Em pequenos e grandes coletivos, o capital financeiro vem sendo substituído pelo capital de vida. A intenção é ganhar qualidade no dia a dia e na experiência de viver. Como não dá pra viver sem dinheiro, surgem os jardiNHeiros, praticantes da sustentabilidade com rentabilidade. Mesmo ganhando adesão mundial, é um trabalho de formigas vegetarianas e veganas.

  Em 1º de outubro é celebrado o Dia Mundial do Vegetarianismo. Faltam dados atuais para comemorar a data. Em 2012, o IBGE fez pesquisas em algumas cidades brasileiras e divulgou que 8% da população nacional era vegetariana. De lá pra cá, a quantidade aumentou, em forma de associações, ONGs, eventos, publicações. Criada há 13 anos em São Paulo capital, a Sociedade Vegetariana Brasileira – SVB – tem hoje 13 núcleos em diferentes regiões do país.

O secretário executivo Guilherme Carvalho explica por que o termo vegetariana está no nome da nossa instituição: “A SVB está alinhada com o veganismo, mas nosso foco de atuação é a sua dimensão alimentar – conhecida como “vegetarianismo estrito”. Desde sua fundação a SVB refuta o consumo de laticínios e ovos, que na maioria dos casos trazem grande sofrimento aos animais e um considerável impacto ambiental.”

Enquanto algumas comunidades jardiNHeiras se consolidam e expandem, outras nascem, crescem e se oficializam. O publicitário Daniel Dan concilia o trabalho de marketing digital com a futura e próxima criação de uma ecovila vegana. “Iniciei no veganismo em 2006, quando tive acesso à ideologia. Parei de consumir carne em 1994. A ideia de formar uma ecovila vegana nasceu há seis anos, quando comecei a estudar e aprimorar os meus conhecimentos para a formação de uma comunidade rural.”

Em suas pesquisas, Daniel mapeou tudo que deu certo e errado nas ecovilas anteriores.“Cada vez mais percebo que este padrão de vida imposto pela sociedade de consumo causa profundas chagas no planeta, no meio ambiente, nos animais e nas pessoas.A ecovila vegana nada mais é do que uma tentativa de resgatar a verdadeira essência do ser humano, onde o valor de uma pessoa está no ser e não no ter.” É esta a essência de um jardiNHeiro que planta capital de vida.

Há caminhos diferenciados para o mesmo objetivo. Em 2009, a empresária Carolina Del Vecchio Nunes fundou o Sítio Caiuá, em Joanópolis, SP, com objetivos jardiNHeiros. “De início, a pequena horta era de subsistência. Há uns dois anos a produção de orgânicos vem ganhando escala comercial. “Hoje, encaramos a produção como uma forma de viabilizar nossa vida aqui e também partilhar com outros essa riqueza.” Riqueza de capital de vida. “Comercializamos na feira de produtos rurais de Piracaia, em parceria com outro sítio orgânico. Também entregamos para a merenda escolar aqui da cidade. Agora, iniciamos uma parceria com uma fazenda da região.”

Em uma época de efervescência política no Brasil, com aumento de incentivos ao uso uso de agrotóxicos, como tem sido a atuação política dos jardiNHeiros?Guilherme da SVB responde: “Firmamos parcerias pontuais com diversos atores políticos. Um deles é o deputado estadual Roberto Tripoli (PV-SP), que viabilizou a implantação da Merenda Escolar Vegetariana nas escolas da rede pública municipal de São Paulo (quando era vereador). Agora, ele teve a iniciativa de incluir a campanha Segunda Sem Carne na rede de restaurantes populares Bom Prato, beneficiando animais, meio ambiente e a saúde dos usuários. Mais recentemente, às vésperas da campanha eleitoral de 2016, a SVB lançou uma carta-compromisso com os principais pilares que deveriam ser assumidos pelos candidatos, se eleitos. Ao todo, 68 candidatos assinaram a carta, dos quais 17 foram eleitos no primeiro turno.”

Na ecovila a ser fundada, Daniel Dan pretende estruturar um ambiente harmônico entre pessoas e animais, baseado nos princípios da sustentabilidade, respeito ao meio ambiente, permacultura, bioconstruções, PANCS (plantas alimentícias não convencionais) e agroflorestas. “Todo conhecimento adquirido será compartilhado gratuitamente para que outras comunidades veganas sejam formadas a partir deste modelo. Os futuros moradores entendem que, através desta iniciativa, podemos trazer ao mundo formas alternativas para viver em harmonia com o planeta, e não de forma destrutiva como é feito no modelo tradicional de sociedade.”

Mas como conscientizar brasileiros em um país que é o maior produtor e exportador mundial de algumas carnes? Guilherme retoma a explicação: “Embora um segmento da população esteja ligado a esse setor retrógrado da economia – a criação de animais para consumo -, a maior parte dos cidadãos brasileiros tem sensibilidade para o sofrimento animal. Basta ver o número de famílias que têm animais de estimação – que, com cada vez maior frequência, são adotados, e não comprados. O brasileiro médio não concorda com o que acontece na indústria da carne. Nessa lógica, a real dificuldade está em fazê-lo tomar conhecimento sobre o que acontece nessa indústria. Com paciência, persistência e estratégia, o movimento está se multiplicando. E eles estão tomando a decisão da compaixão, do respeito, da sustentabilidade: tirar as carnes e derivados dos seus pratos.”

Conhecer locais jardiNHeiros fortalece a conscientização. Atualmente, no Sítio Caiuá, está em fase experimental o turismo rural. “Já recebemos alguns voluntários do woofing (integrantes de propriedades ecológicas).  Agora,teremos A Rota do Bem Viver”, diz Carolina Del Vecchio, que passa a palavra para a organizadora do evento Nirdoshi Vibhuti: “Essa rota surgiu de uma série de encontros e da vontade de compartilhar com mais pessoas a vivência e o privilégio de estar neste ponto especial da Serra da Mantiqueira que aglutina pessoas notáveis em seus processos artísticos.” Com oito artistas de ateliês do Pico, no máximo 25 pessoas serão recebidas por dia para a realização de trilhas e atividades em harmonia com o lugar. Isso é capital de vida.