Qual pacto sagradíssimo violei naquelas poucas páginas que nenhum outro autor jamais havia violado?

Já chego à resposta.

Vamos começar com a confissão:

Foram sete dias de inferno para escrever meu primeiro romance policial.

Antes disso foram dez anos pesquisando tudo sobre assassinos em série, assistindo vídeos de autópsia, lendo entrevistas com caras “fofos” como os serial killers Dahmer e Bundy, consumindo livros de “true crime” e vendo fotos de cenas de crimes reais. E nada me preparou para a jornada ao inferno (e a volta, curada) que foi escrever as quase 400 páginas de Eu Vejo Kate. De luto pela minha mãe, foi uma semana de lágrimas e ódio para produzir um romance recheado de investigação criminal, estupro e mutilações. Tudo em nome da literatura, do realismo, e de mim mesma, caramba. Em inglês.

Como toda novata, tive minhas dúvidas: “Vão me xingar por isso. Violência demais. Palavrões demais. Tudo demais. Vão odiar isso daqui, mas tenho tanto orgulho dele…”

E aí traduzi e publiquei como independente, e as boas críticas vieram, e a Empíreo fez o convite, e o livro foi publicado, e mais críticas boas vieram, e eu fui me empolgando…Até as primeiras reclamações chegarem.

Achava estar preparada para tudo, já que escrevi um livro no qual um dos narradores é um serial killer morto, um livro no qual não há filtros nem romantismo, onde todos os relacionamentos são escrotos. Para a minha surpresa, depois de uma tiragem inteira esgotada, ninguém criticou as descrições detalhadas de tortura ou os estupros sádicos. Mas o sexo… rapaaaaz…

Nada do conteúdo de violência gerou qualquer palavra de repreensão da parte dos blogueiros e leitores cujas opiniões eu pude ver na internet. Não houve um único “violento demais”. Mas houve críticas em blogs, na Amazon, em grupos do Facebook e no Skoob sobre o “sexo vulgar demais”, “sexo apelativo”, e o clássico “sexo sem justificativa”. Intrigada com isso, principalmente na era dos livros eróticos, reli a cena principal de sexo no livro. Continuei sem entender o auê. Na verdade não tem nada bizarro, nada exótico, nada fora do normal.

“Não precisava ser vulgar,” disse um blogueiro, “não consigo imaginar um homem referindo-se a mulher que ama usando o verbo comer.” Um amigo dele escreveu embaixo: “Sim, fora isso o livro é ótimo. Queria dar para minha mãe ler, mas com essas cenas…”

Vejam bem, não estou reclamando que o livro teve algumas críticas. Meus maiores ídolos literários recebem críticas duras e, sinceramente, perto deles quem sou eu na fila do pão? Mas confesso que a revolta com o sexo consensual entre dois adultos solteiros, sóbrios e saudáveis me chocou, tendo em vista que todo o resto era excessivamente triste, violento e cru. Foram os palavrões? Descrições tímidas da existência de fluidos corporais? Uma mulher transando apenas por transar? Qual pacto sagradíssimo violei naquelas poucas páginas que nenhum outro autor jamais havia violado?

“Não vou usar a palavra machismo”, repeti para mim mesma um milhão de vezes. Tinha argumentos para tal, afinal, alguém aqui já viu um cara reclamar das cenas lésbicas de Daenerys e Cersei nas Crônicas de Gelo e Fogo? Da orgia de um dos livros mais famosos do Stephen King (não dou spoilers)? Mas se não é machismo (e ainda não estou convencida de que não é), então exatamente qual é o problema de ter sexo descrito num livro policial para adultos?

Pensei no mestre Hitchcock, cujo filme Interlúdio de (leia a seguinte data bem devagar) 1946 tem Ingrid Bergman como uma mulher que transa com um homem de que não gosta, estando apaixonada por Cary Grant, em nome da boa e velha espionagem, pelo seu país. 1946! E em 2016 temos leitores que lidam muito bem com a descrição em primeira pessoa de um estupro brutal, mas não com sexo consensual. Quando o Brasil ficou tão moralista? Sempre foi? Sempre vai ser? As perguntas me assombram.

Na tentativa de compreender, me peguei meditando sobre a reclamação do rapaz que disse que era vulgar. Fiquei tentando imaginar um sexo lento, melódico, romântico entre as personagens em questão. Não consegui. Não fazia sentido porque sinceramente não sei nem como seria fazer sexo “civilizado”, reprimindo toda a animalidade do ato. Nem faço questão de saber. E não faria sentido porque o sexo é descrito no livro para dar ao leitor uma noção de quem são aquelas pessoas: o que sentem e pensam.

Minha última pergunta para reflexão é: por que o sexo precisa ser justificado, num livro de adultos, para adultos? Na literatura de entretenimento, podemos escrever basicamente qualquer coisa, e sermos perdoados por isso. Menos sexo. Precisamos ter um “bom motivo”, uma justificativa para descrever sexo num livro. Casamentos, nascimentos, violência, morte… aqueles momentos da nossa existência que fazem parte da nossa cultura, natureza, nossos ciclos tão desgastados, tão sagrados, sempre explorados pelas artes. Sexo não. Sexo ainda, em 2016, é tabu. Mais difícil de aceitar do que estupro, do que humilhação, do que crueldade. Em dois mil e dezesseis.

Depois de meses de debate com os leitores que acharam o sexo fundamental para traçar o perfil das personagens, para justamente contrastar com a violência sexual, e com meus amigos pessoais e editores, cheguei a apenas uma conclusão: de que não vou parar, nunca, de tocar nessa ferida. Que quando sentir a vontade de escrever sobre as pessoas, imperfeitas como são, e todas as nuances da psique delas no que toca ao sexo e à morte, farei isso. Quando o que é gostoso entre duas pessoas incomoda mais do que o terror que o ser humano é capaz de causar, aí temos um bom local de exploração. E talvez um último ponto para meditação: qual é o papel desse desconforto nas relações interpessoais hoje e na nossa saúde, como comunidade?