Não era tarde pra dizer adeus

Embora a teimosa mão insistisse em tocar

os dedos gelados, grudados em inércia da alma fria .

A voz que rebate entre os dentes semicerrados

Voltava tímida, não havia o que dizer.

As letras se embaralhavam e não conseguiam formar

nenhuma palavra, sequer monossilábica.

Sequer gemido.

 

A criatura de alma fria

batia o pé impaciente

Contando mentalmente de um a dez.

As letras esvoaçavam

libertinamente em sua boca,

Esperando ansiosamente qualquer

brecha de respiração.

Eram loucas por liberdade.

 

A mão teimosa, criatura de olhar piedoso também,

Quase um cão sem dono, pedia alento, queria

abraço, o afago que não vinha .

O coração era covarde, não sabia o que exigir e

sequer sabia se tinha o direito.

 

Criatura de alma fria

Rangia os dentes, olhava para

aquele emaranhado de comédia barata

que envolvia sua existência.

Mexia os dedos oprimidos pela mão teimosa

Coração acelerava,

Pequena gota de suor descia pelo

lado esquerdo do rosto.

 

Dobrou seus lábios, titubeou.

Moveu seus dedos encarcerados novamente

Rangeu os dentes e sua boca num ápice de

ânsia, tal qual quando quis vomitar

Se entregou.

Deixou que as letras voassem e tomassem vida

própria

 

– Vou perder o ônibus!

 

Arrancou-se para dentro da lata com rodas

com um arrancado suspiro de alívio.

Afagou a própria mão.

 

E partiu.