João era engraxate. Trabalhava diuturnamente numa rodoviária da cidade. Era um menino pobre, porém esforçado. Um belo dia, João descobriu que, se colocasse água na tinta dos concorrentes, estes realizariam um trabalho menos qualificado e assim perderiam clientes para ele. João era um garoto esperto.

Noutro dia qualquer, um dos colegas engraxates que passava por doença na família contou-lhe seu problema. João, que gostava de ajudar as pessoas e tinha guardado algum dinheiro com o lance da água na tinta, comprou seu espaço e posteriormente o contratou. Repetiu o feito com outros concorrentes diversas vezes. Em pouco tempo, João tornou-se o empregador de todos os engraxates da rodoviária. João era empreendedor.

Com algum dinheiro sobrando, João adquiriu um belo terno e passou a frequentar as festas de um cliente com sobrenome famoso que não tinha grana para pagar bebidas para as garotas, pois sua família estava financeiramente quebrada. João, que se sensibilizara com a situação do cliente, financiou suas baladas em troca de conhecer pessoas importantes. João gostava de se socializar.

Assim João conheceu sua futura esposa Lurdes. Ela não era bonita, era tímida e não tinha amigos. Era filha de um conhecido ex-prefeito da cidade que respondia a vários processos por corrupção, peculato, formação de quadrilha e evasão de divisas. João não se sentia atraído por Lurdes, mas se consternou com seu sorriso fleumático. Ganharia um belo dote de casamento. João, que também gostava de Legião Urbana, amava as pessoas como se não houvesse amanhã.

Vendeu seu pequeno negócio na rodoviária e, junto com o dinheiro do dote e a influência do sogro, montou uma padaria. Logo descobriu que trabalhando dentro da lei era impossível crescer. Ainda mais num governo populista que insistia em proteger as classes menos favorecidas em vez de criar projetos para os empresários que tanto empregavam. Passou a sonegar impostos. João era um estrategista.

Alguns anos se passaram e João se tornou um grande empresário. Tinha uma rede de padarias. Tinha padarias em todo o país. Entretanto, o governo comunista descobrira seu plano e então começaram os processos por sonegação de impostos. João teve a brilhante ideia de patrocinar juízes e promotores recém-empossados e que, devido ao fato de serem jovens e estarem iniciando sua carreira, não possuíam quase nenhum dinheiro. Em troca, estes protelariam seus processos na justiça. João se importava com as pessoas que, como ele, davam duro.

Mais alguns anos, João descobriu que, se financiasse a campanha de deputados, senadores, prefeitos e governadores, estes poderiam ajudá-lo a dificultar a vida dos concorrentes perante os órgãos públicos e, por consequência, poderia levá-los à falência e comprar seus negócios por uma bagatela. Algo parecido com o que fizera com os antigos companheiros de rodoviária. Dessa vez, dando-lhes um pequeno empurrão. João era um visionário.

20 anos depois, João abandonou Lurdes para se casar com uma modelo. Comprou o terreno da rodoviária do município com uma ajudinha dos políticos e juízes que sempre ajudara no intuito de construir um Shopping Center . Queria diversificar os negócios. Infelizmente precisara desempregar vários engraxates que ali trabalhavam, bem como vários outros pequenos comerciantes “Não se faz uma omelete sem quebrar ovos, não é mesmo?” – dizia João com um sorriso branco estampado nos dentes clareados a laser. João era um ótimo aforista.        

Beirando os 55 anos, sentado à margem da piscina de sua mansão em Jurerê Internacional, quando entrevistado por uma repórter local sobre a sua impressionante vida, arguido sobre sua genialidade com os negócios, sobre sua inclinação à filantropia e ainda ter tempo para sua família perfeita, João respondeu:

– Meritocracia, minha querida. E muito Deus no coração.

João era um fanfarrão.