Antropoceno. Pós-verdade. Prisão colorida do excesso de escolhas. A trincha lambuzada de senso comum borra o contorno de lábios desavisados com nuances autorizadas de liberdade. A necessidade de autorização social descria nossa humanidade, rouba nossas naturezas e mais que isso: toma posse do ilimitado de nossas criatividades. Seremos tão perigosos sem cópias, indiferenças e dependências?

A liberdade idealizada é um pacto romântico com a ilusão. E como vende bem essa alucinação pendular que roça com a língua o canto da boca da lucidez, corre e mordisca a nuca do ego, beija a pálpebra da esperança, promete o gozo geral, mas trai a todos com a economia…

O shopping obrigatório. O amigo secreto obrigatório. A sociabilidade obrigatória. A ceia obrigatória. O crediário obrigatório, da medida exata da vergonha de presentear apenas com sua presença, uma flor, um fruto colhido em casa… O medo de não ser aceito. A cobrança pesada apoiada na obrigação banalizada… Não importa se o natal faz sentido. Não importa se você crê ou não crê. Não importa se é só comércio. Fingimos tão bem… Mas quem se obriga a deter este manicômio consumista?

O trânsito, a correria nas ruas, as lojas lotadas, os cantos das bocas pesando por toda parte enquanto toneladas de lixo são produzidas em nome da paz, do amor, da solidariedade, do aniversário do tal subversivo da simplicidade e do desapego, apropriado como mártir. Sacrifique-se como ele! Mas jamais seja um contestador como ele. Seja um constatador, e basta! Compre! Compre! Deixe essa chatice de consciência pra lá e produza seus resíduos para reciclagem! Seja sociável, sim? Pare de questionar!

Nunca, em toda a história planetária, uma espécie marcou sua presença com tamanha destruição em nome do bem-estar. Nunca houve tamanha dispersão de resíduos e nossa inconsequência jamais atingiu tantas formas de vida. Nunca houve tamanha degradação. Nem isto foi tão irreversível. Contaminamos não apenas o solo, o subsolo, as águas, o ar, mas o futuro. Haverá tempo em que nossos descendentes não terão contato com paisagens intocadas, sons naturais e desconhecerão outras espécies livres… Nós somos o passivo! Nós somos os racionais! Nós somos o capEtalismo que não existe sem nosso endosso, sem nossos hábitos de consumo. Sem nossas obediências e natais.

Abduzidos pelo vício irrestrito em confortos materiais — tendões elétricos, imagino repetir aos urros até ser jogado num quarto branco: – São confortos irracionais! São confortos irracionais! –, não conseguimos delimitar nossas prioridades e ações no mundo, sem o risco de negarmos a nós mesmos e a natureza que sustenta nossa evolução e a de tantas espécies. Aceitamos viver em aquários, sonhando com o oceano; apostamos nossas curtas vidas em perímetros conhecidos, desertos de dependência, corações apequenados e cardumes separados. Não devemos ser quem somos. Não podemos o que podemos, porque nos desconhecemos. Não sabemos. Não ousamos. Então, pagamos.

Escravidão. Obrigação. Culpa. Endividamento. Endividamento para saldar endividamento… Armadilhas reluzentes de crédito dissimuladas de satisfação e a incompletude furando a alma por dentro… O homem é o grande predador, a grande vítima, o grande refém. Quisera, fosse apenas pelos danos à própria espécie… Desequilíbrio em nome de conforto, você compreende isto como razão?

Penduramos luzinhas nas fachadas de nossas casas, cortamos árvores vivas e erigimos árvores de plástico, presenteamos com inutilidades, sempre consagrados por uma inteligência tão afeita à hipocrisia que diplomatiza valores humanos enquanto o moedor de carnes do mercado escraviza, adoece, humilha o próprio homem e o remunera de prazeres mixos e salários nanicos para que destrua o meio ambiente sorrindo sua paz doméstica de poliéster e espuma. Eis a democracia que ordena ajuda humanitária para as próprias guerras que cria enquanto o cidadão comum, o alheio de olhos cerzidos a tevês por assinatura, vê que a farsa gira. Mas quem se importa? Perdemos a referência do chão, do óbvio. Sem cima ou baixo do labirinto, náusea após náusea, mentimos: “- É assim mesmo”.

– Não desligue. Sua opinião é muito importante para nós!

Sacrificamos nossos mais doces princípios. Abandonamos as mais sagradas importâncias. Negamos as mais ternas bases de nossas consciências. Muitos assassinam suas vocações, destripam amores, torturam íntimos anseios, mas todos guardam a cidadela dos confortos materiais conquistados com a própria vida. Mais que direitos, somos apegados a privilégios. Aprendemos privilégios… Despejamos a vida pelo ralo em nome do vício no artifício e na aceitação social, a saber: a negação sincopada de essências, simplicidades e naturezas, quaisquer que sejam, como medida de estatura social alheia ao direito coletivo. Porque alguém nos ensinou que o privado é melhor que o coletivo… Nós, os que podemos, que somos parte da orgia dos privilegiados, vamos à ceia. O resto, que pena…

A perda de privilégios — sejam prazeres, normalidades, patrimônios, seguranças, garantias institucionais, contratos, nossa vidinha de medos –, decalca a sombra do fio da guilhotina em nossas goelas. Calamos pelo que acreditamos que temos a perder. Calamos para não sermos esfaqueados pela rejeição. Calamos porque é ilegal alinharmos o que sentimos, pensamos e fazemos. Calamos porque é preciso louvar o mercado da escassez para que não trema em nossos brônquios o pavor da escassez. Calamos porque temos ilusões e ambições de sobra em estoque, e vivemos de trocá-las entre nós a preços pífios. Calamos por medo de não pertencermos. Não pertencermos ao quê?

Um brinde! Vamos, erga sua taça, mesmo que não saiba o porquê. Mesmo que seja capaz de olhar ao redor e ver que temos coisas melhores a celebrar.

Pós-modernidades, em contraponto à medula medieval dos podres poderes, inoculam lenta e didaticamente em nossas veias a ilusão de que vivemos tempos de paz em um mercado de liberdades. Paz, onde? Liberdade, em que loja? Neste mundo em que as pessoas ingerem imunidade à realidade entre pílulas, tédio e entretenimento? Neste mundo em que é preciso garimpar cantos de silêncio e horizontes sem logomarcas? Neste mundo em que os otimistas odeiam os lúcidos e os tratam como não tratam os donos das guerras?

Nossas bússolas estão imantadas de mídia! Os mapas foram rasurados! Tiraram o leme de nossas mãos. Nossas escolhas são circuitos fechados. Enquanto o comunicador entoa a voz como quem toca gado, você não vê que este não é seu rumo, como não é o rumo da maioria que faz o que faz, sem estar presente ao que faz? Não vê?… Não vê, mas segue. Não vê, mas paga. Não vê, mas põe a mesa e obriga os filhos à ceia… Parece um labirinto, você geme que está perdido… Estamos tão distraídos que nos perdemos em caminhos que mal nos lembramos de ter pisado ontem, há um mês, há um ano, a vida toda.

Latitudes econômicas reduzindo coordenadas de amor e respeito à vida a cacos. Conquistamos? Fomos conquistados? Somos cidadãos de repúblicas fakes ou são nossas despesas e narcoses de participação nos rumos institucionais que inutilizam nossas energias?

Enquanto a psicopatia corporativa lambe os beiços, saciada com nossos endossos mal gozados às dinâmicas republicanas mais fajutas, comemoramos cada centímetro de distância dos conflitos, desigualdades e ilegalidades que garantem o livre – pero no mucho – mercado aqui na rua de casa… Foda-se o incêndio na favela. Foda-se a floresta terraplanada. Foda-se a água contaminada. Foda-se a criança morta nas arábias. Foda-se pornograficamente a mentira da mídia mundo afora. O ego quer ver o que lhe convém ou entretém – nada além!

– Saldo insuficiente. Retire seu cartão…

A mão invisível do mercado finge liberdade enquanto estrangula corações para que a economia não seja regida por direitos e humanidades, mas que sob o véu de chumbo da democracia – ou do pavor de fascismos mais explícitos e torniquetes mais vigorosos — todos lutem por privilégios de consumo e não pensem na urgência de justiça. É como se o mundo fosse menos mundo sem natais… A cidadania de fato é como um paraíso lisérgico daqueles que batem a janela do céu na nossa cara, tão logo passe a onda. A bad trip capEtalista seduz muitos, mas não ama nenhum de nós. A “res” não é pública. É corporativa! Ho.Ho.Ho!

Do mais desencantado mendigo queimando lata com sopa de perrengues urbanos e papelão picado enquanto sonha com ossobuco, ao mais faustoso burguês espocando a rolha da melhor safra e perseguindo outra, mais cara; o sonho maior está sempre eivado pela mais ampla incompletude e por significados narcóticos de privilégio, riqueza, descolamento do coletivo.

Quem quer ser simples como o mundo está implorando?

Jingle bells! Soa a sirene… – Atenção. Atenção! Atenção!! Todos os universos paralelos estarão suspensos à meia-noite. Tomem seus comprimidos! O natal da hegemonia patética será inaugurado em três, dois… Eeeee! Viva o Manicômio Santa Claus!

Lacrimeje! É tempo de paz! É tempo de amor ao próximo! É a hora do sorriso anual! Hora de descompressão daquela humanidade incômoda que teima em purgar do coração! Corram para a ceia! Acendam os pisca-piscas! Bebam! Bebam mais! Misturem bebida ruim com tarja preta! Buzinem! Explodam! Gritem! Gozem! Gozem logo! Gozem muito, o mais rápido possível e quantas vezes conseguirem! Aproveitem a noite feliz! Sigam a publicidade global! Celebrem seu natal igual, igual, igual… Empanturrem-se! Tomem o antiácido e o purgante! Curtam suas digestões exclusivas! Amanhã, vamos à liquidação!

– Sua senha não confere. Digite sua senha!

Pare de sonhar com outro mundo! Deixe sua vida de lado e renove os compromissos de seu ego com a economia. Faça um bom papel em família. Compre um presente que mostre quão próximo você consegue chegar dos burgueses para os quais sua vida não vale mais que o lucro proporcionado.

– Não encontrou o mundo que queria à venda? Seu sonho será redirecionado para um de nossos assistentes de sonho. Digite sua classe estatística e, em seguida, o código das ambições que aprendeu ajoelhado no milho… 

Cresce a economia, diminui a liberdade e o direito à natureza. Empreenda e prenda. Empreenda e deprede. Empreenda e faça de conta que seu lucro não tem nada a ver com a miséria socioambiental… Meta seu pezinho aqui na botinha ortopédica dos bancos, venha! Obtenha seu cartão de vantagens. Qualquer um pode ser rico! Repito, qualquer um pode ser rico! Sacrifique-se!, porque não há quem não aplauda sacrifícios. Puxe o saco! Puxe o tapete! Puxe seu extrato e prossiga. Obstinadamente, reze. Reze e tome seus remédios. Empreenda. Pouco aprenda, apenas prenda seus sentidos e obedeça. Suas vendas precisam crescer e nosso moedor de vidas agradece seus esforços.

Você acha mesmo que cada um é como é e tem o que tem porque merece?

Informe publicitário

No mundo em que escola quer dizer escola de credenciamento para o senso comum, para o pertencimento ao mercado, para o leque burguês de valores, para as instituições sempre tão iguais em métodos, sorrisos e obediências; cá estamos ostentando os arreios e rédeas que controlam nossas vidas a partir de hábitos com os quais não sonhamos, mas herdamos. Hábitos que não questionamos, mas carregamos como bigornas coloridas de design arrojado e belos predicados de exclusividade… Universalizamos o bem-estar ou a mentira de que todos terão acesso ao mesmo modelo insustentável se abandonarem o colo de suas histórias e verdades pessoais. Mate seu coração!

Aprendemos desde muito cedo que nossos anseios são ilegais, tanto que aqui estamos, assistindo emocionados à imposição de um modo de vida que depende da destruição de todas as cosmovisões! Feliz Natal!

– Para inserir seu currículo, disque dois… Para negociar com a empresa, disque três… Para consumir seu salário hoje mesmo, disque quatro… Para abrir mão de seus direitos, tecle cinco… Para atendimento preferencial e para conhecer os benefícios da terceirização, tecle nove… Para voltar ao menu principal, disque zero… Para sair, aguarde. Aguarde. Aguarde…

Enlouquecemos há tempos. Mas que desperdício preservarmos a sanidade, a salubridade, a qualidade de vida no planeta se ainda há tanto por lucrar, e tanta ignorância fértil, e tanta cobiça bem tratada e tanta baixa autoestima, e tanta subserviência, e tanta gente negando a si mesma… Vá à ceia e repare em quantos estariam bem longe da farsa, se conseguissem! 

– Corra! Ainda dá tempo de comprar seu presente!

O tempo demanda um Novo Paradigma, mas é de derrocada do bom senso e provas cada dia mais bizarras de que os ditames do secular senso comum ainda detêm o maior fôlego e os mais tônicos músculos na hora de esmagar os corações que não ouvimos. Enquanto os dedos grossos do mercado espremem cada gota de nossos cansaços, o mundo caminha para o colapso socioambiental sem alarde das grandes mídias, sem tomada de posição dos Estados, sem mudanças importantes nos modos de produção e consumo, e sem nenhum interesse em preparar a humanidade para o drama social submerso em questões como a elevação do nível do mar, a instabilidade climática geral, a possível quebra nas safras agrícolas, no abastecimento de água potável e outra consequências óbvias. Óbvias, se houvesse interesse humanitário, não puramente econômico, em pauta.

Salta a atendente robotizada de trás da vitrine: – Em que posso estar ajudando? A gente podemos parcelar esse descascador eletrônico de bananas de alumínio em três prestações. Descasca banana ouro, banana prata, banana nanica sem você precisar tocar na banana! Equipado com sensor ótico, três velocidades, timer e é completamente lavável… Apenas neste natal vamos estar oferecendo um kit completo de descascadores em plástico com pintura metalizada especial e com descontos incríveis!… Mas se preferir, a gente temos as mesmas peças em inóquis, sob encomenda. Custam um pouquinho mais, mas não vão estar enferrujando, confere?… Como, senhor?  Sonho de paz? Não, senhor. Há anos não vendemos. Saiu de moda, sabe?… Seu cartão, por favor?

Pós-civilização. Doutrina de choque. Tecnologia rasurando os prazos de validade vencidos de nossos paradigmas. Pós-mercado. Pós-ciência. Pós- humanismo. Mundo cambando à direita. A obsolência programada não atinge as festas cristãs. A modernidade falhou…

– Repita a operação ou aguarde na linha.

A modernidade falhou! Mas a festinha globalizada de Santa Claus e o império do Deutsch Bank continuam sagrados. E não me aparece um único fillhodaputa para inventar uma aspirina definitiva que cure o planeta Terra dessa enxaqueca higienista movida a méritos distantes de critério ético: cor da pele, religião, gênero… Eis o planeta mais diverso, mais bonito, povoado da espécie mais diversa – um desperdício de talentos condenado a uma versão exclusiva da razão, uma caixa fechada de filosofias, uma única visão de tecnologia sob uma só ideologia e um só padrão de bem-estar… Se o cara da aspirina aparecer, bro – vai para a cruz! Porque os “civilizados” passam rapidamente a belicosos com qualquer um que se oponha à sua versão da civilização: branca, cristã, patriarcal, capEtalista.

– Digite novamente sua senha! 

A tirania do domínio corporativo sobre qualquer autodeterminação ou soberania política é a maior das farsas do livre mercado. A doença infecciosa do empreendedorismo insustentável segue destruindo tudo o que toca apontando a indiferença calculada – e mesmo a psicopatia escancarada — como método de sucesso nos negócios. E cai em cascata das mais altas esferas financeiras e lobbies internacionais até o boteco da esquina sob a mesma tônica: tornar todos cúmplices dos lucros e dos passivos produzidos.

Em nosso mundo tomado de egomarcas e fidelidades, não seria preciso mais que a aparente insanidade de reconstituir historicamente o caminho de cada passivo político, cada dano ambiental, cada flanco da miséria social até seus responsáveis… E para que servem governos e diplomatas, além de evitar a justiça e garantir a receptividade das nações a essa estupidez do crescimento eterno da economia e ao imenso “deixa disso” global?

Vida, vida. Negócios à parte.

Quantas pessoas você conhece que abandonariam a vida urbana, o mercado, suas profissões, seus casamentos, suas famílias e nunca mais iriam a uma ceia de natal? Dizem que não é fácil pra ninguém. Mas é obrigatório mesmo? Tenho visto cada vez mais gente pulando fora do hospício dos normais e lembrando que é gente, resgatando a clareza de que não se compreende impermanência com incompletude…

– Débito ou crédito?

Olha o mundo, como está… Eu tenho minha ciência. Você tem a sua. Eles, a deles, intransponível. Eu afirmo e há quem negue. Você afirma e há quem negue. Eu olho ao redor e vejo. Você olha ao redor e vê. Olhamos um para o outro, desesperados – Que degradação incrível por toda parte!… Mas a mão branca invisível cerze a ciência do mercado ao tecido legal. Então, queridx, oficialmente, nem eu nem você vemos o que estamos vendo. Entendeu?

Minha ciência garante meu desespero e o seu. A ciência oficial garante a própria indiferença e se banca com nosso endosso boçal de participação no embuste consumista entre a mais intragável obediência, dívidas e um imenso silêncio à espera que as mídias transnacionais paralisem a transmissão de conflitos óbvios do capEtalismo e passem a falar em Mudanças Climáticas.

– Pamonhas! Pamonhas! Pamonhas!

Os acumuladores também têm filhos. Mas deixarão o futuro em dinheiro e as garantias em privilégios de papel timbrado. Seu amor aos descendentes dedicarão em cimento e tijolos empilhados. Deixarão heranças de lata e vidro temperado, nylon e poliéster. Solos impermeáveis e contaminados, folders de shoppings, florestas dizimadas e privatizadas… Talvez, deixem carros elétricos na garagem e algum estoque de água plastificada dependendo do ar condicionado. Conforto? Não sei. Talvez, carpete, obediência, potes de xampu e enfeites de natal.

Nunca fomos tantos buscando as mesmas coisas neste manicômio. Nem tão poucos aflitos por sentirem o tecido civilizatório esgarçando… Eu, pessimista? Não. Apenas incapaz de conter minha indignação diante de tantos conformados com o roubo do futuro, tantos alheios e entusiastas desta longa noite feliz!

– CPF na nota?