Ontem de madrugada pela primeira vez assisti a um “MasterChef”.

Sempre tive horror à alta gastronomia, em parte por achar que aquelas porções risíveis se tornam ainda mais ridículas na frente de um cara do meu tamanho, mas principalmente por entender qualquer tentativa de transformar comida em arte como confissão cabal de desconhecimento de ambos os assuntos.

Ainda assim, curioso e teimoso que sou, fui em frente – ou melhor fui à frente da TV.

Parece que dei sorte: peguei o capítulo final do “MasterChef Oposição 2016”, seguramente um dos mais movimentados e empolgantes de toda a temporada.

E já que alegria é como cerveja – que só tem graça na companhia dos amigos -, me permiti resumir a seguir o que vi.

A coisa começou com pompa e circunstância já na entrada da apresentadora Miriam Leitão, elegante que só com suas vestes modernas de estampas que lembram gráficos descendentes, seguramente em alusão à sua visão do momento econômico brasileiro.

Toda triunfante e de cima de um tablado que a deixava ainda mais baixinha, anunciou aos candidatos finalistas a primeira prova da grande noite:

“- Preparar um delicioso escondidinho de Cunha com queijo suíço em apenas sessenta minutos!”

De seus postos os três chefs jurados ajudaram a detalhar a prova, na busca do máximo desempenho dos candidatos.

Janaína Paschoal agita a bandeira do programa e grita possuída:

 “- É o último dia da temporadaaaaaa! Tem que mereceeeeeer, tem que caprichaaaaaaar, nada de jararaca no pratoooooo!”

FHC desafia em tom professoral:

 “- Quérro verr pel mens iuna preparración deliciôs, dígn dâ finalíssim masterrrchef oposiciôn! O fromáge suíss non pode robar o savor dâ Cunha nu escondidin!”

Sergio Moro direto de Chicago onde se encontra para um curso de subversão judico-culinária, decreta com seu vozeirão de Anderson Silva via “conference call”:

 “- O povo brasileiro espera de vocês não menos que um escondidinho digno, probo e incorruptível!”

O clima é todo de expectativa e Leitão inicia oficialmente a prova>.

“- Vocês têm três minutos para as compras, só três minutos e que começam agora!”

Posicionados em suas bases, os três candidatos sacaram de pronto seus celulares e começaram com os telefonemas de compras de delações premiadas, de assessores espiões, de blogueiros, de robôs cibernéticos das redes sociais, de advogados, de relatórios de CPI, de pareceres jurídicos sobre impeachment, de aulas de tênis em Miami, de financiamentos internacionais para movimentos de direita e de toda sorte de evidências falsas, envolvendo desde papéis panamenhos a aeroportos mineiros; e por falar em aeroportos mineiros, Aécio Neves era o mais agitado entre os candidatos a MasterChef Oposição 2016: quiçá por muita vontade de ganhar mal piscava, falava sem parar e andava de um lado para o outro ininterruptamente, com uma disposição de deixar qualquer adolescente internado em clínica de reabilitação com inveja.

Michel Temer, muito sereno, falava pausadamente pelo celular, sempre tapando a boca para evitar a leitura labial. Já nesta etapa das compras Temer se mostrava o mais habilidoso dos candidatos, usando a esquerda e a direita quase simultaneamente na busca de seus ingredientes.

Jair Bolsonaro, o terceiro e último dos candidatos finalistas, se atrapalhou no início das compras e sacou a arma em vez do celular causando um rebuliço no estúdio. A confusão foi desfeita mas o deputado acabou perdendo bastante tempo – o que acabou por comprometer seu escondidinho.

A contagem regressiva para o fim das compras, marca registrada da apresentadora por conta de cada decimal durar 30 segundos, foi concluída para o fim da etapa: “Dooooisssssss, ummmmmmmmmm e acabou!”

Os candidatos aparelhados voltam então suas forças para a elaboração dos escondidinhos de Cunha com queijo suíço – que vale vaga na prova final.

“- Vou de Cunha beeeem no meio do recheio, só um pouquinho e sem fritá-lo, assim não potencializa o gosto mas ainda dá um ‘aftertaste’ gourmet tropical, meio Copacabana, meio Genebra no escondidinho. Além disso vou caprichar no queijo suíço na cobertura, em homenagem aos comedores de queijo da minha querida Minas Gerais e de todo o resto do nordeste brasileiro que tanto amo”, adianta Aécio durante a cocção. E completa:

“- Minha ideia para com esse belo prato é desbancar constitucionalmente o foodtruck de comida búlgara que de modo injusto e fraudulento ganhou o MasterChef Brasília 2014 e acabou por colocar o país nesse caos culinário”, complementa enquanto limpa o nariz e esconde Cunha entre folhas de manjericão picadas e tomatinhos-cereja.

Temer, confiante, ressalta:

“- Olha, já fizemos escondidinhos exóticos com ACM, Agripino, Luisa Erundina e até Arruda (com maiúscula), isso sem mencionar os militares de verde-azeite-de-oliva e as grandes corporações de inúmeros sabores. Assim pro nosso partido usar Cunha não será novidade alguma. E tem mais: todo peemedebista que se preze conhece muito bem queijo suíço, direto da fonte”.

Questionado sobre o foodtruck de comida búlgara e sua vitória no pleito de 2014, o candidato rebateu:

“- Não discuto amores passados. Estou focado nas minhas conspiraç…ops, em meus projetos atuais para um país melhor, com uma ponte gourmet para o futuro. Vou com muita cautela e modéstia caminhando por este MasterChef como sempre fiz em minha vida: ao lado dos bons, independente do lado que estejam”.

“- Depois de pronto, vou acrescentar por cima do meu escondidinho uns grãos de gergelim na forma de uma suástica; assim além de mostrar minhas habilidades de empratamento gourmet aproveito para deixar registrado meu protesto contra as nazifeministas doutrinadoras”, vocifera Bolsonaro com orgulho de si mesmo.

Uma pena o nazicandidato ter interpretado equivocadamente os sinais de seu irmão-fantasma que tentava lhe psicografar desde os bastidores do estúdio em linguagem velada que “suástica não, vai por mim” – o que foi provavelmente entendido como “suástica em grão de gergelim”.

A batalha gourmet seguia feérica; Aécio, Temer e Bolsonaro, cada qual ao seu estilo iam confeccionando, costurando, parindo seus escondidinhos de Cunha com queijo suíço.

Para não deixar baixar o ritmo frenético de programa, Leitão alerta:

“- Candidatos, vocês tem só mais trinta minutos, trinta minutos!”

Ao menos toda a agitação de Aécio parece ter vindo acompanhada de criatividade; seu escondidinho será o primeiro da história do MasterChef a conter farinha de trigo na decoração final – e em grandes quantidades, visto que o candidato pediu ao menos dois e-habeas corpus ao chef jurado Sergio Moro para sair do estúdio em busca de mais pacotes do ingrediente.

Temer, o ambidestro, desfilava agilidade e já tinha seu escondidinho no forno – a lenha, “o mesmo em que faço minhas pizzas”, acrescenta confiante.

Bolsonaro, incomodado desde o imbróglio bélico das compras, começou a espumar após o anúncio de Leitão; não pelo tempo faltante, mesmo porque seu escondidinho-suástica de gergelim, queijo suíço e Cunha estava praticamente finalizado, mas sim por uma mulher querer lhe dar ordens – e ainda mais em público; “típico destas vagabundas sem rola que nem merecem um estuprinho básico e que usam esse recalque todo na elaboração das provas do ENEM”, resmungou para si mesmo.

Aí a surpresa que agitou ainda mais a reta final da prova! O chef jurado FHC diz animadíssimo:

“- Parra ests ultims quânz minuts di próf vocés terrán achuda dâ votres amies”, anunciando a entrada de correligionários de todos os candidatos para ajudarem nos retoques finais dos escondidinhos.

Aécio recebeu a ajuda do sempre carismático Geraldo Alckmin, que acabou por mostrar-se infrutífera, já que o governador paulistano usou quase todo o tempo de suporte ao ipanêmico candidato a chef para beber praticamente toda a água do estúdio e para fechar mais cinco escolas no estado com um par de telefonemas.

 Temer recebeu a colaboração de sua neta Marcela – ou esposa, há controvérsias – que como nunca cozinhou na vida ajudou como pôde; sugeriu apenas que o escondidinho dentro do forno fosse coberto com páginas da revista Veja para tornar a cocção mais uniforme.

Já Bolsonaro, com seu prato bem adiantado e pronto, pôde usar a presença de seus filhos no estúdio para trabalhar na tradução e versão funk carioca de “Hosrt Wessel Lied”, a canção que embalará suas próximas campanhas.

Leitão anuncia: “Trêêêêêês, doiiiiiiiiiissss, ummmmmmmm e acabou, levantem os braços! Mãos para o alto! Não, candidatos, não é assalto, estamos no estúdio e não no plenário, por favor! Bolsonaro, guarde a arma, de novo não!”

Fim da temporada. É a hora da verdade.

Os candidatos apresentam seus escondidinhos aos jurados.

O primeiro é Aécio.

“- Hummmmm, ulá-lá! Tem iuna estruturra ess plát, iun sentid, é bom ma\é um pôc séc”, decreta FHC.

“- Obrigado, chef”, sorri Aécio de cabeça baixa, seguramente envergonhado por estar com o rosto ainda tão sujo de branco, fruto de sua labuta gourmet.

“- Serrá que é le suficiant prra garantir a victoár? Non sei…” completa o jurado octogenário ao voltar para seu posto limpando a boca de sovaco.

“- O que é isso cobrindo o escondidinho? Açúcar de confeiteiro?”, questiona Janaína.

“- Sim, chef; na verdade uma mistura de açúcar de confeiteiro com farinha de trigo e raspas de aspirina, pra dar aquele toque gourmet!”, responde animado e lépido o candidato.

“- Saboroso, viu… Quando olhei achei que não ia ficar bom, mas quando soube que era o seu… Olha, parabéns, mesmo sem poder provar sei que está bom!”, completa Sergio Moro, à distância.

“Obrigado, chef”, finaliza voltando estufado à sua base.

A vez é de Temer.

“- É um pôc massent, mazé bon!”, comenta FHC ainda mastigando.

“- Obrigado, chef”.

“- Será que esse mata jararaca? Se matar quero a receita”, comenta enigmática Janaína.

“- Espero que sim, chef. A receita só depois de assumir a preside…ops, só depois de escrever meu livro de receitas”, rebate Temer.

Moro diz: “- desde Chicago não enxergo nada que desabone seu escondidinho, candidato”.

 “- Muito grato”, arremata Temer com aquele sorriso de canto de boca que faz gelar o país de medo.

Chegada a vez de Bolsonaro.

“Mas o quéiss? Qué porrcarrie é ést?”, brada FHC.

“- Eu só achei que…”, gagueja Bolsonaro ao buscar justificativas.

 “- Gerrgelân non combin con escondidin! Tá louk?”

 “- E-e-eu…não sabia…”

“- Térrible, térrible!”

Moro diz: “- Odeio gergelim e pela já consolidada teoria do domínio do olfato – e por jurisprudência gourmet também do paladar – posso julgar à distância e dizer que está ruim sem nem experimentar”.

“- Sim, chef”, diz resignado Bolsonaro.

 

“- Peraí, também não é assim! Vamos dar uma chance pro senhor, que é branco, tem olhos claros e é de bem. Deixe-me experimentar… Hummm… Olha, não está de todo ruim, só falta alguma coisa, não sei o que é…”, diz Janaína sem muita convicção.

 “- Obrigado, chef”, balbucia um Bolsonaro cabisbaixo, prevendo sua eliminação.

 Com todos os pratos provados e avaliados, vai se aproximando a hora I – de impeachment gourmet.

 “- Tré biân, tré biân; alor nous jurráds prrécisams de iun breve reunión pra decidir le victorios, ok?”, sentencia FHC, saindo para uma sala reservada no estúdio, acompanhado dos demais juízes.

 A espera é angustiante. Os três candidatos mostram nervosismo e o tempo parece não passar.

 É hora dos comerciais; aproveito para dar um pulo na cozinha antes de assistir à prova final.

 Isso tudo me deu fome.

 

 Quando volto FHC já anunciava:

 “- La disput foi três dificile. Mas nous eliminams iu candidat premier: Bolsonarro, votre escondidin estaf horrible! Pod tirar votre faixa”.

 Foi assim que Bolsonaro, muito decepcionado, saca a faixa, a arma, o distintivo e o celular e deixa o recinto, sob o aplauso caloroso de todos.

 “- Quem vai ganhar o MasterChef Oposição 2016, Bolsonaro?”, pergunta Moro em tom provocativo via Embratel.
“- Qualquer um, comunista por comunista tanto faz”, responde um mal-humorado Bolsonaro ao fechar a porta atrás de si.

FHC segue então para o anúncio definitivo da temporada:

“- Forran muits prrograms atê xegar aqui. Várrrios tré bons candidats sairram eliminads; Os dois finalists são muit especiais. Aécio é aind iun menín, com muit tâmp pela frânt. Temer é um candidat mais madurro e que sab esperrar as coisa, mas porrrotro lád non garrante iun cozimento eficaz. Assim, noss decisiôn, motivad exclusivament por fort pressión popular é porrum âmpate na secund posición. Vams agorra tods ter que esquecer âsse empeachment, ops, essa chose de gastronomie e cozinhar o govern junts por três ans pra Lula non participarr do prróxim MasterChef dâ 2018”.

Os candidatos se abraçam emocionados ainda que um tanto frustrados com a dupla segunda colocação; os jurados cumprimentam Aécio e Temer, mas o anticlímax continua nas despedidas.

Leitão começa em clima de velório sua fala de encerramento, tentando animar a plateia com as possibilidades de impeachment búlgaro ainda pelo MasterChef STF este ano, mas desligo a TV.

Porque não há nem sombra de “chef” na oposição.

Nem gourmetizando Aécio.

Nem cobrindo Temer com chantili.

Já chega de MasterChef.

Temos uma chef no comando.

 

Até 2018.

E o choro, regado a grand cru ou não, é livre.