Chegando a um evento pra tocar. Eu e minha banda. Era um seminário de gente inteligente, descolada, ou aparentemente inteligente. Pessoas ricas que demonstram outra condição econômica e se denominam de esquerda, até mais ou menos os 30 anos de idade. Depois dessa fase, normalmente se ajeitam na vida e tornam-se bastante reacionários. Enfim, era um grupo assim. Cheguei com minha banda para passar o som, horas antes da apresentação, como é de praxe. Veio uma moça bem educada e nos mostrou o local onde a banda tocaria. Era onde neste momento acontecia uma palestra. Então tínhamos que esperar a palestra acabar. E ficamos por ali de ouvintes. Como era o mês da consciência negra, o tema em questão era o empoderamento do povo negro e o combate ao racismo. O debate seguia frenético. Era só intervenção inteligente, com o uso de palavras difíceis. Com palavra de ordem contra a ordem. O debate tava pegando fogo.

Em um determinado momento apareceram dois meninos negros vendendo balas naquele auditório, dentro da universidade. Não sei como eles entraram ali. Mas, assim que notados, todos ficaram em silêncio. A vida real tinha invadido o cenário teatral da palestra. A tese do combate ao racismo foi reprovada pela banca da vida real.

“Oi! Como vocês entraram aqui? Isto é uma palestra. Vocês não podem ficar.” Um dos garotos olhou para o moço com o microfone na mão e disse: “Três por dois. Vai querer, moço?” Foi um longo período de silêncio. Até que a moça educada veio falar com eles. Comprou as balas, agradeceu, pegou a bolsa e saiu do auditório. Depois disso o seminário não teve mais clima. Subi ao palco com a banda e a música de abertura, por coincidência, era “A Novidade”, dos Paralamas, cujo refrão é assim: “Ô mundo tão desigual, tudo é tão desigual. De um lado esse carnaval, de outro a fome total…”.

Fui para meu segundo show do dia. Um barzinho muito legal aqui em Belo Horizonte. Desses lugares em que a entrada é muito cara. Eu mesmo só entro como músico. Eu não  tenho nem dinheiro para entrar como um consumidor. O lugar estava cheio. É final de ano. Festas das empresas. Amigos secretos. Presentes pra lá e pra cá. Também num sei como um moço negro entrou no lugar. Ele estava mal vestido. Entrou e avisou que um carro estava aberto. Acho que foi algum descuido da segurança. Nesses lugares, pedem até seu DNA para você entrar. Tipo sanguíneo e tudo mais. Foi também um espanto. As pessoas acharam que ele iria assaltar o lugar. Coitado do moço, só queria ajudar. Ele pediu algo para comer e beber. Seu pedido foi aceito. Ele tinha ajudado alguém avisando sobre o carro. Também chamei para cantar uma comigo. Dessa vez foi a música do Rappa: Todo Camburão tem pouco de Navio Negreiro. E o moço mandava bem. Ele empolgou a música, que durou quase oito minutos.  Ele ficou com a gente até o final do show. Contou um pouco da sua vida. Não é diferente da grande maioria. Estava desempregado. Era uma correria. Nunca fez mal pra ninguém. Sofria discriminação no dia a dia da grande metrópole. Estava em um momento difícil para sobreviver. Sabia que a vida era dura pra ele. Nos despedimos e desejamos boa sorte na sua caminhada. Eu ainda tinha um show em uma escola pública no dia seguinte. Logo pela manhã.

Amanheceu em Beagá. E já estávamos mais uma vez na estrada, prontos pra tocar. Em um cenário completamente diferente. Primeiro, porque era de manhã. Geralmente, tocamos à noite. Segundo, porque a meninada não estava habituada a escutar rock. Muito menos rock nacional como Paralamas, Legião, Cazuza, Engenheiros, Ira, Plebe Rude, dentre outras bandas. E a banda tem como ideologia deixar o palco livre para as pessoas. Quem quiser cantar com a gente é só chegar. Fiquei sabendo que um garoto queria cantar. E que ele gostava da Legião e dos Engenheiros do Havaí.

Mas alguma coisa aconteceu. Reparei que o menino estava triste. Não estava mais a fim de cantar. Alguma coisa estava angustiando aquele garoto. Depois o diretor da escola contou o que estava acontecendo. O garoto estava cometendo pequenos furtos na escola. Descobriram que era ele, justamente naquela semana do show. Logo ele. Sempre tão bom aluno. E o diretor disse que ele queria trocar uma ideia comigo. Claro. Coloquei-me à disposição na hora. O garoto veio até sorridente. Dizendo que queria ser como eu. Fiquei superfeliz. Ele disse que queria tocar e cantar como eu. E disse que me viu tocar na televisão.

Nosso papo continuou. Confessou-me que era ele mesmo que estava roubando a escola. Uma lágrima rolou na face. Fiquei meio sem saber o que fazer. O que dizer nessa hora? Aí eu perguntei por que ele começou a fazer isso. Ele disse que era porque queria ver a mãe. Ver a mãe? Não entendi. E ele afirmou que queria ver a mãe. Então ele esclareceu que a mãe estava presa. Imediatamente, chamei o diretor e contei a história. Ele disse que iria averiguar a história do aluno e que tomaria todas as medidas possíveis pra ajudar o garoto. Então chamamos o garoto e o tranquilizamos. E pela primeira vez desde que chegamos na escola, ele sorriu. E foi um sorriso leve. Por fim , ele me fez um pedido: Queria um Big Mac. Mesmo não gostando da  lanchonete fast food , eu atendi ao pedido. Afinal de contas , a gente faz de conta que dá conta.