Ainda creio que as redes sociais são ferramentas cruciais na onda de mudanças astrologicamente chamada de Era de Aquário, na qual todos viverão lindos e unidos e em paz e harmonia até o fim dos tempos. Sim, sou otimista/trouxa.

O Facebook virou um caldeirão de lutas, expressões de arte, denúncias, comemorações e reflexões. Vivendo num mundo virtual coletivo onde todas as opiniões contam, acordamos para o que realmente se passa nas mentes de pessoas de diversas gerações, e percebemos que não é bonito. O que trinta anos atrás parecia ser uma era de gente bonita, elegante, sincera, com habilidade pra dizer mais sim do que não, hoje tem o gosto de uma volta à Idade Média, em que se comemora a violência e barbárie contra quem não compartilha dos mesmos ideais. Foi em 2016 que percebi que o machismo, o racismo, a homofobia e tantas manifestações patológicas de ódio parecem ser tão fortes hoje quanto eram em 1602. E continuo esperançosa de que esse caldeirão está fervendo para que a mudança verdadeira ocorra: para que as lutas forcem as pessoas a despertar para seus próprios preconceitos e façam um esforço legítimo para mudar seus conceitos.

Recentemente, no entanto, tenho percebido que os grupos que tanto admiro, que os militantes e ativistas com quem compartilho ideais e ideias, têm se assemelhado aos seus opressores em ritmo exponencial. Não estou falando aqui da agressividade no discurso de grupos oprimidos, porque acho que ela é necessária. Estou me referindo a julgamentos ferrenhos, dignos do Malleus Maleficarum, contra irmãos de luta, contra indivíduos bem-intencionados e basicamente qualquer um cuja vida se tornou pública devido à sua fama ou à transparência das redes sociais.

Eu fico me perguntando quando minha vez vai chegar. Eu erro muito, mesmo que bem-intencionada, no meu discurso. Às vezes porque, no momento em que faço um desabafo matinal no Facebook, já estou acordada há horas, já cuidei das crianças, estou segurando o bebê num braço dolorido há oito meses, estou preocupada com as contas, com a pilha de e-mails não respondidos, com trabalho, com a casa, com amigos, com parentes… e escolho mal as palavras. Depois de um Tweet bem escroto, Stephen King disse: “As pessoas acham que nós, escritores, temos sempre a palavra certa para o momento certo. Não temos.” E é verdade. Eu como escritora só presto mesmo para fazer ficção, porque meus textos fora dos mundos que crio não são tão bons. E relaxem, admito isso bem tranquila e resignada. Eu realmente só gosto de escrever ficção.

Então fico me perguntando: quando vou escrever algo errado? Algo que sem querer ofenda alguém? Ou algo que não se encaixe linearmente no pensamento politicamente correto, sem um “x” no final de uma palavra para englobar ambos os gêneros? E se escrever “ambos os gêneros” já seja errado porque talvez as pessoas não considerem mais feminino e masculino como os únicos gêneros possíveis? Quando vou errar e ser compartilhada e ver meu post besta viralizar, denunciando-me como insensível, preconceituosa, alienada, entre outros? Anunciando assim, talvez, o fim de uma carreira que mal começou e à qual me dediquei por décadas?

Obviamente não estou falando sobre passar a mão na cabeça de pessoas que fazem discurso de ódio: que isso fique claro. Só estou falando que às vezes todos nós erramos, e que, para pessoas que não nasceram praticamente dentro do discurso perfeito, a criação ocasionalmente fala mais alto do que o bom senso, e que alguns de nós estamos tão ocupados e exaustos que somos passíveis de erros, que no final do dia só queremos que um erro não anule milhares de dias de luta. Sei que o tom “mimimi” da frase a seguir vai gerar uma onda de ódio por mim, mas aqui está: quando chegar minha vez, serei perdoada?

Estou falando tudo isso porque vejo pouca empatia onde ela é muito usada como bandeira. Quem não ficou puto com Morgan Freeman com o notório discurso “para acabar o racismo é preciso parar de falar nele?” Alguém aqui viu o resto da entrevista? Tenho a nítida impressão de que Freeman se deu conta da merda que falou dois segundos após dizê-la. Tenho a certeza de que seu discurso foi bem-intencionado, mas que sim, ele errou. E sei que alguém vai me dizer que de boas intenções o inferno está cheio. OK, entendo. Só boas intenções não vão nos levar a lugar algum, não vão mudar a merda na qual estamos atolados. Sim, entendo mesmo. Mas só usei o exemplo acima porque sabemos que Morgan Freeman não é racista. Ele errou. Mas uma cagada hoje é o suficiente. Não damos segundas chances. Somos os embaixadores da empatia, mas não damos segundas chances. Assim como não vamos dar para Fernanda Torres porque ela falou merda sobre o feminismo, assim como não vamos dar para Bel Pesce porque ela não é exatamente o que diz ser (qual de nós é?), assim como não vamos dar para a fulana desconhecida X porque ontem ela disse que o inbox dela está aberto para desabafos no setembro amarelo. Aquela mesma desgraçada que não sabe que TODO mês é mês de prevenção ao suicídio, aquela desgraçada que não sabe que o lugar certo para desabafos é com o CVV ou com um PROFISSIONAL DA ÁREA e não com um amigo, caralho!

Não estou falando sobre perdoar um ator queridinho que agrediu uma mulher. Estou falando sobre usar empatia como prática, não arma de discurso. Sobre colocar em prática aquele lugar-comum de que todos erramos, e apenas juntos podemos aprender. Sobre entender que ser juiz hoje pode ser bom, mas que amanhã o julgado será você, e o tribunal do Facebook é implacável. Discursos de ódio e incitação à violência não devem passar, concordo totalmente com isso. Mas não é disso, repito, que estou falando. Não estou falando sobre um babaca como Biel. Estou falando que me sinto no direito de me orgulhar de dar conta de trabalho e três filhos sem ser acusada de “romantizar o empreendedorismo materno”, que quero poder comemorar minhas difíceis conquistas sem ser acusada de “viver uma vida artificial no Facebook onde todos são felizes”. Porra, é claro que entre uma foto sorridente e outra eu me estresso e choro e quero desistir. Mas faço questão de partilhar com meus amigos os sorrisos, porque cada um deles é uma vitória. Quero poder debater sem que minhas reflexões sejam tiradas de contexto e usadas contra mim. Quero poder contribuir com o discurso, com os questionamentos, sabendo que posso mudar de opinião a qualquer momento. E a cada dia sinto um receio crescente de me expressar e ser mal interpretada. Porque a empatia e o perdão são conceitos ainda. São palavras vazias que usamos para acusar, não para acolher. Porque na mão estendida onde um “não passarão” está escrito em tinta vermelha, não são apenas os preconceituosos e fascistas e canalhas que são excluídos do diálogo, e sim qualquer um que ousou se expressar e não escolheu as palavras certas. Vamos aprender quando a acolher o colega que errou e admitiu seus erros? Vamos aprender quando que empatia, se não praticada, é apenas mais uma palavra oca e usada em demasia?