Janet Frame foi sem dúvida uma das mais importantes representantes da narrativa de seu país natal, Nova Zelândia. Sua obra obteve fama internacional a partir de um filme da também neozelandeza Jane Campion, baseado nas novelas autobiográficas daquela escritora, que foi acolhido pelo público do Festival de Veneza de 1990 com grande entusiasmo, além de ter recebido o prêmio especial do júri deste Festival.

 Para alguns leitores, a Nova Zelândia já existia no mapa da literatura por um dos pilares da modernidade literária: Katherine Mansfield Beauchamp. Sem dúvida, entre o navio em que a família Beauchamp zarpou de Londres rumo à nova Zelândia em 1906, depois de uma temporada no continente, e esse mesmo navio que em 1964 levou Frame de volta à sua pátria seguindo a mesma rota, não se interpõe só a distância entre o modernismo e a literatura contemporânea, mas também a que separa as trajetórias sociais, pessoais e literárias destas duas escritoras.

A distância entre as duas é também o abismo que existe entre a filha de um banqueiro (Mansfield) e a de um empregado de ferrovia (Frame). Como nos conta a própria Frame em sua autobiografia, a relação entre a família Beauchamps e a Frame se limitou ao ofício de doméstica desempenhado pela mãe de Frame em casa da avó de Mansfield.

Mansfield abandonaria seu país natal em 1908 para nunca mais voltar. Vitimada por uma doença pulmonar, faleceu muito jovem. Outra enfermidade, muito diferente, alimentou a obra de Frame durante longos anos.

Em vez de nos estendermos nas diferenças entre as duas escritoras, talvez seja melhor retroceder no tempo, até a “Mansão do desespero” descrita pela predecessora comum das escritoras ocidentais, Mary Wollstonecraft, em sua novela póstuma “Maria or the wrongs of the women”. Neste romance a autora descreve a miséria e a opressão peculiar em que as mulheres viviam e que se originava dos costumes e das leis da sociedade. A heroína, Maria, foi forçada por seu marido a ir para um manicômio, pois este queria controlar sua fortuna e se divertir em aventuras sexuais. Para Maria, a “Mansão do desespero” em que foi obrigada a viver tornou-se um símbolo das instituições criadas pelo poder masculino. Maria, no entanto, não encontrou nenhuma razão para lutar por sua sanidade ou sua liberdade: “Não era afinal o mundo uma grande prisão onde as mulheres nascem escravas?”

Para Frame, segundo nos conta em sua autobiografia, a saída da “mansão”, que em seu caso também eram as instituições psiquiátricas onde esteve durante oito anos e onde levou 250 eletrochoques, se deu graças à palavra, instrumento que abriu as portas para a escritora.

Em seus livros, não há apenas protesto pessoal, mas também social. Não existe somente o desejo de abrir uma a uma as portas do ego, mas também a denúncia explícita de uma situação opressiva.

O resultado é uma obra-prima do que Moers denomina gótico feminino. Nos anos 60, esta linha produziu outros romances importantes como “The Bell Jar”, da poetisa norte-americana Silvia Plath. Curiosamente, Plath, que também sofreu a experiência do internamento e dos eletrochoques, escreveu em Londres o romance que apareceu postumamente depois de algumas semanas de seu suicídio naquela cidade. Também Frame escreveu em Londres “Faces in the water”, seu segundo romance, ainda de cunho autobiográfico, em que narra sua trajetória através das instituições psiquiátricas.

Ao contrário de Plath, para Frame, a estada de sete anos em Londres significou um feliz ponto final ao erro médico que a qualificava como esquizofrênica e que a manteve durante tantos anos internada.

Plath elegeu o Ariel shakespeareano de “A Tempestade” para um de seus melhores volumes de poesia, publicados também postumamente. Frame, uma shakesperiana confessa, faria suas as palavras de Próspero: “Para mim, pobre, minha biblioteca é um ducado suficientemente grande”.

“An Angel at my table” pode ser considerada como uma das novelas autobiográficas mais originais do século XX. Neste livro, não há sensacionalismo nem rancor pela família por exemplo, mesmo pela trágica experiência de anos de internamento. As situações são tratadas com humor, ironia e afirmação.

Há sem dúvida denúncia, por exemplo, da misoginia inerente à relação que, costumeiramente, a sociedade faz entre as mulheres e a loucura.

Assim, com relação à epilepsia do irmão descrita no livro, a mãe declara que nunca permitirá que encerrem seu filho em um estabelecimento psiquiátrico, enquanto autoriza não só o internamento de Frame, mas também uma lobotomia. Desta operação a escritora é salva por sua literatura, pois ela já havia publicado seu primeiro romance e ganhado um prêmio literário. Se não fosse este prêmio, esta inquietante escritora teria perdido sua vocação literária, e o mundo uma de suas melhores penas.

 Creio que a força dos escritos de Frame, sua ironia sempre presente, a tornam, junto com Plath, uma das artífices que escavaram uma porta de saída da mansão do desespero de Wollstonecraft, na qual com tanta frequência se têm encerrado mulheres e escritoras.

    

[1]  Frame, Janet. Un Ángel en mi mesa. Barcelona:Seix  Barral,1991. Trad.Ana M.de la Fuente.