Conta a lenda, e o futebol é cheio de lendas, que teria sido Mané Garrincha que inventou o fair play.  A história que se espalhou pelo imaginário futebolístico conta que, em um determinado jogo, não sei se da seleção brasileira ou do Botafogo, quando um jogador adversário despencou no chão machucado, Garrincha teria inventado o nobre gesto de jogar a bola para fora, para que assim o oponente contundido pudesse receber os devidos cuidados médicos. Não sei se esta história é verdadeira, mas sei que são muitas as histórias envolvendo a gentileza da figura de Garrincha.

Além do seu famoso lado mulherengo, Garrincha era extremamente atencioso com as crianças, adorava animais e muito afetuoso com os amigos. De certa forma, ele era a personificação de seu apelido, um indivíduo com a alma de passarinho. Uma figura doce, delicada, sensível, incapaz de brigar com alguém e dono de uma ingenuidade quase infantil. Pelo menos esta é a versão que é contada e recontada quando cronistas, jornalistas e torcedores querem se referir a Garrincha. Mas, como disse no início, o futebol é cheio de lendas.

De qualquer maneira, a imagem que paira na lembrança da maioria dos torcedores sobre Garrincha foge pouco da que descrevi. A despeito de sua biografia trágica e seus problemas com o alcoolismo, é raro encontrar alguém capaz de odiar ou criticar severamente Garrincha. Na maioria das vezes que alguém se refere a ele, sempre é ressaltada a sua ingenuidade e a alegria de seu futebol, que traduzia a sua própria alegria em jogar e que de certa forma parecia materializar um ideal utópico de alegria brasileira. Quando víamos Mané jogar, todos ficávamos felizes. Nelson Rodrigues disse certa vez que, se todos nós fossemos como Garrincha, o Brasil seria a maior potência do mundo. Gosto de pensar assim também.

Se esta admiração pelo Mané ainda existe muito forte por aí, por que nos últimos anos nós brasileiros temos odiado tanto? Hoje é comum ver pessoas comemorando a morte de alguém, celebrando a doença grave de outrem, apoiando a perda de direitos básicos das populações mais pobres ou idolatrando imbecis fascistoides. O que acontece conosco?

Vivemos uma imensa contradição, temos em nossa memória o afeto e a admiração quase unânimes por uma figura como a de Garrincha, mas, por outro lado, escorre de nossas bocas uma baba bovina de ódio de maneira quase tão natural quanto respiramos. Não quero defender que devamos nos tornar um país de Polianas ou a terra de amor dos ursinhos carinhosos, mas será que não poderíamos nos odiar menos e nos respeitar um pouquinho mais?

Se é verdade ou não que Garrincha inventou o fair play, pouco importa. O que importa é que nós o idolatramos, não só por conta de seu futebol extraordinário, mas também por conta de sua imagem alegre, ingênua e afetuosa, portanto, será que não dá para sermos um pouco mais coerentes e nos espelharmos um pouquinho mais no exemplo de esportividade e gentileza do Mestre Mané?

É preciso parar de nos comportamos como volantes brucutus uns com os outros, dando carrinhos por trás e voadoras nos joelhos alheios, e sermos um pouquinho mais como o doce anjo das pernas tortas. Pois não adianta nada admirar o Garrincha, se no fundo você se comporta em sociedade como um zagueiro de roça.

Se você gosta tanto de futebol, não seja um hipócrita e não desrespeite a imagem deste Mané que tanto amamos, vomitando intolerância por aí. Seja feliz e liberte o Garrincha que certamente existe escondido dentro de você. Este pode ser um caminho para tempos mais pacíficos.

Mais Garrincha, por favor!