, de fato, nos perdoamos.

Passamos um longo inverno nos culpando pelos chocolates quentes quando os casacos não fecham os botões. Provavelmente desde o outono eles já não cabiam mais, mas estamos dispersos neste período em que caem as folhas, estamos pensando suavemente que temos um bom tempo para novos começos ao passar dos meses. Parece que até brotam frutos de dentro da gente, e é verdade. Quando mais seríamos tão férteis do que no começo de quase todas as coisas? Início de carreira, casamento ou namoro, no cuidado com a casa nova, na primeira semana de estudos… Acho que nunca estamos tão inteiros quando somos como galhos de goiabeiras aos cachos, com ideias bastante germinativas e “fim” é uma palavra que mora longe, no último dia do ano.

Nos encontramos outra vez nesse mesmo leve sonho ao pipocar de outros botões que não dos casacos de frio, os botões de flores anunciando a primavera. Gosto desta palavra “primavera”, foi a primeira que li quando criança, na escola. Nesta estação rapidamente o sol se abre com cheiro de água fresca, seja de praia, piscina, chuveiradas, banhos ligeiros no tanque. As crianças amam as mangueiras nas suas duas formas de existirem, as carregadas de mangas e aquelas ligadas à torneira o dia inteiro no quintal. Começamos molhando os pés, mas é desculpa pura para a mãe deixar o que prometeu veementemente negar por conta da sagrada economia. Criança não sabe o que é economia, aprendemos isso da forma mais chata, e eu entendo por completo essa ternura de ser pequeno.

Eu sempre estava transitando por essas duas cenas, molhando os tornozelos, depois os joelhos, as mãos e quando “sem querer” encharcamos a roupa. Pronto, já é a desculpa perfeita pra se banhar por inteiro. Sempre tem um alguém, em algum momento desses, em quem miramos um jato d’água com susto. Uma modalidade fantástica de brincadeira.

Na vizinhança um pé de manga carregado de frutas ainda verdes atentava bastante os meninos. Observava a cena dos terríveis desbravadores de terrenos alheios, atiradores bons de mira, escaladores de árvores gigantescas. Acredito muito mais na hipótese de um menino ter inspirado o autor de o Homem-Aranha a inventar este herói “man”. Já viram como trepam com mãos de garras pelos troncos árvore acima?! São geniais e talvez não se deem conta do perigo. Gosto disso! Criança também desconhece o medo. Quem ensina isso a elas são adultos, gente grande por fora e pequena por dentro. Depois reclamam que elas não superam as intempéries da vida.

Na minha rua, os corajosos davam aulas de culinária: manga com sal, cajá verde com sal, ciriguelas “de vez”, amêndoas inchadas. Rapidamente aquilo caía no gosto popular da criançada. Como são admiráveis inventores! Sumíamos com o pote de sal e ouvíamos sermões por dias. Pessoas crescidas pensam também que as crianças são surdas, porque até gritam com um adorno na mão conhecido por chinelo.

Eu temo a morte dessas bobeiras. Nossos sonhos eram casas nas árvores com escadinha, porta e janela. Nossa primeira associação comercial era um clube, detalhe: com sede e reuniões extraordinárias, das quais só gente perfeitamente inconsequente fazia parte, a começar pelo líder e terminando com o mais fraco, frouxo na fala, aquele que tudo conta sob pressão. A casa de vidros quebrados abandonada da redondeza era o covil de estranhos pensamentos noturnos. Enquanto se podia temer seu ambiente sujo e vazio, eu me peguei pensando sério em, depois de limpá-la, mudar para lá após alguns castigos familiares. Aliás, programei minha primeira fuga de casa, sem sucesso, aos quatro anos. Na segunda tentativa, anos depois, realizei a proeza levando uma banana para sobreviver, mas voltei perto da hora do almoço e notei chateada que ninguém havia percebido. Na terceira vez, foi algo maior, liderei meus dois irmãos mais novos a pôr o plano em ação, dessa vez levamos boas bordoadas. Arquivei esta ideia, chega de fugas! Andávamos salvando vidas de cachorros abandonados, gatinhos deixados em caixas de papelão e pardais que despencavam dos ninhos. Havia sentimento de dor e comunhão divinal quando morria um bichinho. Ninguém pensa que incentivamos os doutores do mundo, os anjos do asfalto, a cruz vermelha, Madre Teresa de Calcutá?!
Quero ver o dia em que seremos condecorados merecidamente.

Quem nunca levou tão a sério um “Belém, Belém”?! E o garoto preferido do colégio?! Amei vários intensamente, uns duraram poucos dias, outros mais de meses, até virar a página seguinte. Entre essas secretas associações mirins, tinha de tudo, inclusive advogados, juízes, professores de tipos variados (inclusive o do primeiro beijo), estilistas, políticos, feministas, machistas, neutros, repórteres, anarquistas, cientistas, músicos, policiais, meliantes e até bons comerciantes e empreendedores. Falo sério, o Dedeco sabia ganhar dinheiro engraxando sapatos! Ele tinha cédulas de papel, enquanto mal alguns de nós tínhamos somente algumas nicas doadas pelos avós. Foi por uma dessas que um dia desenhei e pintei uma nota de dois cruzeiros pra mim, fui direto ao bar de dona Rosa, pedi toda minha “fortuna” em balas. Ela sorriu e me presenteou com os doces pela minha obra de arte. Não demorou muito, montei meu próprio negócio, uma revista de histórias (que NUNCA tinham fim), é que eu precisava garantir a próxima venda e manter minha clientela aguçada. Logo depois abri uma escolinha num beco da minha casa e, pasmem, tinha três alunos! Sonhava de verdade que poderia melhorar pessoas educando de um jeito diferente de imitar a professora.

Perto do Natal nada nos era tão interessante quanto os comerciais de TV com propagandas de lançamento de brinquedos supimpas e vitrines com pisca-piscas pelo comércio. Não era amante do vidro entre nós e os objetos de desejos carnais. Nesta hora é que busco entender e perdoo com compaixão os trombadinhas. Na tarde seguinte, uma coisa interessante entre a turma: o poder da negociação e da humildade de pedir. Caramba, isso que é resiliência… Garantia certeira de boas voltas com a bicicleta alheia, pilotar o carrinho com controle remoto, dar gelo no chato que nada divide e, por fim, curtir de verdade os presentes mais baratos, a bola e o elástico comprado na mercearia da esquina. Chamada de vendinha do bairro, aquilo era um oásis de esquisitices e criatividade! Da linha de costura à ração de codornas, do arroz ao sabão, e no teto haviam pendurado sombrinhas, espanadores, vassouras, baldes, brinquedos, bacias e até penicos, uma espécie de vasilhame para fazer xixi. Pensei seriamente em ter uma dessas como negócio. Andava lotada!

Economia mesmo era guardar o chiclete chupado, partir a bala no meio e morrer literalmente quando a mordida pedida em nosso pirulito nos deixava somente com o pauzinho na mão. Isso tinha muito valor em nossas contas infantis. Desde então nos importava muito como adquirir o próximo estoque. Daí um pensamento invadia a mente de otimismo, um renovo depois do Natal principalmente, sabendo que viriam novos dias, novas chances que nos acompanhariam até os dias de hoje com bons propósitos de recomeços com mercadorias de esperança, promessas de dietas saudáveis, parar de fumar, começar de verdade a fazer caminhadas, fazer as pazes com uma birra antiga e quem sabe, nos perdoar por sermos tão adultos e cruéis conosco . Penso que somos “estreias” todo santo dia e aquele meio-termo entre o verde e o maduro, como o “Menino de engenho”, personagem do romance de José Lins do Rego, em seu primeiro livro. Credo, como nunca nos damos conta de que só crescemos?!
Alma mole em vida dura, tanto bate até que cura. Nem tudo é pra hoje. Então?!