Naquela ensolarada tarde dominical reuniam-se no bar de sempre três amigos de longa data: Fulano, Sicrano e Beltrana.

Suas convicções convergiam. Assim não fosse, os anos de convescostes urbanos teriam sido árduos. Afinal, Fulano não era um sujeito de diálogo fácil. Tampouco o eram Sicrano e Beltrana. Convictos e magnânimos, defendiam seus posicionamentos com paixão.

Também contavam com a moderação do provedor de comes e bebes: Luís, o garçom.

Experiente e sabiamente isento, havia desenvolvido admirável habilidade para acalmar ânimos e reconciliar seus clientes inebriados. Orgulhava-se por ter impedido qualquer ímpeto de cusparada violenta desde a origem. Ali jamais havia acontecido uma saliva que não tivesse se restringido aos copos.

As pautas daquele domingo estavam especialmente inflamadas. Muito acontecia e havia muito por acontecer, exaltando os ânimos e as falas. Acontecia, sobretudo, o Absurdo: hipocrisia, impunidade, golpe político-midiático, apologia da ditadura, amantes parlamentares, nudez.

 Com os primeiros absurdos nossas memórias já haviam tristemente se acostumado. Feriam, de maneira suportável. Já a nudez de mau gosto, bem, isso parecia demais para qualquer pobre mente.

E foi assim que Fulano, confuso, não segurou sua própria onda:

– Vocês viram que coisa ridícula aquela… Me esqueci do nome.  Enfim, aquela vagabunda que posou nua diante do Congresso? Quero dizer, não sei se era o Congresso… Ah, era um daqueles prédios lá de Brasília. Que absurdo! esbravejou.

– O mundo está mesmo perdido, Fulano… lamentou Beltrana.

– Eu não queria dizer nada, até porque não sou preconceituoso, mas que cabelo ruim aquele da moça, hein? Aposto que passa Alisabel, julgou Sicrano.

– Olha, Sicrano, o senso estético só não é pior do que as amantes dos deputados que votaram pelo impeachment. Eu sei que todos eles que ridiculamente votaram pela família têm amantes. Ouvi dizer que sim. Certeza absoluta. Amantes… amantes…  Que coisa feia!

– É o fim do mundo! – exclama Beltrana, afastando de imediato a ideia tão incômoda.

A conversa se interrompe bruscamente. Fulano anuncia o inevitável: precisava ir ao banheiro.

Sua ida – um alívio temporário para Sicrano e Beltrana-  permitiu que rapidamente e quase simultaneamente comentassem:

– Afe, achei um pouco machista o comentário sobre a esposa do Ministro que posou nua. Sabe, eu concordei, mas…

Fulano retorna.

 O corpo é capaz de ofender qualquer compromisso, por mais importante que seja. Atrapalhando novamente a discussão chegou, enfim, a vez de Sicrano entregar-se às próprias necessidades.

Mais uma oportunidade deu-se para os que ficaram:

– Afe, Beltrana, não achou um pouco preconceituoso o comentário do Sicrano sobre os cabelos da moça?

Beltrana balança a cabeça levemente, em incômoda concordância.

Sicrano retorna.

Por um breve momento reuniram-se, novamente, os três amigos.  E todos concordaram com todas as afirmações expostas, bem como concordaram secretamente que todos os outros estavam sendo injustos, menos eles mesmos.

Mas toda discussão que se preze precisa de um último ato. E assim Fulano, vaidoso, não foi capaz de evitar seu gran finale:

– Sabe qual é o grande problema? Não se deve misturar feminismo com política. Uma coisa é uma coisa, a outra coisa é outra coisa. Digo mais: a política é um lugar essencialmente masculino. Nada contra as mulheres, pelo contrário: sendo elas superiores, não deveriam se meter nesse covil.

Abandonando a sutileza, Beltrana se enfurece. O enrubescer de suas bochechas anunciava que desta vez quem não seguraria a onda seria ela. Em tom mais alto do que o aceitável, anunciou:

– Vai se foder, Fulano! Aliás, vai se foder você e você também, Sicrano! Estou há horas, ou melhor, estou há anos ouvindo essas porcarias e tentando me conformar só pra não atrapalhar na descida da cerveja. Agora chega!

Luís, o garçom isento, temendo uma cusparada, aproxima-se da mesa. Pediu cordialmente para que os amigos não brigassem. Chegou mesmo a discorrer por breves três minutos e meio sobre a importância da amizade e da paz acima de qualquer coisa.

– Não há razão para histeria, Beltrana – afirmou Luís, ansioso pela concórdia universal.

Tarde demais. Beltrana já não mais era capaz de trair suas sensações. Fora agredida e menosprezada desde onde sua memória alcançava. O basta estava consumado. E assim, sem muito elaborar o que era remoído havia anos, pausadamente pronunciou:

– Vã-o-à-mer-da-to-dos-vocês-se-us-MA-CHIS-TAS-hi-pó-cri-tas!

Naquele momento, algo inaceitável arrebatou Fulano, Sicrano e Luís, o isento. Pois acima de qualquer coisa, ser acusado de machismo era inconcebível. Mais inconcebível do que a prática. E assim, sem qualquer controle ou plano prévio, bradaram juntos, sonoramente:

– MACHISTA É TUA MÃE, AQUELA…

 Foi assim que Beltrana, pela primeira vez em sua existência, se respeitou. Partindo de sua mais genuína essência, permitiu que a coisa tomasse forma e:

– Puffffffft!

Enfim, para horror geral, cuspiu-se.

Fim.