No caminho da roça ainda é possível encontrar aquela ponte com tábuas espaçadas, o mata-burro, onde o cavalo tem medo de passar e cair. Muita gente que já caiu do cavalo, levando uma vida pesada na cidade, está migrando para outros lugares em busca de qualidade de vida.

Desde os anos 80, o escritor GeraldoVarjabedian, que escreve para a Revista Língua de Trapo, está às voltas com pautas ambientais e/ou ligadas à sustentabilidade.“Entre outras atividades, plantar é uma das alternativas mais atraentes, até como forma de soberania. Isso toca a autonomia e permite um controle da produção do alimento. Afinal, as pessoas não sabem mais o que compram e comem por aí. Agrotóxicos, banhos de radiação, regas com águas duvidosas, solos contaminados, logística mecanizada, enfim, não faltam motivos.” Para chegar ao atual cultivo de plantas alimentícias não convencionais- PANC – Geraldo percorreu um longo trajeto.

O mesmo aconteceu com o casal Leo Mazmanian e Dani Azenha, que tem dois filhos e um terceiro está a caminho. Eles viviam no caos de São Paulo. O contato com a natureza era luxo. Eles programaram uma mudança radical de vida, adquiriram um terreno em Bragança Paulista, onde construíram um chalé. Começaram com uma horta orgânica e a aplicar conceitos de permacultura, que engloba agroecologia, sistemas humanos sustentáveis e holísticos.  Hoje, o casal produz o próprio alimento e a matéria-prima para hambúrgueres e produtos veganos comercializados na Feira do Produtor Rural.

Geraldo observa alguns casos em que não há uma entrega total. “Precisamos ter claro que essa fuga da cidade não exclui a cidade. Essa gente urbana leva consigo hábitos e confortos que acabam por distorcer a vocação desses lugares. E isso implica em degradação ambiental e faz acelerar o ´desenvolvimento` local dentro dos moldes urbanos trazidos pelos fugidos, pisoteando a identidade do lugar. Se as pessoas quisessem mudar algo de fato, mudariam seu âmbito nos locais onde moram.”

No entanto, há moradores da cidade que se tornam permacultores.Em São Paulo capital, o grupo Hortelões Urbanos formaram uma rede humana voltada para a produção de alimentos de qualidade. Se na cidade a preocupação maior é com o CO2, dióxido de carbono, o CH4, gás metano, atinge o campo e afeta o mundo. Produzido pela criação extensiva de bovinos, a emissão mundial já chegou a 80 milhões de toneladas de metano por ano, segundo a Embrapa.

Nos últimos 200 anos, a concentração deste gás na atmosfera aumentou de 0,8 para 1,7 ppm (partes por milhão), e contribuiu para o aquecimento do planeta. Este impacto resultou no “Imposto sobre gás metano”, que é um projeto da estudante mineira Mariana Carolina Rezende, de 17 anos. Foi proposto um percentual de 15% sobre o lucro anual da atividade pecuária, para ser revertido em políticas públicas e ambientais. O projeto foi selecionado em segundo lugar no Parlamento Jovem da Assembleia de Minas Gerais. Geraldo acrescenta:“Nada reconstitui a atmosfera melhor que a redução drástica no consumo de carne e derivados.”

Valores sofisticados 


A recente incorporação da companhia de sementes Monsanto pela Bayer formou um líder global na agricultura. É um mercado promissor, principalmente no Brasil, líder mundial no consumo de agrotóxicos.Em 2003, havia três milhões de hectares de áreas plantadas no país. Em 2014, saltou para uma área de 42,2 milhões. São dados do ISAAA – Portal de Dados Abertos sobre Agrotóxicos. Trabalhos de conscientização também têm aumentado. Somente no site contraosagroticos.org constam 126 movimentos nacionais, estaduais e regionais atuantes.

Orgânica ou convencional, no campo, em estâncias balneárias e outros lugares, a agricultura familiar cresce no país, combate o desemprego e o desperdício de alimentos, estimula o desenvolvimento econômico, reduz o volume de lixo e preserva saberes vinculados à natureza.

Hoje, a família de Leo desenvolve uma bioconstrução para expandir os negócios, trata o esgoto sem poluir rios, capta água da chuva e se tornou multiplicadora desses valores de vida. Os filhos são criados com padrões sustentáveis, sem consumismo desnecessário, cuidam dos recursos renováveis e exploram possibilidades infinitas que só fazem bem.

Geraldo se mudou para Bertioga, montou um ateliê e incorporou a fitoterapia. Estudou e plantou espécies medicinais da Mata Atlântica. Adotou a Alimentação Viva ou crudivorismo, baseado em sucos, clorofila, sementes germinadas etc. Depois, ao aderir à Agenda 21, trabalhou com a  Mudança de Hábitos de Consumo. Tentou cultivar plantas convencionais, mas foi direcionado para as PANC. Acumulou conhecimentos e começou a dar cursos e oficinas para grupos ligados a ecovilas, permacultores, agricultores orgânicos, grupos de consumo consciente, cooperativas ligadas à produção e outros sabores.

Para Leo, “Nossa minirrevolução está em produção e o caminho é sem volta”. Para Geraldo, “Meu modo de trabalhar é encontrar causas”. Uma das principais causas de mudança na vida foi proporcionada pela filha.

O mata-burro é o caminho simbólico para se chegar a esse padrão de vida mais inteligente e feliz.

Fotografia: Cadu de Castro