Há tempos venho pensando neste binômio. Primeiramente, reflitamos sobre a liberdade de expressão. John Locke, pensador-base para o liberalismo, é um dos grandes precursores de tal noção. Para ele, a liberdade de expressão é o alicerce do Estado Democrático de Direito.

É óbvio que ninguém a favor da censura deve ser levado a sério intelectualmente. Contudo, não basta simplesmente dizer que é preciso defender a liberdade de expressão. Este é um caminho fácil, que não requer raciocínios mais sofisticadas. Duas perguntas fulcrais: devemos sustentar a qualquer custo a liberdade de se expressar? Quando falamos em liberdade de expressão, na verdade, estamos falando em liberdade de quem?

Sobre a primeira pergunta. O caso das manifestações neonazistas nos USA nos traz uma ilustração válida. Deve-se resguardar o direito de expressão, mesmo quando se trata de uma ideologia de morte? Deve-se amparar o direito daqueles que fazem, na mídia, apologia a manifestações deste gênero?

Para a nossa reflexão, não precisamos de casos extremados: um comunicador tem o direito de, por exemplo, fazer piadas sobre homossexuais e mulheres em TV aberta? Ah, dirão os defensores da liberdade, a própria audiência o puniria; as pessoas cessariam de assistir ao programa deste hipotético apresentador e ele, por uma lei de mercado, cairia no ostracismo. Os que defendem tal liberdade, em verdade, apoiam-se em dois substratos metafísicos, a saber, no sujeito puro do conhecimento (acreditam que todos os telespectadores têm condições de se defender intelectualmente e que o ser humano está isento de manipulação) e na linguagem neutra, como veículo do ser e da verdade.

Sobre a segunda pergunta. Não é preciso muita inteligência para perceber que não há liberdade de expressão para as minorias (negros, indígenas, mulheres, comunidade LGBT etc.) na mesma medida em que há para os homens brancos heterossexuais. Quem detém o “lugar de fala” (sobretudo nos meios de comunicação de massa) e, por conseguinte, constrói o imaginário social não são os primeiros. Quando vemos uma lésbica, por exemplo, num programa televiso, trata-se de uma exceção, de algo a ser comemorado como uma “abertura de espaço”. É como se dissessem: “Olha, deixamos você falar, então você nos deve um favor!”

Eis que entramos na questão do “politicamente correto”. Ultimamente, tem-se usado esta fórmula para disseminação de ódio e discriminação. O próprio Locke, defensor da liberdade de expressão, apresenta em seu livro um discurso de ódio contra os que negam a existência de Deus. Outro dia ouvi um colega professor dizendo: “Não se pode mais fazer piada em sala de aula. Esse politicamente correto é uma merda”. Quem conhece tal professor sabe bem as piadas que ele fazia envolvendo homossexuais e mulheres. Metonimicamente, podemos refletir que, quando se fala em “politicamente correto”, na verdade, tem-se em mente o oposto. Afinal, ser politicamente correto, levando em consideração quem detém o “lugar de fala” no Brasil é ser politicamente incorreto; é agir de maneira contrária ao modo de pensar imposto pela ideologia dominante e excludente.